CAN 2017

Ca­ma­rões re­gres­sa às vi­tó­ri­as

Africa21 - - Aos Leitores - Luís Ramiro

De­pois de ter co­me­ça­do o jo­go a per­der, a se­le­ção ca­ma­ro­ne­sa de fu­te­bol der­ro­tou o Egi­to, por 2-1, na fi­nal da 30.ª edi­ção da Ta­ça Afri­ca­na de Fu­te­bol (CAN 2017), em jo­go dis­pu­ta­do em Li­bre­vil­le, ca­pi­tal do Ga­bão, no dia 5 do atu­al mês de fe­ve­rei­ro. O go­lo da vi­tó­ria foi mar­ca­do por Abou­ba­kar, aos 88 mi­nu­tos. O Egi­to inau­gu­rou o mar­ca­dor no es­tá­dio da Ami­za­de, na ca­pi­tal ga­bo­ne­sa, aos 22 mi­nu­tos, por El­neny, mas N’Kou­lou deu o em­pa­te aos Ca­ma­rões, aos 59’, e o avan­ça­do ca­ma­ro­nês, em­pres­ta­do pe­lo por­tu­guês FC Por­to ao Be­sik­tas, da Tur­quia, con­su­mou a reviravolta pa­ra ga­ran­tir aos leões in­do­má­veis o pri­mei­ro tí­tu­lo des­de 2002. O Egi­to, no­ve ve­zes fi­na­lis­ta da CAN, ga­nhou pe­la úl­ti­ma vez em 2010, mas con­ti­nua a ser re­cor­dis­ta de vi­tó­ri­as da prin­ci­pal com­pe­ti­ção afri­ca­na, com se­te tí­tu­los, mais dois do que os Ca­ma­rões. Re­ce­bi­da em fes­ta pe­la po­pu­la­ção à sua che­ga­da a Dou­a­la, ca­pi­tal do país, a se­le­ção ca­ma­ro­ne­sa foi ho­me­na­ge­a­da e con­de­co­ra­da pe­lo Pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca, Paul Biya. «Vo­cês en­fren­ta­ram as me­lho­res equi­pas, as mais aguer­ri­das, e co­mo vo­cês pró­pri­os dis­se­ram, co­lo­ca­ram-nas de ‘mo­lho’», co­me­çou por di­zer o che­fe de Es­ta­do ca­ma­ro­nês, di­ri­gin­do-se aos jo­ga­do­res pre­sen­tes na ce­ri­mó­nia no pa­lá­cio pre­si­den­ci­al. Paul Biya enal­te­ceu o «ta­len­to» dos jo­ga­do­res e aqui­lo que de­sig­nou de «blo­co só­li­do co­mo uma ro­cha», ten­do en­tre­ga­do a ca­da um uma con­de­co­ra­ção: uma me­da­lha de ca­va­lei­ro da or­dem, co­mo re­co­nhe­ci­men­to ofi­ci­al pe­la con­quis­ta do quin­to CAN da his­tó­ria do país. O Pre­si­den­te dis­se tam­bém aos jo­ga­do­res ter vi­bra­do com as vi­tó­ri­as da se­le­ção, che­gan­do ao pon­to de di­zer que os pró­xi­mos ad­ver­sá­ri­os de­vem sa­ber que «os leões in­do­má­veis [os Ca­ma­rões] es­tão de re­gres­so». Os Ca­ma­rões, re­cor­de-se, con­quis­ta­ram o tro­féu em 1984, 1988, 2000, 2002 e ago­ra, em 2017. O país com mai­o­res vi­tó­ri­as no cam­pe­o­na­to afri­ca­no de se­le­ções é o Egi­to, fi­na­lis­ta ven­ci­do da edi­ção des­te ano (2-1), com

se­te triun­fos, em 1957, 1959, 1986, 1998, 2006, 2008 e 2010.

His­tó­ria

A his­tó­ria da CAN co­me­çou em Por­tu­gal, em ju­nho de 1956. No Ho­tel Ave­ni­da, em Lis­boa, os de­le­ga­dos de se­te fe­de­ra­ções afri­ca­nas, que se en­con­tra­vam a par­ti­ci­par no Con­gres­so da FIFA, re­sol­ve­ram que era al­tu­ra de fun­dar uma Con­fe­de­ra­ção Afri­ca­na de Fu­te­bol (CAF) e de or­ga­ni­zar uma com­pe­ti­ção con­ti­nen­tal. Re­pre­sen­tan­tes da So­má­lia, Áfri­ca do Sul, Egi­to e Su­dão acor­da­ram en­con­trar-se no ano se­guin­te em Car­tum, ca­pi­tal do Su­dão, pa­ra ofi­ci­al­men­te fun­dar a CAF a 8 de fe­ve­rei­ro de 1957. Con­tu­do, os sul-afri­ca­nos, em vir­tu­de do apartheid, fo­ram ex­cluí­dos da com­pe­ti­ção pe­los ou­tros par­ti­ci­pan­tes, ini­ci­an­do um lon­go boi­co­te que per­du­ra­ria até ao fim do re­gi­me sul-afri­ca­no. Dois di­as de­pois des­sa reu­nião fun­da­do­ra, co­me­ça­va a pri­mei­ra edi­ção da com­pe­ti­ção: os su­da­ne­ses es­tre­a­ram-se per­den­do em ca­sa 1-2 com o Egi­to, que as­sim se apu­ra­va pa­ra a pri­mei­ra fi­nal da com­pe­ti­ção on­de o es­pe­ra­va a Etió­pia, já apu­ra­da em vir­tu­de da «au­sên­cia» sul-afri­ca­na. A pri­mei­ra fi­nal não te­ve mui­ta his­tó­ria e os fa­raós ven­ce­ram por 4-0, com qua­tro go­los de Ad-Di­ba, con­quis­tan­do o pri­mei­ro dos mui­tos tro­féus que aju­da­ram a tor­nar o país do Ni­lo no mais ti­tu­la­do do con­ti­nen­te. Du­ran­te a dé­ca­da de ses­sen­ta, o con­ti­nen­te pas­sou por uma pro­fun­da trans­for­ma­ção, com o nascimento de di­ver­sos paí­ses que se li­ber­ta­vam do ju­go co­lo­ni­al. Com as in­de­pen­dên­ci­as, o fu­te­bol sub­sa­ri­a­no ga­nhou no­vo es­pa­ço e o Ga­na tor­nou-se na gran­de po­tên­cia con­ti­nen­tal, cha­man­do a si a su­pre­ma­cia e con­quis­tan­do a pro­va em 1963 e 1965, con­se­guin­do o se­gun­do lu­gar nas edi­ções se­guin­tes, ga­nhas res­pe­ti­va­men­te pe­la RD Con­go (1968) e pe­lo Su­dão (1970). Em 1972, re­a­li­zou-se pe­la pri­mei­ra vez um tor­neio num país fran­có­fo­no da Áfri­ca Sub­sa­ri­a­na: os Ca­ma­rões. A vi­tó­ria sor­riu, con­tu­do, ao Con­go-Braz­za­vil­le, que de­pois de eli­mi­nar os an­fi­triões, ba­teu o Ma­li na fi­nal. Se­gui­ram-se as vi­tó­ri­as do Zai­re (RD Con­go) e de Mar­ro­cos, an­tes do Ga­na re­con­quis­tar o tro­féu e vol­tar a re­cla­mar a su­pre­ma­cia na com­pe­ti­ção. Em 1980 foi a vez da Ni­gé­ria fa­zer va­ler o fa­tor ca­sa, mas na edi­ção se­guin­te, na Lí­bia, os ga­ne­ses ba­te­ram os an­fi­triões na fi­nal após de­sem­pa­te por gran­des pe­na­li­da­des, le­van­do a ta­ça pa­ra ca­sa. A dé­ca­da de oi­ten­ta inau­gu­rou um pe­río­do de do­mí­nio ca­ma­ro­nês com vi­tó­ri­as em 1984 e 1988, e um se­gun­do lu­gar em 1986, nu­ma der­ro­ta no de­sem­pa­te por pe­nál­tis, con­tra o Egi­to, que a jo­gar em ca­sa con­quis­tou o seu ter­cei­ro tro­féu. A lis­ta de gló­ri­as da com­pe­ti­ção cres­ceu nos anos no­ven­ta com as vi­tó­ri­as da Ar­gé­lia e da Cos­ta do Mar­fim. Em 1994 foi a vez de uma Ni­gé­ria for­tís­si­ma, com jo­ga­do­res co­mo Amo­ka­chi, Ye­ki­ni e Amu­ni­ke, fa­zer o bis, con­fir­man­do o es­ta­tu­to de no­va po­tên­cia do con­ti­nen­te, ba­ten­do a Zâm­bia, que sur­pre­en­den­te­men­te, che­ga­va a fi­nal, me­ses de­pois de ter per­di­do 18 jo­ga­do­res no de­sas­tre aé­reo em Li­bre­vil­le, no Ga­bão. Dois anos de­pois, a Áfri­ca do Sul, que uma vez ter­mi­na­do o re­gi­me do Apartheid vol­ta­ra ao seio da fa­mí­lia do fu­te­bol afri­ca­to,

Os Ca­ma­rões con­quis­ta­ram o tro­féu em 1984, 1988, 2000, 2002 e ago­ra, em 2017

no, ga­nha­ra o di­rei­to de or­ga­ni­zar a com­pe­ti­ção. O país de Nel­son Man­de­la fez his­tó­ria e ven­ceu a com­pe­ti­ção lo­go na es­treia. Os ba­fa­na ba­fa­na con­se­gui­ram imi­tar os fei­tos dos Spring­boks (se­le­ção na­ci­o­nal de râ­gue­bi) que um ano an­tes ti­nham uni­do o país em tor­no da equi­pa, con­quis­tan­do o Cam­pe­o­na­to Mun­di­al de Râ­gue­bi pe­la pri­mei­ra vez. Na CAN, os ba­fa­na ba­fa­na só fo­ram ba­ti­dos pe­lo Egi­to ain­da na fa­se de gru­po, mas de­pois en­ce­ta­ram uma ca­mi­nha­da ful­gu­ran­te que cul­mi­nou com a vi­tó­ria por 2-0 so­bre a Tu­ní­sia, no Soc­cer City, em Jo­a­nes­bur­go. Dois anos de­pois, no Bur­ki­na Fa­so, os sul-afri­ca­nos vol­ta­ram à fi­nal, mas per­de­ram com o cró­ni­co cam­peão Egi­to, que as­sim igua­la­va o Ga­na no nú­me­ro de tro­féus con­quis­ta­dos. Com du­as vi­tó­ri­as, em 2000 e 2002, os Ca­ma­rões igua­la­ram o Ga­na e o Egi­to com qua­tro ce­tros, re­for­çan­do o seu pa­pel de gran­de po­tên­cia con­ti­nen­tal. Mas, en­tre­tan-

a li­de­ran­ça do fu­te­bol afri­ca­no vol­tou a su­bir pa­ra o nor­te. O ano de 2004 mar­cou a es­treia da Tu­ní­sia na lis­ta dos ven­ce­do­res. 2006, 2008 e 2010 trou­xe­ram um his­tó­ri­co tri­cam­pe­o­na­to que trans­for­mou o Egi­to no mais ti­tu­la­do de to­dos os paí­ses do con­ti­nen­te ne­gro. Dois anos de­pois, nu­ma com­pe­ti­ção re­a­li­za­da pe­lo Ga­bão e Gui­né-Equa­to­ri­al, pa­ra a qual os cam­peões sur­pre­en­den­te­men­te não se qua­li­fi­ca­ram, a sur­pre­sa con­ti­nu­ou com o apu­ra­men­to dos dois an­fi­triões pa­ra os quar­tos-de-fi­nal e a vi­tó­ria da Zâm­bia, na fi­nal dis­pu­ta­da com a Cos­ta do Mar­fim em Li­bre­vil­le. Um ano vol­vi­do, a com­pe­ti­ção re­gres­sou à Áfri­ca do Sul. Na gran­de fi­nal jo­ga­da no Soc­cer City em Jo­a­nes­bur­go, a fa­vo­ri­ta Ni­gé­ria le­vou a me­lhor so­bre o Bur­ki­na Fa­so e con­quis­tou a pro­va pe­la ter­cei­ra oca­sião, qua­se vin­te anos pas­sa­dos so­bre a con­quis­ta da ge­ra­ção dou­ra­da de Amo­ka­chi, Ye­ki­ni e Amu­ni­ke.

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