Os ca­mi­nhos da ex­tre­ma-di­rei­ta

Africa21 - - Europa - CAR­LOS PINTO SAN­TOS NI­CO­LE GU­AR­DI­O­LA

Du­ran­te as dé­ca­das de 1960 e 70, fa­la­va-se da di­rei­ta «ra­di­cal» que «na­mo­ra­va» com pro­pos­tas na­ci­o­na­lis­tas, an­ti­de­mo­crá­ti­cas, ra­cis­tas, xe­nó­fo­bas e um Es­ta­do for­te. A sua ima­gem era as­so­ci­a­da aos gru­pús­cu­los de sau­do­sis­tas das di­ta­du­ras eu­ro­pei­as do sé­cu­lo XX. Ca­be­ças ra­pa­das, bo­tas e sau­da­ções na­zis fa­zi­am par­te do fol­clo­re des­tes fa­ná­ti­cos, co­mo a vi­o­lên­cia ver­bal e fí­si­ca. Ho­je o mo­vi­men­to to­mou ou­tras di­men­sões, e as su­as fron­tei­ras tor­na­ram-se di­fu­sas; os par­ti­dos que o cons­ti­tu­em de­cla­ram-se «an­tis­sis­te­ma», so­be­ra­nis­tas, na­ci­o­na­lis­tas, pa­tri­o­tas, a im­pren­sa e os ana­lis­tas pre­fe­rem cha­mar-lhes «po­pu­lis­tas de di­rei­ta». A ex­tre­ma-di­rei­ta tem tam­bém as su­as di­fe­ren­ças, que de­fen­de ze­lo­sa­men­te em no­me da iden­ti­da­de e da so­be­ra­nia na­ci­o­nal. Pa­ra a UDC (União De­mo­crá­ti­ca do Cen­tro), o par­ti­do mais à di­rei­ta da Suí­ça, o FN fran­cês «é de es­quer­da», co­le­ti­vis­ta, es­ta­tis­ta, cen­tra­li­za­dor, en­quan­to a UDC é li­be­ral em eco­no­mia e fe­de­ra­lis­ta. Pa­ra Je­an Ja­min, pro­fes­sor de ci­ên­ci­as po­lí­ti­cas da Uni­ver­si­da­de de Liè­ge, na Bél­gi­ca, há três cri­té­ri­os que de­fi­nem a ex­tre­ma-di­rei­ta. Em pri­mei­ro lu­gar, «a cren­ça na de­si­gual­da­de en­tre po­vos, cul­tu­ras, ra­ças e ci­vi­li­za­ções, ti­da co­mo na­tu­ral». Em se­gun­do lu­gar, o na­ci­o­na­lis­mo de­ve ser de­fen­di­do co­mo «um ins­tru­men­to que per­mi­te a um po­vo su­pe­ri­or de­fen­der-se dos ini­mi­gos in­ter­nos e ex­ter­nos». Fi­nal­men­te, o par­ti­do de­ve to­le­rar (des­cul­par, apoi­ar?) «mé­to­dos ra­di­cais pa­ra al­can­çar os seus ob­je­ti­vos con­si­de­ra­dos in­dis­pen­sá­veis e in­con­tes­tá­veis». Se for­ma­ções co­mo a Au­ro­ra Dou­ra­da na Gré­cia, a Li­ga Nor­te em Itá­lia, ou o Bri­tish Na­ti­o­nal Party cor­res­pon­dem ple­na­men­te aos três cri­té­ri­os, ou­tros não, em par­ti­cu­lar ao ter­cei­ro. Porquê rom­per com o «sis­te­ma», qu­an­do se con­se­guiu o po­der de for­ma «de­mo­crá­ti­ca», ou se­ja, pe­las ur­nas? É o ca­so da UDC já ci­ta­da, par­ti­do mais vo­ta­do na Suí­ça des­de 1999 e que faz par­te, em vir­tu­de do ori­gi­nal mo­de­lo po­lí­ti­co suí­ço, das mais al­tas ins­tân­ci­as do po­der fe­de­ral. For­ça­do a de­fen­der as po­lí­ti­cas de­ci­di­das co­le­gi­al­men­te, a UDC re­cor­re à de­mo­cra­cia di­re­ta (por via de re­fe­ren­do) pa­ra im­por as su­as ini­ci­a­ti­vas que con­tra­ri­am os ou­tros par­ti­dos co­mo a proi­bi­ção dos mi­na­re­tes, as res­tri­ções à li­vre-cir­cu­la­ção de pes­so­as den­tro do es­pa­ço Schen­gen, ou a po­lí­ti­ca de acor­dos bi­la­te­rais com a UE. A evo­lu­ção do Fi­desz hún­ga­ro, li­de­ra­do des­de 1990 por Vik­tor Or­ban, pri­mei­ro-mi­nis­tro des­de 2014, é ilus­tra­ti­va. O par­ti­do es­tá ago­ra a milhas das su­as ori­gens (li­be­ral de cen­tro di­rei­ta), mas ra­di­ca­li­za­ção e po­pu­la­ri­da­de têm an­da­do de mãos da­das, de quin­to par­ti­do mais vo­ta­do ao pri­mei­ro lu­gar. O Fi­desz ob­te­ve mes­mo a mai­o­ria ab­so­lu­ta dos vo­tos em 2010 (54,7%). O li­gei­ro re­cuo re­gis­ta­do nas le­gis­la­ti­vas se­guin­tes (44,5%) é atri­buí­vel ao re­ceio de san­ções da UE pe­las ati­tu­des mais agres­si­vas de Or­ban con­tra os re­fu­gi­a­dos, a im­pren­sa ou a Cons­ti­tui­ção. Não há ra­zões pa­ra te­mer re­pre­sá­li­as por­que Bru­xe­las não es­tá em con­di­ções de re­a­gir co­mo em 2000, qu­an­do sus­pen­deu a Áus­tria das su­as ins­tân­ci­as após a en­tra­da do par­ti­do de Jöerg Hai­der, o FPÖ (Freihei­tli­che Par­tei Ös­ter­rei­chs - Par­ti­do da Li­ber­da­de da Áus­tria) no go­ver­no de Vi­e­na. Por­que o can­di­da­to do FPÖ, Nor­bert Ho­fer, es­te­ve a uma unha ne­gra de ga­nhar as elei­ções pre­si­den­ci­ais aus­tría­cas de 2016 e por­que os go­ver­nos de três ou­tros paí­ses da Eu­ro­pa Cen­tral (Eslováquia, Po­ló­nia, Re­pú­bli­ca Che­ca) apoi­am em lar­ga me­di­da as po­si­ções de Or­ban em re­la­ção aos re­fu­gi­a­dos, con­tra o Is­lão, em defesa da «ci­vi­li­za­ção cris­tã».

Da Es­can­di­ná­via às mar­gens do Me­di­ter­râ­neo, pas­san­do pe­lo Rei­no Uni­do, «o po­pu­lis­mo de di­rei­ta» se­duz um nú­me­ro cres­cen­te de eu­ro­peus. Par­ti­dos da ex­tre­ma-di­rei­ta en­tram nos go­ver­nos ou es­pe­ram ven­cer as pró­xi­mas elei­ções na Fran­ça e na Ho­lan­da. Da Es­can­di­ná­via ao Me­di­ter­râ­neo, a ma­ré con­ti­nua a cres­cer, com os “po­pu­lis­tas de di­rei­ta” a mo­bi­li­zar en­tre 10% e 25% dos elei­to­res

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