PO­PU­LA­ÇÃO? 29 MI­LHÕES. PO­BRES? (SÓ) 20 MI­LHÕES!

Folha 8 - - DESTAQUE -

Em 1989, o Con­se­lho de Go­ver­na­do­res do Pro­gra­ma de De­sen­vol­vi­men­to das Na­ções Uni­das ins­ti­tuiu o dia 11 de Ju­lho co­mo Dia Mun­di­al da Po­pu­la­ção. Es­te dia é ce­le­bra­do em to­do o mun­do com o (su­pos­to) ob­jec­ti­vo de aler­tar os Es­ta­dos e as ins­ti­tui­ções para as ques­tões do pla­ne­a­men­to e do de­sen­vol­vi­men­to po­pu­la­ci­o­nal, quan­do uma par­te sig­ni­fi­ca­ti­va da hu­ma­ni­da­de (ve­ja-se o ca­so de Angola) não tem aces­so aos re­cur­sos e ser­vi­ços bá­si­cos, co­mo saú­de, edu­ca­ção, sa­ne­a­men­to bá­si­co e ali­men­ta­ção. Angola é, por exem­plo, dos no­ve Es­ta­dos lu­só­fo­nos o país com pi­or co­ber­tu­ra de ser­vi­ços bá­si­cos de Saú­de, se­gun­do a Or­ga­ni­za­ção Mun­di­al de Saú­de (OMS) e o Ban­co Mun­di­al (BM). Se­rá pos­sí­vel? In­de­pen­den­te há qua­se 43 anos, ten­do no go­ver­no sem­pre o mes­mo par­ti­do (o MPLA), es­tan­do há 16 anos em paz to­ral, sen­do um país ri­co… al­go vai mal (mui­to mal) no rei­no. Se­rá en­tão ca­so para dar os pa­ra­béns a es­te par­ti­do, no­me­a­da­men­te a Jo­sé Edu­ar­do dos San­tos, mas sem es­que­cer o novo pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca (e em bre­ve tam­bém do MPLA), João Lou­ren­ço, que ape­sar de ter che­ga­do ao car­go há pou­cos me­ses fez du­ran­te anos, mui­tos anos, par­te da es­tru­tu­ra di­ri­gen­te do MPLA, sen­do por is­so co­ni­ven­te no de­sas­tre des­te país. País que, aliás, é lí­der nou­tros “ran­kings”, ca­sos da cor­rup­ção e da mor­ta­li­da­de in­fan­til. Nos ser­vi­ços bá­si­cos, o país do MPLA tem uma ta­xa de co­ber­tu­ra de ape­nas 36%. De en­tre as na­ções lu­só­fo­nas, se­guem-se a Gui­né-bis­sau, com 39%, Mo­çam­bi­que (42%), Ti­mor-les­te (47%), São To­mé e Prín­ci­pe (54%), Ca­bo Ver­de (62%) e Bra­sil (77%). Por­tu­gal é o país lu­só­fo­no com me­lhor re­sul- ta­do, ten­do mais de 80% da sua po­pu­la­ção co­ber­ta. Se­gun­do um re­la­tó­rio in­ti­tu­la­do “Trac­king Uni­ver­sal He­alth Co­ve­ra­ge: 2017 Glo­bal Mo­ni­to­ring Re­port`”, pe­lo me­nos metade da po­pu­la­ção mun­di­al não tem aces­so a cui­da­dos es­sen­ci­ais de Saú­de.

Angola é dos no­ve Es­ta­dos lu­só­fo­nos o país com pi­or co­ber­tu­ra de ser­vi­ços bá­si­cos de Saú­de, se­gun­do a Or­ga­ni­za­ção Mun­di­al de Saú­de (OMS) e o Ban­co Mun­di­al (BM).

Pois é, jus­ti­fi­ca o MPLA. Em mui­tos paí­ses que en­fer­mam do mes­mo mal os go­ver­nos não são do MPLA. Tem ra­zão. Mas, re­co­nhe­ça­mos, é um tris­te con­so­lo. O re­la­tó­rio, que ava­lia in­di­ca­do­res na área da Saú­de em mais de 120 paí­ses, re­fe­re que mais de 800 mi­lhões de pes­so­as em to­do o mun­do, o cor­res­pon­den­te a 12% da po­pu­la­ção mun­di­al, gas­tam me­nos de 10% do seu or­ça­men­to fa­mi­li­ar em cui­da­dos de Saú­de. Ape­sar de se ter re­gis­ta­do um pro­gres­so de 3% no cum­pri­men­to da me­ta de aces­so a cui­da­dos de Saú­de, os da­dos do re­la­tó­rio in­di­cam que pe­lo me­nos 180 mi­lhões de pes­so­as gas­tam um quar­to do seu or­ça­men­to nes­ta área e que es­te gru­po es­tá a cres­cer a um rit­mo de 5% ao ano. O di­rec­tor de Saú­de e Nu­tri­ção do Ban­co Mun­di­al, Ti­mothy G. Evans, as­si­na­lou que o cres­ci­men­to se de­ve ao fac­to de “os go­ver­nos não con­fe­ri­rem pri­o­ri­da­de à saú­de pú­bli­ca e de as pes­so­as te­rem ca­da vez mais al­tas ex­pec­ta­ti­vas de co­mo de­ve es­tar a sua saú­de”, le­van­do-as a pa­gar “por­que não ob­têm uma co­ber­tu­ra pú­bli­ca su­fi­ci­en­te”. A di­rec­to­ra-ge­ral ad­jun­ta do de­par­ta­men­to de Co­ber­tu­ra Sa­ni­tá­ria Uni­ver­sal da OMS, Na­o­ko Ya­ma­mo­to, re­al­çou o sur­gi­men­to de en­ti­da­des pri­va­das de as­sis­tên­cia mé­di­ca para su­prir as ne­ces­si­da­des que “de­ve­ri­am ser co­ber­tas pe­los ser­vi­ços pú­bli­cos”. O re­la­tó­rio apon­ta a Amé­ri­ca La­ti­na co­mo a re­gião no mun­do que apre­sen­ta a me­nor per­cen­ta­gem de pes­so­as que gas­tam pe­lo me­nos 10% do or­ça­men­to fa­mi­li­ar em as­sis­tên­cia na área da Saú­de, re­gis­to que re­pre­sen­ta 14,8% da po­pu­la­ção mun­di­al, cer­ca de 88 mi­lhões de pes­so­as. Qua­se 100 mi­lhões de pes­so­as ca­em na ex­tre­ma po­bre­za (vi­ver com me­nos de 1,7 eu­ros por dia), por­que têm de pa­gar pe­los cui­da­dos de Saú­de, e ou­tros 122 mi­lhões ca­em abai­xo da li­nha da po­bre­za (2,5 eu­ros diá­ri­os) por cau­sa dos gas­tos na Saú­de. Ain­da so­bre o que as fa­mí- li­as des­pen­dem com a Saú­de, 6,3 mi­lhões de pes­so­as caí­ram na po­bre­za nos paí­ses de fra­cos re­cur­sos, mui­to em­bo­ra a per­cen­ta­gem re­ve­le uma des­ci­da nos úl­ti­mos anos. Nos paí­ses po­bres, ape­nas 17% das mães e fi­lhos re­ce­bem as­sis­tên­cia mé­di­ca bá­si­ca, en­quan­to a per­cen­ta­gem aumenta para 74% nas na­ções ri­cas. O do­cu­men­to da OMS e do BM des­ta­ca que mil mi­lhões de pes­so­as não re­ce­bem tra­ta­men­to para a hi­per­ten­são, mais de 200 mi­lhões de mu­lhe­res não têm aces­so ao pla­ne­a­men­to fa­mi­li­ar e cer­ca de 200 mi­lhões de cri­an­ças não re­ce­bem to­das as va­ci­nas de que ne­ces­si­ta­ri­am. Num ou­tro re­la­tó­rio do Pro­gra­ma Con­jun­to de Mo­ni­to­ri­za­ção das Na­ções Uni­das, ela­bo­ra­do pe­lo Fundo das Na­ções Uni­das para a In­fân­cia (UNICEF) e pela Or­ga­ni­za­ção Mun­di­al de Saú­de (OMS), são ana­li­sa­das as si­tu­a­ções, até 2016, da água po­tá­vel, sa­ne­a­men­to e hi­gi­e­ne em mais de 200 paí­ses e ter­ri­tó­ri­os. O do­cu­men­to faz a com­pa­ra­ção en­tre a evo­lu­ção re­gis­ta­da em ca­da um dos no­ve paí­ses lu­só­fo­nos en­tre 2000 e 2015, ten­do tam­bém em con­ta o res­pec­ti­vo au­men­to da po­pu­la­ção. No qua­dro des­te pe­río­do, é re­fe­ri­do tam­bém o au­men­to da po­pu­la­ção nas zo­nas ur­ba­nas, o aces­so a água que dis­ta mais de 30 mi­nu­tos do lo­cal de re­si­dên­cia, água não me­lho­ra­da e água pro­ve­ni­en­te da su­per­fí­cie, co­mo ri­os e la­gos, en­tre ou­tras fon­tes. No aces­so a água po­tá­vel ca­na­li­za­da, Ca­bo Ver­de sur­ge em ter­cei­ro lu­gar en­tre os lu­só­fo­nos (su­biu de 78% em 2000 para 86% em 2015), à fren­te de São To­mé e Prín­ci­pe (de 67% para 80% no mes­mo pe­río­do), Ti­mor-les­te (não ha­via da­dos dis­po­ní­veis em 2000, mas em 2015 ti­nha 70%), Gui­né-bis­sau (de 53% para 69%) e Mo­çam­bi­que (de 22% para 47%). No mes­mo pe­río­do, Angola su­biu de 38% para 41%, en­quan­to o Bra­sil pas­sou dos 94% para 97% e Por­tu­gal de 99% para 100%. O re­la­tó­rio su­bli­nha que os da­dos são sus­cep­tí­veis de al­gu­ma “re­la­ti­vi­da­de”, ten­do em con­ta o ta­ma­nho dos paí­ses, o to­tal da po­pu­la­ção e o grau de de­sen­vol­vi­men­to de ca­sa um de­les. À ex­cep­ção de Por­tu­gal (com 0% já em 2000) e Bra­sil (que bai­xou de 1% em 2000 para 0% em 2015), to­dos os res­tan­tes paí­ses lu­só­fo­nos, em mai­or ou me­nor es­ca­la, ain­da têm bol­sas da po­pu­la­ção que só con­se­guem ob­ter água (nem sem­pre po­tá­vel) a mais de 30 mi­nu­tos do lo­cal de re­si­dên­cia. Angola, com 16% da po­pu­la­ção nes­sas cir­cuns­tân­ci­as ao lon­go do mes­mo pe­río­do, e Gui­né Equa­to­ri­al, que tam­bém con­ti­nua com 2%, são os dois Es­ta­dos lu­só­fo­nos que man­ti­ve­ram os nú­me­ros es­ta­tís­ti­cos en­tre 2000 e 2015. Di­fe­ren­tes da­dos es­ta­tís­ti­cos, mas para pi­or, fo­ram, no mes­mo pe­río­do, re­gis­ta­dos em São To­mé e Prín­ci­pe (de 13% para 15% da po­pu­la­ção), Mo­çam­bi­que (su­biu de 5% para 14% da po­pu­la­ção) e na Gui­né-Bis­sau (de 4% para 5%). Ca­bo Ver­de des­ceu, em 15 anos, de 11% para 10% da po­pu­la­ção nes­sas cir­cuns­tân­ci­as, en­quan­to Ti­mor-Les­te, de que não exis­tem da­dos de 2000, con­ta com 6% do to­tal dos ha­bi­tan­tes com a ne­ces­si­da­de de ir bus­car água a mais de 30 mi­nu­tos dos lo­cais de re­si­dên­cia. O es­tu­do dá ain­da con­ta da re­la­ção en­tre os da­dos es­ta­tís­ti­cos e a evo­lu­ção da po­pu­la­ção ur­ba­na no mes­mo pe­río­do (2000 a 2015) nos no­ve Es­ta­dos lu­só­fo­nos, sem­pre em cres­cen­do, com o Bra­sil a “li­de­rar” es­ta ta­be­la, com os ha­bi­tan­tes ci­ta­di­nos a su­bi­rem, em 15 anos, de 81% para 86%. Ca­bo Ver­de é o se­gun­do país lu­só­fo­no com mai­or cres­ci­men­to da po­pu­la­ção ur­ba­na (au­men­tou, no mes­mo pe­río­do, de 53% para 66%), se­gui­do por São To­mé e Prín­ci­pe (de 53% para 65%), Por­tu­gal (de 56% para 63%), Gui­né-Bis­sau (de 37% para 49%), Angola (de 32% para 44%), Gui­né Equa­to­ri­al (de 39% para 40%), Ti­mor-les­te (de 24% para 33%) e Mo­çam­bi­que (de 29% para 32%). Com cer­ca de 29 mi­lhões de ha­bi­tan­tes, Angola tem cer­ca de 20 mi­lhões de po­bres. O MPLA não con­se­guiu ge­rar ri­que­za, mas con­se­guiu ge­rar ri­cos. O clã mo­nár­qui­co do regime (Jo­sé Edu­ar­do dos San­tos e João Lou­ren­ço), na versão mais alar­ga­da (acó­li­tos e si­mi­la­res), é o que mais ri­cos tem por me­tro qua­dra­do. Ao la­do, o país é o que mais po­bres tem, tam­bém por me­tro qua­dra­do.

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