UM DIA

Jornal Cultura - - ARTE POÉTICA -

Po­e­ma ho­je de­di­ca­do ao Éder (e, por­que não, a to­dos os Éde­res ain­da sem opor­tu­ni­da­de de re­ve­la­rem as su­as re­ais ca­pa­ci­da­des e com­pe­tên­ci­as, den­tro ou fo­ra dos seus res­pec­ti­vos es­pa­ços de con­vi­vên­cia in­ter­cul­tu­ral)

A mi­nha pe­le é es­cu­ra co­mo a noi­te. Traz ci­ca­tri­zes do açoi­te e mar­cas do trá ico ne­grei­ro. A mi­nha cor es­cu­ra não ilu­de a in­to­le­rân­cia e a in­qui­e­tu­de: sou afri­ca­no, po­dia ser an­ti­lha­no, afro-bra­si­lei­ro ou afro-ame­ri­ca­no.

A mi­nha pe­le é es­cu­ra co­mo a noi­te e pa­ra que não ha­ja en­ga­no, não sou ci­ga­no, nem in­di­a­no. Sou afri­ca­no por cul­tu­ra e op­ção. Po­de­ria ser mou­ro, an­ti­lha­no, afro-bra­si­lei­ro ou afro-ame­ri­ca­no. Em qual­quer dos ca­sos Se­rei o teu ás, o teu cam­peão, aque­le que tan­to pro­cu­ras pa­ra a vi­tó­ria da tua equi­pa ou, até mes­mo, da tua se­lec­ção.

A mi­nha pe­le é es­cu­ra co­mo a noi­te e o san­gue azul a que per­ten­ces é tão ver­me­lho co­mo o meu. Pro­véns de ára­be, de ber­be­re, ou tal­vez de um ne­gro es­cra­vo qual­quer que, pa­ra a ser­ven­tia da Co­roa, en­trou por La­gos ou por Lis­boa… De­pois de al­for­ri­a­do, lá pa­ra os la­dos de Al­fa­ma, Se­ri­as um bai­la­dor de fa­do em ca­sas ro­tu­la­das pe­la má fa­ma.

A mi­nha pe­le é es­cu­ra co­mo a noi­te. Ago­ra por con­ve­ni­ên­cia, sin­to von­ta­de de te di­zer, que en­con­trei num no­bre eu­ro­peu par­te da mi­nha as­cen­dên­cia. A ou­tra a que per­ten­ço tem sé­cu­los de hu­mi­lha­ção e dé­ca­das de in­de­pen­dên­cia…

Per­doa a mi­nha in­dig­na­ção, mas en­ten­de a mi­nha per­ti­nên­cia nes­ta nos­sa con­ver­sa­ção. Só os bur­ros não mu­dam… e um dia… um dia, meu ca­ro, apren­de­rás a jul­gar os ho­mens ape­nas pe­lo seu va­lor mo­ral e éti­co. Bas­ta, tão so­men­te, que te re­ve­lem o se­gre­do do teu có­di­go ge­né­ti­co.

In, "Meu Can­to à Ra­zão e à Qui­me­ra das Cir­cuns­tân­ci­as"

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