“Aqui ven­dem la­pi­sei­ras?”

Jornal de Angola - - CULTURA - FRAN­CIS­CO PE­DRO |

Dois ra­pa­zes ca­mi­nha­vam on­tem de ma­nhã pe­lo pas­seio da histórica cer­ve­ja­ria Bic­ker, na Bai­xa de Lu­an­da, um de­les es­prei­tou na pro­du­to­ra Ós­car Gil e per­gun­tou se ven­di­am la­pi­sei­ras, o ou­tro res­pon­deu: “Não, é ca­sa de fo­tos”.

Dez mi­nu­tos an­tes des­se ca­ri­ca­to epi­só­dio, o pro­pri­e­tá­rio da pro­du­to­ra, Ós­car Gil, ope­ra­dor de câ­ma­ra, mon­ta­dor e re­a­li­za­dor com mais de 40 anos de pro­fis­são en­tre Áfri­ca e Eu­ro­pa, com ex­pe­ri­ên­cia em te­le­vi­são e ci­ne­ma, en­con­trou-me à en­tra­da a con­ver­sar com o seu dis­cí­pu­lo Do­min­gos Cris­pim, um dos três fun­ci­o­ná­ri­os que “so­bra­ram”, ou­tros aban­do­na­ram a em­pre­sa, por­que o mercado do au­di­o­vi­su­al tem si­do uma “cai­xi­nha ne­gra” pa­ra os pro­fis­si­o­nais an­go­la­nos que vi­vem ou ten­tam vi­ver da sé­ti­ma ar­te.

A em­pre­sa, ca­mi­nha à fa­lên­cia, não por que vi­ve­mos mo­men­tos da cri­se, por que não re­ce­beu o pa­ga­men­to pe­las pro­du­ções efec­tu­a­das nos úl­ti­mos dez anos, en­tre no­ve­las e te­le­fil­mes, en­co­men­da­das por vá­ri­as ins­ti­tui­ções pú­bli­cas.

Ou­tros­sim, tão pou­co apa­re­cem no­vas en­co­men­das de ca­dei­as de te­le­vi­são, ou pro­pos­tas vin­das de em­pre­sas de dis­tri­bui­ção e exi­bi­ção de fil­mes pa­ra divulgação dos seus pro­du­tos nas sa­las de ci­ne­ma.

Ao lon­go de qu­a­tro dé­ca­das, Ós­car Gil impôs-se co­mo ope­ra­dor de câ­ma­ra, re­a­li­za­dor, pro­du­tor e ac­tor, nu­ma evo­lu­ção cons­tan­te do pon­to de vis­ta téc­ni­co co­mo ar­tís­ti­co.

Um dos pi­o­nei­ros das te­le­no­ve­las no mercado por­tu­guês, co­mo o ma­lo­gra­do ami­go Nicolau Brey­ner, Ós­car Gil pre­vê, de for­ma pro­fé­ti­ca, o de­sa­pa­re­ci­men­to de mais uma pro­du­to­ra de ci­ne­ma e vídeo, à se­me­lhan­ça do que acon­te­ceu com a fa­mo­sa Dre­ad Locks, de Di­as Jú­ni­or, Ngu­xi dos San­tos e João das Cha­gas.

Em­bo­ra exis­tam cer­ca de 50 pro­du­to­ras ins­cri­tas no Ins­ti­tu­to An­go­la­no de Ci­ne­ma e Au­di­o­vi­su­al (IACA), mas ra­ros são os fil­mes emi­ti­dos nas es­ta­ções na­ci­o­nais de te­le­vi­são (TPA, TV Zim­bo, TV Pa­lan­ca e TV Mar­çal) ou nas sa­las de ci­ne­ma da ca­pi­tal, que te­nham si­do pro­du­zi­das por pro­du­to­ras na­ci­o­nais.

Es­ta si­tu­a­ção le­va-nos a co­lo­car as se­guin­tes ques­tões: Se­rá que tra­ba­lhar em ci­ne­ma e au­di­o­vi­su­al em An­go­la é in­ves­tir em ter­re­no ar­gi­lo­so? Se­rá que os pro­fis­si­o­nais an­go­la­nos pro­du­zem fil­mes (do­cu­men­tá­rio, fic­ção e animação) cu­jo con­teú­do e qua­li­da­de téc­ni­ca e ar­tís­ti­ca es­tá aquém do que é exi­gi­do pe­las es­ta­ções de te­le­vi­são e pe­los pro­pri­e­tá­ri­os de sa­las de ci­ne­ma? Ou se­rá, ape­nas, que “aqui ven­dem la­pi­sei­ra”?

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