A água e a luz

Jornal de Angola - - PARTADA - MA­NU­EL RUI |

Ha­via mui­to te­mo que não fa­zia o gi­ro pe­la ilha. E fi­quei sur­pre­en­di­do. An­tes de on­de era a pon­te, à di­rei­ta, o ver­de à bei­ra mar. Tu­do as­sép­ti­co,bo­ni­to, co­mo re­gra am­bi­en­tal a se­guir. De­pois, já na ilha, lá lon­ge, do la­do da baía, a so­ber­ba do be­tão, os ar­ra­nha-céus, a im­po­nên­cia de uma más­ca­ra cos­mo­po­li­ta. O meu ami­go que con­duz o car­ro, apon­ta com o de­do e diz um por um os do­nos de ca­da um da­que­les ar­ra­nha-céus. Di­go-lhe que não acre­di­to mas se for ver­da­de, ao me­nos, não os fo­ram cons­truir em Lis­boa ou Pa­ris, o di­nhei­ro fi­cou aqui,não foi pa­ra os pa­péis do Fon­se­ca. De res­to, re­pa­ro que no pas­seio há plan­tas com fo­lhas-flo­res ama­re­las. Que bo­ni­to a ilha com flo­res. É mais res­pei­to e de­vo­ção pe­la Kyan­da, a se­reia que pro­te­ge o po­vo do mar de quem re­ce­be ofe­ren­das, ou­ve pe­di­dos e pro­te­ge amo­res e pai­xões. E a ju­ven­tu­de na praia de areia lim­pa, o pa­lan­que dos ma­ri­nhei­ros sal­va-vi­das, a che­ga­da do pei­xe sem ba­gun­ça, um mer­ca­do on­de se ven­de a pe­so, de­pois, mais pa­ra lá, a vis­ta pa­ra o mar ta­pa­da de um la­do e do ou­tro. An­ti­ga­men­te eram só as casas dos pes­ca­do­res, ago­ra o ci­men­to ar­ma­do só aca­ba on­de co­me­ça o fim da ilha. Afi­nal não era di­fí­cil la­var a ca­ra da ilha.

Ti­nha saí­do de casa sem água e sem luz. Água ti­nha re­ser­va em re­ci­pi­en­tes de plás­ti­co. Mas ain­da não há acu­mu­la­do­res de ener­gia eléc­tri­ca. Era só o apa­gão e a fal­ta de água, num país ri­co em água, com bar­ra­gens e mais bar­ra­gens, quan­do se jun­ta mui­ta água é o sal­to qua­li­ta­ti­vo da quan­ti­da­de pa­ra a ener­gia eléc­tri­ca. An­ti­ga­men­te, no tem­po da guer­ra era, co­mo lhe cha­ma­va o fa­le­ci­do po­e­ta Ndun­du­ma, o Ro­bin dos Pos­tes quem nos ti­ra­va a luz. De­pois iam bri­ga­das es­pe­ci­ais le­van­tar os pos­tes e re­por a luz. Pas­sa­vam na te­le­vi­são co­mo he­róis con­tra os ini­mi­gos do po­vo. Era uma des­gra­ça pa­ra con­ser­var os ali­men­tos com a ge­lei­ra ou ar­ca pa­ra­da, guar­da­va-se co­mi­da fei­ta e até se in­ven­tou se­car ga­li­nha. O dos Pos­tes foi-se e os apa­gões tor­na­ram-se uma re­gra e mes­mo sem luz, pa­ga-se, tem ve­zes que o com­pu­ta­dor que se­ria pa­ra fa­ci­li­tar di­fi­cul­ta, quer co­brar um mês du­as ve­zes. E En­tão? Há uns anos, es­ta­va hos­pe­da­do na nos­sa Casa de Vi­si­tas em Ha­va­na, Cu­ba. Avi­sa­vam pe­la rá­dio e te­le­vi­são “o ma­pa dos apa­gões”. Sa­bía­mos quan­do ia fal­tar na nos­sa rua. A es­cas­sez es­ta­va or­ga­ni­za­da. Paí­ses co­mo Ca­bo Ver­de, des­co­bri ou­tro dia que en­tre ou­tras coi­sas é o mais or­ga­ni­za­do de Áfri­ca, que plan­ta mi­lha­res de ár­vo­res pa­ra cha­mar a chu­va que não tem, en­quan­to lá es­ti­ve não hou­ve apa­gões. Aqui em Lu­an­da, os apa­gões man­ti­ve­ram-se ain­da an­tes da sín­dro­ma dos ar­ra­nha-céus. Pa­ra ca­da ar­ra­nha-céus de­ve­ria ha­ver um acrés­ci­mo no po­ten­ci­al de ener­gia eléc­tri­ca mas co­mo to­dos têm ver­da­dei­ras cen­trais de ge­ra­do­res, quan­do há apa­gão Lu­an­da inun­da-se do som da or­ques­tra po­lu­en­te dos ge­ra­do­res co­mo se fos­se uma do­en­ça cró­ni­ca e in­cu­rá­vel.

Co­mo é pos­sí­vel gri­tar “An­go­la a Cres­cer” sem re­sol­ver o pro­ble­ma da água e da luz? Ca­da fá­bri­ca ou em­pre­sa que la­bo­ra com ge­ra­do­res tem os seus cus­tos de pro­du­ção acres­ci­dos. Aliás, is­so até já foi ar­gu­men­to pa­ra se di­zer que era mais ba­ra­to im­por­tar do que pro­du­zir aqui...

A fal­ta de água e luz, por ve­zes co­bra­da sem que o pa­gan­te te­nha con­su­mi­do, são um dos fac­to­res da cri­a­ção de li­xei­ras... uma pes­soa sem água não po­de ser lim­pa e aca­ba pa­gan­do uma ta­xa so­bre o li­xo...

Não sen­do o pro­ble­ma da água e da luz uma ques­tão da na­tu­re­za so­bra pa­ra os ho­mens que dão a ga­nhar for­tu­nas aos ven­de­do­res e téc­ni­cos de ma­nu­ten­ção de ge­ra­do­res. Quan­tos ge­ra­do­res te­rá a ci­da­de de Lu­an­da e se o Mi­nis­té­rio do Ambiente já cal­cu­lou o im­pac­to so­bre a saú­de da ci­da­de e seus ha­bi­tan­tes?

Es­ta ma­ka é de res­pon­sa­bi­li­da­de dos ho­mens. Num país on­de, nes­te jor­nal, cos­tu­mo ob­ser­var com or­gu­lho as fo­to­gra­fi­as de no­vos li­cen­ci­a­dos das di­ver­sas uni­ver­si­da­des do país, é im­pos­sí­vel que não exis­ta ne­nhum cé­re­bro ca­paz de re­sol­ver a ques­tão dos apa­gões e fal­ta de água. Ain­da que não re­sol­va, pro­ble­ma­ti­zar a si­tu­a­ção, ex­pli­car ao po­vo os mo­ti­vos e pro­por so­lu­ções. As­sim é que não. A Na­mí­bia não tem água pa­ra bar­ra­gens. Apro­vei­ta to­da a água da chu­va. E não tem apa­gões.

Aqui, bem se po­de ins­ta­lar o sis­te­ma de pré pa­go que fa­ci­li­ta­ria o con­tro­lo do con­su­mi­dor e sua me­to­do­lo­gia de pou­pan­ça. Di­fí­cil, por cau­sa dos apa­gões que dão aso às pu­xa­das ile­gais e aos pê-tês, can­ti­nei­ros de ener­gia eléc­tri­ca a re­ta­lho.

No en­tan­to, as pes­so­as de uma rua, quan­do no fim-de-se­ma­na tem um ca­sa­men­to de gen­te da pe­sa­da que man­da vir coi­sas por avião do es­tran­gei­ro, or­ga­ni­zam far­ra com a cer­te­za que a luz não vai fal­tar.

É pre­ci­so ex­pli­car is­to tu­do, ou se­ja, pe­lo me­nos dar a co­nhe­cer ao po­vo quem são os ca­te­drá­ti­cos dos apa­gões ...se a ilha já tem flo­res.

Ca­da vez que há um apa­gão, gas­ta-se com­bus­tí­vel po­lu­en­te, quem po­de, bai­xa a hi­gi­e­ne, au­men­tam as do­en­ças in­fec­to-con­ta­gi­o­sas, di­mi­nui a qua­li­da­de do aten­di­men­to sa­ni­tá­rio e res­ta o rá­dio de pi­lhas pa­ra sa­ber do fu­te­bol...

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