Des­ta­ca­do o va­lor do di­plo­ma le­gal

Jornal de Angola - - SOCIEDADE - CÉ­SAR ES­TE­VES |

A en­tra­da em vi­gor, a 12 de Se­tem­bro úl­ti­mo, da Lei n.º 14/16, Lei de Ba­ses da Toponímia, que im­põe re­gras e pro­ce­di­men­tos pa­ra a atri­bui­ção de no­mes às ru­as e ou­tros lu­ga­res, sus­ci­tou a re­ac­ção po­si­ti­va do his­to­ri­a­dor e do­cen­te uni­ver­si­tá­rio Nsam­bu Vi­cen­te e do ar­qui­tec­to Is­ma­el Gar­cia, ou­vi­dos on­tem pe­lo Jor­nal de An­go­la.

Pa­ra o his­to­ri­a­dor Nsam­bu Vi­cen­te, cu­ja mo­no­gra­fia de li­cen­ci­a­tu­ra e dis­ser­ta­ção de mes­tra­do in­ci­di­ram so­bre a te­má­ti­ca da toponímia, a en­tra­da em vi­gor da Lei co­bre o va­zio le­gal que ha­via, no país, em ma­té­ria de atri­bui­ção de no­me aos lu­ga­res. "As pes­so­as es­ta­vam a atri­buir os no­mes aos bair­ros e a ou­tros lu­ga­res a seu bel-pra­zer, sem cri­té­rio al­gum. Por exem­plo, che­guei a no­tar, no bair­ro Ro­cha Pin­to, uma rua, com me­nos de 100 me­tros, com três no­mes: Rua da Fé, Rua do Dr. Samuel e Rua de Holywo­od. Is­so não es­tá cer­to", dis­se. "Não po­de­mos con­ti­nu­ar a ter bair­ros e ru­as com no­mes que não di­zem na­da ao país. Se não cui­dar­mos da nos­sa toponímia po­re­mos em cau­sa a nos­sa me­mó­ria co­lec­ti­va", acres­cen­tou.

Nsam­bu Vi­cen­te sa­li­en­tou que os to­pó­ni­mos po­dem ser veí­cu­lo de uni­da­de na­ci­o­nal. "Qu­an­do nós, por exem­plo, ho­me­na­ge­a­mos nas ru­as de Lu­an­da al­guém da Zo­na Les­te, da Zo­na Sul ou da Zo­na Nor­te, es­ta­mos a cri­ar uma di­nâ­mi­ca de uni­da­de na­ci­o­nal". Se­gun­do o his­to­ri­a­dor, a no­va lei vai, tam­bém, per­mi­tir que as au­tar­qui­as se­jam im­ple­men­ta­das com efi­cá­cia, ao im­ple­men­tar os mar­cos ou pla­cas que in­for­ma­rão o ci­da­dão on­de co­me­ça ou ter­mi­na de­ter­mi­na­da lo­ca­li­da­de. O aca­dé­mi­co é de opi­nião que de­vem ser pro­du­zi­das bro­chu­ras to­po­ní­mi­cas com in­for­ma­ções so­bre as fi­gu­ras ho­me­na­ge­a­das nu­ma de­ter­mi­na­da lo­ca­li­da­de, pois, se­gun­do dis­se, só a in­for­ma­ção da­da pe­las pla­cas to­po­ní­mi­cas não che­ga pa­ra elu­ci­dar o ci­da­dão a res­pei­to de tais fi­gu­ras.

Nsam­bu Vi­cen­te de­fen­de a es­co­lha de mais mu­lhe­res e que se­ja di­ver­si­fi­ca­da e alar­ga­da a ba­se so­ci­al das fi­gu­ras se­lec­ci­o­na­das. "Há uma in­su­fi­ci­ên­cia de ho­me­na­gem a fi­gu­ras fe­mi­ni­nas, daí ter­mos pou­cos no­mes fe­mi­ni­nos na nos­sa toponímia. Te­mos de ho­me­na­ge­ar mais as mu­lhe­res", su­ge­riu, pa­ra de­pois acres­cen­tar: "é tam­bém co­mum ver nas nos­sas ru­as mais no­mes de fi­gu­ras li­ga­das à guer­ri­lha e se­ria bom que fos­sem ho­me­na­ge­a­das mais fi­gu­ras li­ga­das à re­li­gião, à edu­ca­ção e a ou­tras áre­as".

Pa­ra o his­to­ri­a­dor, um dos mé­ri­tos da Lei de Ba­ses da Toponímia vai ser a aju­da na re­or­ga­ni­za­ção das cir­cuns­cri­ções e a pos­si­bi­li­da­de de per­mi­tir a mais fá­cil lo­ca­li­za­ção das pes­so­as. "A mai­o­ria das pes­so­as vi­ve em ru­as anó­ni­mas e o sur­gi­men­to des­sa lei vai aju­dar a re­gu­la­ri­zar es­sa si­tu­a­ção", dis­se.

Pa­ra Is­ma­el Gar­cia, ar­qui­tec­to ven­ce­dor da pri­mei­ra edi­ção do Pré­mio Ino­va­ção Ku­bi­kuz 2015, pro­mo­vi­do pe­la Imo­ges­tin, na ca­te­go­ria Ha­bi­ta­ção So­ci­al Ru­ral, a Lei de Ba­ses da Toponímia che­ga em boa ho­ra, "na me­di­da em que vai per­mi­tir uma or­ga­ni­za­ção sis­te­má­ti­ca dos ele­men­tos que com­põem a ci­da­de, co­mo, por exem­plo, a atri­bui­ção de no­me aos bair­ros, ru­as, ru­e­las, be­cos e pra­ças".

Com es­sa lei, de­fen­deu o ar­qui­tec­to, o país vai re­gis­tar ga­nhos em ter­mos so­ci­ais, or­ga­ni­za­ci­o­nais e cul­tu­rais. Con­cre­ta­men­te, no do­mí­nio da sua área de ac­tu­a­ção pes­so­al, a ar­qui­tec­tu­ra, Is­ma­el Gar­cia res­sal­tou: "Qu­an­do exe­cu­ta­mos cro­quis de lo­ca­li­za­ção em zo­nas co­mo a Fu­bu, por exem­plo, que não dis­põem de iden­ti­fi­ca­ção to­po­ní­mi­ca, há gran­des di­fi­cul­da­des pa­ra iden­ti­fi­car com pre­ci­são a área de in­ter­ven­ção".

O di­plo­ma le­gal de­ter­mi­na que, do­ra­van­te, a atri­bui­ção de no­mes aos lu­ga­res pas­sa a ser da com­pe­tên­cia das ad­mi­nis­tra­ções das pro­vín­ci­as, de­pois de ou­vi­do o Con­se­lho de Aus­cul­ta­ção da Co­mu­ni­da­de, sob pro­pos­ta do ór­gão com­pe­ten­te da Ad­mi­nis­tra­ção Lo­cal. A atri­bui­ção dos no­mes às pro­vín­ci­as, mu­ni­cí­pi­os, co­mu­nas e dis­tri­tos ur­ba­nos vai pas­sar a ser da res­pon­sa­bi­li­da­de da As­sem­bleia Na­ci­o­nal. Quan­to aos no­mes das ci­da­des e vi­las, a lei es­ta­be­le­ce que a com­pe­tên­cia da atri­bui­ção é do Ti­tu­lar do Po­der Exe­cu­ti­vo.

Po­dem apre­sen­tar pro­pos­tas de no­mes pa­ra os lu­ga­res os ci­da­dãos in­di­vi­du­ais ou co­lec­ti­vos, as co­mis­sões de mo­ra­do­res, as di­fe­ren­tes or­ga­ni­za­ções co­mu­ni­tá­ri­as e os ór­gãos com­pe­ten­tes da Ad­mi­nis­tra­ção Co­mu­nal, da Ad­mi­nis­tra­ção do Dis­tri­to Ur­ba­no, da Ad­mi­nis­tra­ção Mu­ni­ci­pal, do Go­ver­no Pro­vin­ci­al e da Au­tar­quia Lo­cal.

DOMBELE BER­NAR­DO

A atri­bui­ção de no­mes às ru­as das ci­da­des e bair­ros es­tá ago­ra con­sa­gra­da em lei pró­pria

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Angola

© PressReader. All rights reserved.