HO­JE É O DIA DA TER­CEI­RA IDA­DE Para che­gar a ve­lho é pre­ci­so mui­ta dis­ci­pli­na

As­so­ci­a­ção be­ne­mé­ri­ta apoia os ido­sos com ac­ti­vi­da­des lú­di­cas e au­las de al­fa­be­ti­za­ção

Jornal de Angola - - SOCIEDADE - RO­DRI­GUES CAMBALA |

A par­tir da por­ta que dá ao quin­tal, vêem-se ido­sos de ba­ta bran­ca. Não são quais­quer alu­nos. Eles têm vi­vên­ci­as e ex­pe­ri­ên­ci­as su­fi­ci­en­tes. Ago­ra, apren­dem a es­cre­ver e a ler as le­tras da vi­da.

A tur­ma es­tá des­con­traí­da. Trans­bor­da sor­ri­so e con­ver­sa ani­ma­da, de­pois da pro­va fi­nal de Lín­gua Por­tu­gue­sa. A im­pro­vi­sa­da sa­la de au­las des­ta­ca-se pe­las ba­tas bran­cas, ca­be­los bran­cos e len­ços en­vol­tos à ca­be­ça. Há mais mu­lhe­res do que ho­mens.

Um jo­vem es­guio de cor­te fran­cês ace­na a ca­be­ça em for­ma de sau­da­ção para o re­pór­ter e em al­ti­vez di­ri­ge-se aos alu­nos, per­su­a­din­do mais apli­ca­ção para a pro­va do dia se­guin­te. Fi­li­pe Cam­bi­la, 23 anos, é o mais no­vo na tur­ma. To­dos os ido­sos fa­lam bem de­le. Es­tá de pé com um pau de giz, es­pa­lhan­do ale­gria na voz e con­fi­an­ça no que faz. É o se­gun­do ano que lec­ci­o­na no cen­tro de al­fa­be­ti­za­ção da As­so­ci­a­ção de Apoio à Ter­cei­ra Ida­de. Es­te ano, en­si­na o II mó­du­lo de al­fa­be­ti­za­ção.

A sa­la de au­las é na par­te de trás do quin­tal, es­tá co­ber­ta por cha­pas de zin­co, en­cai­xa­das nas as­nas en­tre­la­ça­das. As me­sas de plás­ti­co são ocu­pa­das por três alu­nos, res­tan­do es­pa­ço para se pou­sar a pas­ta es­co­lar. Co­mo é en­si­nar mais ve­lhos? O pro­fes­sor Fi­li­pe dá um sus­pi­ro, acom­pa­nha­do por um tí­mi­do sor­ri­so: “não é na­da fá­cil.”

Com bar­ba a des­pon­tar, o jo­vem faz uma lon­ga pau­sa, bal­bu­cia e dá ao ros­to um ar de um mis­si­o­ná­rio: “fa­lar com os mais ve­lhos não é o mes­mo que fa­lar com cri­an­ça. É pre­ci­so cal­ma, por­que às ve­zes eles in­ter­pre­tam mal. São alu­nos, mas, aqui, tra­to-lhes por pa­pás ou ma­mãs.”

Lour­des Be­re­ni­ce, 56 anos, es­tá sen­ta­da num ban­co de plás­ti­co, atrás dos alu­nos, fi­tan­do para Ro­sa Man­guei­ra, 73 anos, uma en­fer­mei­ra apo­sen­ta­da, que co­se uma pe­ça de rou­pa à má­qui­na. Am­bas são res­pon­sá­veis pe­la ale­gria imen­su­rá­vel da­que­les ido­sos que, fa­ça chu­va ou sol, ca­mi­nham aos so­la­van­cos, uns so­zi­nhos, ou­tros com apoio de fa­mi­li­a­res, para apren­de­rem o que pa­re­cia ina­tin­gí­vel. O cen­tro de al­fa­be­ti­za­ção exis­te des­de 2008, no Kas­se­quel do Lou­ren­ço, pe­ri­fe­ria da Mai­an­ga. A As­so­ci­a­ção de Apoio à Ter­cei­ra Ida­de vai im­plan­tar um pro­jec­to igual no Zai­re.

A ges­to­ra do cen­tro é Lour­des Be­re­ni­ce, uma mu­lher com­pla­cen­te que co­me­çou co­mo pro­fes­so­ra de al­fa­be­ti­za­ção. É de­di­ca­da nas ac­ti­vi­da­des so­ci­ais, fru­to da ex­pe­ri­ên­cia que traz da Cruz Ver­me­lha de An­go­la e de ou­tras or­ga­ni­za­ções não go­ver­na­men­tais. “Es­tou ha­bi­tu­a­da a tra­ba­lhar com ido­sos, por­que te­nho uma for­te in­fluên­cia da mi­nha ac­ti­vi­da­de re­li­gi­o­sa.”

O cen­tro tem 78 alu­nos, dis­tri­buí­dos em três tur­mas. Quem es­tu­da pe­la pri­mei­ra vez fre­quen­ta a clas­se: “Sim, Eu Pos­so”. Se tran­si­tar, es­tu­da o mó­du­lo I e mais tar­de o II. O ano lec­ti­vo com­por­ta no­ve me­ses. No cen­tro, os ido­sos fa­zem ac­ti­vi­da­des lú­di­cas e Edu­ca­ção Fí­si­ca. Apren­dem De­co­ra­ção e Ar­te­sa­na­to. O es­pa­ço é acon­che­gan­te, cri­a­do para os ido­sos pas­sa­rem o dia, evi­tan­do iso­la­men­to, ex­po­si­ção na via pú­bli­ca e dis­cri­mi­na­ção. A co­zi­nhei­ra es­tá num vai e vem. O chei­ro da car­ne que pa­re­cia tê­nue, aos pou­cos, es­pa­lha-se pe­lo estô­ma­go. De­pois das au­las, os ido­sos têm, re­li­gi­o­sa­men­te, uma fru­gal re­fei­ção.

Os alu­nos man­têm-se nos seus lu­ga­res. Con­tam a sua vi­da, da fa­mí­lia e as di­fi­cul­da­des do dia-a-dia. Pau­lo Uli­ca, 81 anos, Lu­zia Tei­xei­ra, 75, e Con­cei­ção Ki­be­to, 63, com­põem o gros­so dos alu­nos que fre­quen­tam o cen­tro. Eles mo­ram nos ar­re­do­res, mas a sa­tis­fa­ção de ago­ra po­de­rem ler e es­cre­ver, ain­da com al­gu­mas di­fi­cul­da­des, es­ma­ga a se­gre­ga­ção de que fo­ram ví­ti­mas no tempo em que An­go­la ain­da era uma co­ló­nia.

Che­gar a ve­lho

Para se che­gar à ida­de do mais ve­lho Pau­lo Uli­ca, é pre­ci­so dis­ci­pli­na. Ele nun­ca be­beu, nun­ca fu­mou e não per­de noi­tes. Na­tu­ral da Lunda Nor­te, o mais ve­lho Uli­ca usa ca­mi­sa bran­ca de li­nho e cal­ças en­go­ma­da a pre­cei­to. Trans­pa­re­ce que, des­de jo­vem, foi um ho­mem ja­no­ta, ape­sar de já ter tra­ba­lha­do co­mo aju­dan­te de uma ofi­ci­na de me­câ­ni­ca e ter si­do em­pre­ga­do dos ser­vi­ços co­mu­ni­tá­ri­os.

“Dur­mo às 23 ho­ras e 30 mi­nu­tos até ho­je”, diz o ve­lho num tom sar­cás­ti­co. Quan­do en­trou no cen­tro, em 2014, apren­deu a fa­zer ces­tos com o pro­fes­sor de Ar­te­sa­na­to.

Por cau­sa da ida­de ele­va­da, es­tá ex­cluí­do. Ele afir­ma que nun­ca foi mal­tra­ta­do por es­tra­nhos, nem por fa­mi­li­a­res. “Há mais ve­lhos que tam­bém são ru­des”, ad­mi­te, fran­zin­do a tes­ta. Com as mãos so­bre a me­sa, ele explica que os mais ve­lhos têm de apren­der a res­pei­tar os mais no­vos, para tam­bém se­rem res­pei­ta­dos.

Con­cei­ção Ki­be­to es­tá do ou­tro la­do nu­ma con­ver­sa ani­ma­da com co­le­gas de car­tei­ra. Ela es­fre­ga as mãos, con­ten­te por apren­der a ler e es­cre­ver uma epís­to­la, mas foi gra­ças à sua re­sis­tên­cia que ul­tra­pas­sou to­das as bar­rei­ras de pes­so­as que di­zi­am que, com a sua ida­de, não apren­dia na­da.

De len­ço à ca­be­ça e sa­pa­to or­to­pé­di­co, do­na Con­cei­ção agar­ra-se à má­xi­ma “Es­tu­dar não tem ida­de”.

“Aqui, so­mos pa­re­ce cri­an­ças. O pro­fes­sor é bom e tem ti­do mui­ta pa­ci­ên­cia”, tar­ta­mu­deia, olhan­do para os co­le­gas. Quem cor­ro­bo­ra des­ta opi­nião é Ro­sa Man­guei­ra que acres­cen­ta que, para li­dar com pes­so­as da sua ida­de, é pre­ci­so au­to­do­mí­nio. As do­en­ças e as ne­ces­si­da­des fi­nan­cei­ras da fa­mí­lia tam­bém pre­o­cu­pam os an­ciões. Hi­per­ten­são ar­te­ri­al, di­a­be­tes, reu­ma­tis­mo e dor das ar­ti­cu­la­ções são do­en­ças fre­quen­tes nos ido­sos. Uma mé­di­ca con­sul­ta to­das as se­gun­das os ido­sos.

Foi aos 14 anos que Lu­zia Tei­xei­ra dei­xou o mu­ni­cí­pio do Dan­de. Há dois anos, na al­fa­be­ti­za­ção, con­ta que a sua fe­li­ci­da­de re­si­de no tra­ta­men­to que re­ce­be dos pro­fes­so­res, dos ges­to­res, da en­fer­mei­ra e da co­zi­nhei­ra.

Quan­do a ida­de não per­doa

A ida­de não per­doa. Traz can­sa­ço e miopia. Para olhar à dis­tân­cia, do­na Lu­zia fá-lo com a aju­da de ócu­los gra­du­a­dos. O ves­ti­do de te­ci­do afri­ca­no não es­con­de os os­sos sa­li­en­tes do pes­co­ço ma­gro. Co­mo já não po­de fa­zer co­mér­cio no mer­ca­do, Lu­zia vai à igre­ja aos fins de se­ma­na. Não en­fren­ta qual­quer con­fli­to com a fa­mí­lia. “Ago­ra, só es­tu­do”, diz com um olhar ra­di­an­te.

Umas go­tí­cu­las pa­re­cem en­cher os olhos tão lo­go se lem­bra do ma­ri­do e de fa­mi­li­a­res que já par­ti­ram. Ca­bis­bai­xa, olha para o chão, pas­san­do as mãos no ros­to.

O úni­co ir­mão vi­vo an­da do­en­te e faz tempo que não o vê. À en­tra­da do quin­tal, Ar­man­do Nza­ji, 62 anos, e Pai­va Ca­bo­co, 74, evi­den­ci­am al­gu­ma vi­ta­li­da­de nas mãos tis­na­das, fa­zen­do ces­tos e ber­ços. Au­tên­ti­cos ar­te­sãos que ro­gam a pre­sen­ça de jo­vens para que a ar­te se man­te­nha vi­va. Uma pi­lha de car­tei­ras apre­sen­ta par­tí­cu­las mui­to fi­nas de pó, pro­vo­ca­do pe­lo are­al da rua. Nza­ji usa um cha­péu bran­co na ca­be­ça e ca­mi­sa de man­gas lon­gas de­sa­bo­to­a­da no pul­so. Ele uti­li­za os de­dos das du­as mãos para en­tran­çar as pa­lhas fi­nas de “ma­te­ba”, uma ár­vo­re se­me­lhan­te à pal­mei­ra, mui­to co­mum na mar­gem do rio Kwan­za. A ma­té­ria-pri­ma é re­co­lhi­da nes­ta lo­ca­li­da­de da Kis­sa­ma.

Já o mais ve­lho Ca­bo­co ma­nu­seia uma fa­ca pe­que­na de co­zi­nha e des­fia a pa­lha. A cal­ví­cie de Ca­bo­co tem a for­ma de U, mas so­cor­re-se de um cha­péu de fel­tro que es­tá no chão.

Ar­man­do Nza­ji apoia o pé es­quer­do ao di­rei­to para con­tar um pou­co da sua his­tó­ria. Foi fun­ci­o­ná­rio da TAAG até 1982, mas aban­do­nou por cau­sa do con­su­mo ex­ces­si­vo de be­bi­das al­coó­li­cas. Em 1987, já re­cu­pe­ra­do, ten­tou vol­tar mas sem su­ces­so. Um con­se­lho: “o ál­co­ol des­trói.”

Am­bos são na­tu­rais de Ma­lan­je, mo­ra­do­res no Ki­lam­ba Ki­a­xi. Nza­ji apren­deu a tra­ba­lhar co­mo ar­te­são em 1968, e Ca­bo­co, há 36 anos, de­pois de ter cum­pri­do ser­vi­ço mi­li­tar obri­ga­tó­rio.

Há mais de um ano no cen­tro, os dois en­si­nam ou­tros ido­sos a fa­ze­rem ob­jec­tos. As mãos ci­ca­tri­za­das de Nza­ji, to­das re­ple­tas de pó, ain­da sus­ten­tam cin­co fi­lhos que fre­quen­tam a es­co­la.

O cen­tro tem ac­ti­vi­da­des das 7 ho­ras às 15 ho­ras, nos cin­co dias úteis da se­ma­na. Três ve­zes por se­ma­na, os ido­sos co­me­çam a ma­nhã com Edu­ca­ção Fí­si­ca.

A ges­to­ra do cen­tro explica que re­ce­bem ve­lhos de Vi­a­na, Ca­zen­ga e Ca­cu­a­co, mas a di­fi­cul­da­de de trans­por­te faz com que não apa­re­çam com re­gu­la­ri­da­de. “Quan­do ha­via do­a­ções, aju­dá­va­mos os ve­lhos com cesta bá­si­ca”, lem­brou Lour­des Be­re­ni­ce, sem ti­rar os olhos dos alu­nos.

Na pa­re­de do quin­tal, há três pla­car­des com ex­po­si­ção de fo­to­gra­fi­as das ac­ti­vi­da­des re­cre­a­ti­vas.

O cen­tro cri­ou um Con­se­lho do Ido­so para aju­dar a di­ri­mir pos­sí­veis de­sen­ten­di­men­tos fa­mi­li­a­res que en­vol­vam ve­lhos. Em ca­so de do­en­ça, o con­se­lho tam­bém é cha­ma­do para dar al­gum apoio. “Há ido­sos que ain­da pas­sam fo­me por cau­sa das di­fi­cul­da­des”, diz Con­cei­ção Ki­be­to, nu­ma voz trê­mu­la.

Mal Ro­sa Man­guei­ra co­me­ça a ex­pli­car so­bre a sua au­sên­cia na au­la de Edu­ca­ção Fí­si­ca por pro­ble­mas na car­ti­la­gem, uma pei­xei­ra en­tra e apre­goa no quin­tal.

São 13 ho­ras. O al­mo­ço es­tá ser­vi­do nas me­sas da sa­la de au­las. Os ido­sos já es­tão sem as ba­tas bran­cas. As la­pi­sei­ras e os ca­der­nos são tro­ca­dos por ta­lhe­res e um pra­to de fun­je com car­ne.

NU­NO FLASH

Ape­sar do can­sa­ço e da per­da da vi­são os ido­sos são úteis so­bre­tu­do na ver­ten­te da con­ser­va­ção e trans­mis­são dos va­lo­res an­ces­trais

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