In­dús­tria de re­ci­cla­gem tem pou­co in­ves­ti­men­to

A ino­pe­rân­cia da re­co­lha se­lec­ti­va do li­xo é um cons­tran­gi­men­to pa­ra a in­dús­tria de re­ci­cla­gem além da au­sên­cia de edu­ca­ção am­bi­en­tal no seio das co­mu­ni­da­des

Jornal de Angola - - PRIMEIRA PÁGINA - Ana Paulo

O ad­mi­nis­tra­dor da Agên­cia Na­ci­o­nal de Resíduos, Ful­gên­cio Pe­ga­do, dis­se, on­tem em Lu­an­da, ao Jor­nal de An­go­la, que a es­cas­sez de in­ves­ti­men­tos pa­ra a mo­der­ni­za­ção dos sis­te­mas de re­co­lha e a ac­tu­al con­di­ção de tra­ta­men­to dos resíduos só­li­dos sem for­tes in­ves­ti­men­tos fi­nan­cei­ros con­ti­nu­am a ser os prin­ci­pais cons­tran­gi­men­tos da in­dús­tria de re­ci­cla­gem do país.

A jun­tar a es­tas in­su­fi­ci­ên­ci­as, es­tá tam­bém a ne­ces­si­da­de da va­lo­ri­za­ção das áre­as de­gra­da­das pe­la má dis­po­si­ção do li­xo, a im­plan­ta­ção de no­vos ater­ros sa­ni­tá­ri­os e uni­da­des de tra­ta­men­to e a fal­ta de qua­dros téc­ni­cos no sec­tor pú­bli­co pa­ra a ges­tão dos resíduos.

Em de­cla­ra­ções ao Jor­nal de An­go­la, Ful­gên­cio Pe­ga­do dis­se que pa­ra se col­ma­tar es­te dé­fi­ce, fo­ram pre­vis­tas pe­lo Go­ver­no a im­plan­ta­ção de no­vos ater­ros sa­ni­tá­ri­os. Pa­ra re­ver­ter o qua­dro, Ful­gên­cio Pe­ga­do ex­pli­cou que o Mi­nis­té­rio do Am­bi­en­te, por in­ter­mé­dio da Agên­cia Na­ci­o­nal de Resíduos (ANR), ins­trui e co­la­bo­ra com as co­mu­ni­da­des e en­ti­da­des que exer­cem a ac­ti­vi­da­de no sec­tor, pa­ra con­tri­buir pa­ra a me­lho­ria dos ser­vi­ços que as em­pre­sas pres­tam, no cam­po da boa ges­tão de resíduos e do cum­pri­men­to dos pro­ce­di­men­tos le­gais.

O ad­mi­nis­tra­dor da ANR apon­tou co­mo um cons­tran­gi­men­to a ino­pe­rân­cia da re­co­lha se­lec­ti­va do li­xo, além da au­sên­cia de edu­ca­ção am­bi­en­tal no seio das co­mu­ni­da­des. Ful­gên­cio Pe­ga­do diz ser ne­ces­sá­ria a par­ti­ci­pa­ção e res­pon­sa­bi­li­za­ção com­par­ti­lha­da das ins­ti­tui­ções edu­ca­ci­o­nais e das em­pre­sas na ges­tão de po­lí­ti­cas de re­ci­cla­gem e de edu­ca­ção am­bi­en­tal.

Ape­sar das dificuldades que o país vi­ve, Ful­gên­cio Pe­ga­do ex­pli­cou que a in­dús­tria de re­ci­cla­gem e o re­a­pro­vei­ta­men­to de resíduos con­ti­nua em fa­se de cres­ci­men­to, pois, sus­ten­tou, “é no­tá­vel o in­te­res­se de mui­tas ou­tras en­ti­da­des pe­lo sec­tor”.

Em An­go­la 25 em­pre­sas fo­ram li­cen­ci­a­das e fa­zem a re­ci­cla­gem de resíduos nas pro­vín­ci­as de Lu­an­da, Ben­gue­la, Hu­am­bo e Cu­an­za-Nor­te. Nes­sas zo­nas, a prin­ci­pal ac­ti­vi­da­de das em­pre­sas tem si­do a re­ci­cla­gem de pa­pel, pa­pe­lão, óle­os de ma­nu­ten­ção e de fri­tu­ra, ba­te­ri­as, plás­ti­cos, pneus, gar­ra­fas, la­tas, vi­dro, resíduos eléc­tri­cos e elec­tró­ni­cos, me­tais, su­ca­tas, alu­mí­nio, “to­ners” e tin­tei­ros.

Resíduos só­li­dos

A exis­tên­cia de grandes quan­ti­da­des de resíduos só­li­dos nos bair­ros pe­ri­fé­ri­cos de Lu­an­da é um de­sas­sos­se­go pa­ra a direcção da Agên­cia Na­ci­o­nal de Re­ci­cla­gem, já que, com a épo­ca chu­vo­sa, a si­tu­a­ção ten­de a pi­o­rar, pre­ju­di­can­do não só a saú­de da po­pu­la­ção co­mo o pró­prio meio am­bi­en­te. Ful­gên­cio Pe­ga­do dis­se que a fal­ta de efi­cá­cia no sis­te­ma de sa­ne­a­men­to bá­si­co no país aca­ba por ser mai­or na épo­ca chu­vo­sa cau­san­do o agra­va­men­to no acú­mu­lo de resíduos em pon­tos crí­ti­cos da ci­da­de.

Ful­gên­cio Pe­ga­do su­bli­nhou que a edu­ca­ção e a sen­si­bi­li­za­ção am­bi­en­tal re­ve­lam-se fun­da­men­tais pa­ra o su­ces­so das es­tra­té­gi­as de­fi­ni­das ru­mo ao de­sen­vol­vi­men­to sus­ten­tá­vel.

De mo­do a mi­ti­gar as ir­re­gu­la­ri­da­des, o Mi­nis­té­rio do Am­bi­en­te es­tá a re­a­li­zar ac­ti­vi­da­des de sen­si­bi­li­za­ção e de cons­ci­en­ci­a­li­za­ção am­bi­en­tal, com o apoio das as­so­ci­a­ções de defesa do am­bi­en­te e ou­tros par­cei­ros pú­bli­cos e pri­va­dos, com o in­tui­to de mu­nir a co­mu­ni­da­de com in­for­ma­ções re­le­van­tes so­bre as bo­as prá­ti­cas de ges­tão de resíduos, co­mo o de­pó­si­to do li­xo em lo­cais ade­qua­dos, a se­pa­ra­ção de resíduos e a sua va­lo­ri­za­ção.

Pos­tos de tra­ba­lho

O Mi­nis­té­rio do Am­bi­en­te, por in­ter­mé­dio da Agên­cia Na­ci­o­nal de Resíduos, cri­ou três mil pos­tos de tra­ba­lho di­rec­tos e in­di­rec­tos, que tra­ba­lham com di­ver­sos pro­du­tos re­ci­clá­veis, co­mo óle­os usa­dos de co­zi­nha pa­ra a pro­du­ção do sa­bão ar­te­sa­nal, su­ca­tas, me­tais pa­ra a pro­du­ção de fer­ro, va­rões de cons­tru­ção ci­vil, pa­pe­lão pa­ra fa­bri­co de car­tões de ovos, obras de ar­te, far­dos, rou­pas des­car­ta­das pa­ra va­sos, pneus des­car­ta­dos pa­ra a trans­for­ma­ção de mo­bí­li­as, plás­ti­cos pa­ra vas­sou­ras, alu­mí­nio pa­ra la­tas, vi­dro trans­for­ma­dos em gar­ra­fas, ma­te­ri­ais eléc­tri­cos e ou­tros que de­pois de pron­tos são ven­di­dos no mer­ca­do na­ci­o­nal ou ex­por­ta­dos.

O ad­mi­nis­tra­dor da Agên­cia Na­ci­o­nal de Resíduos con­si­de­ra o nú­me­ro ain­da abai­xo pa­ra aqui­lo que con­si­de­ra os de­síg­ni­os do sec­tor de re­ci­cla­gem. Con­tu­do, Ful­gên­cio Pe­ga­do lou­vou a gran­de ade­são e con­tri­bui­ção dos ci­da­dãos “ca­ta­do­res”, que ti­ram da re­co­lha do li­xo o seu “ga­nha­pão”, por meio da prá­ti­ca da co­lec­ta se­lec­ti­va jun­to de al­guns par­cei­ros que do­am os resíduos só­li­dos, quer de pro­du­tos re­ci­clá­veis re­co­lhi­dos pe­las ru­as, ater­ros sa­ni­tá­ri­os e con­ten­to­res de li­xo que o ci­da­dão ge­ra­dor não se­pa­rou e co­lo­cou no mes­mo sa­co.

Com o apoio dos “ca­ta­do­res”, as em­pre­sas de re­co­lha de li­xo dei­xa­ram de pa­gar ele­va­dos qui­los que se­ri­am re­co­lhi­dos e des­car­ta­dos no ater­ro. “Na me­lhor das hi­pó­te­ses, te­mos uma eco­no­mia e um ser­vi­ço se­mi­fun­ci­o­nal, já que o ma­te­ri­al re­co­lhi­do pe­los ‘ca­ta­do­res’ evi­ta o consumo de ma­té­ria-pri­ma vir­gem e re­cur­sos na­tu­rais es­go­tá­veis”, re­co­nhe­ceu Ful­gên­cio Pe­ga­do.

Pa­ra já, a ac­ti­vi­da­de de ges­tão de resíduos é per­mi­ti­da so­men­te a em­pre­sas li­cen­ci­a­das pe­la ANR, on­de há uma ba­se de da­dos pa­ra con­tro­lo das ope­ra­do­ras de resíduos, na cam­po da re­co­lha e co­mer­ci­a­li­za­ção no país. Lu­an­da des­ta­ca-se na in­dús­tria de re­ci­cla­gem, for­te­men­te apoi­a­da por in­dús­tri­as co­mo a Vi­drul, aon­de são le­va­das as gar­ra­fas, An­goRe­ci­cla, res­pon­sá­vel pe­la re­ci­cla­gem de la­tas, Re­surb, que re­ce­be pneus e su­ca­tas, e a Co­o­pe­ra­ti­va Bar­ra de Sa­bão, que acei­ta óle­os de co­zi­nha usa­dos pa­ra a pro­du­ção de sa­bão.

É ne­ces­sá­ria a in­ten­sa par­ti­ci­pa­ção e res­pon­sa­bi­li­za­ção com­par­ti­lha­da das ins­ti­tui­ções edu­ca­ci­o­nais e das em­pre­sas na ges­tão de po­lí­ti­cas de re­ci­cla­gem e de edu­ca­ção am­bi­en­tal

DOMBELE BER­NAR­DO | EDIÇÕES NO­VEM­BRO|

Co­mu­ni­da­des e en­ti­da­des de­vem con­tri­buir pa­ra a me­lho­ria dos ser­vi­ços que as em­pre­sas de re­co­lha de li­xo pres­tam

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Angola

© PressReader. All rights reserved.