“A nos­sa ban­ca é atroz”

Diz ser a fa­vor do mo­de­lo de co-re­gu­la­ção com pre­do­mi­nân­cia re­gu­la­tó­ria em to­dos os do­mí­ni­os da ac­ti­vi­da­de eco­nó­mi­ca me­ca­nis­mo ba­se­a­do na per­ma­nen­te ne­go­ci­a­ção en­tre os “ta­kehol­ders”

Jornal de Economia & Financas - - Primeira Página - Agos­ti­nho Chi­ta­ta

O con­sul­tor em Re­gu­la­ção Eco­nó­mi­ca e De­sen­vol­vi­men­to Or­ga­ni­za­ci­o­nal e do­cen­te uni­ver­si­tá­rio, Miguel Ân­ge­lo Vi­ei­ra, não tem dú­vi­das de que a ban­ca e as co­mu­ni­ca­ções elec­tró­ni­cas são os mai­o­res vi­o­la­do­res dos di­rei­tos eco­nó­mi­cos e mo­rais dos ci­da­dãos pe­los valores en­vol­vi­dos. Para ele, “até já se fa­la em im­pe­di­men­to para os cli­en­tes fe­cha­rem as su­as con­tas ban­cá­ri­as por des­ser­vi­ço”.

Ames­mo­pe­sar da re­co­men­da­ção do FMI e

de vo­zes in­ter­nas para que des­va­lo­ri­ze­mos o kwan­za, exis­tem ou­tras que re­co­nhe­cem que a úni­ca van­ta­gem na des­va­lo­ri­za­ção es­tá no ate­nu­ar das dis­si­me­tri­as en­tre a ta­xa ofi­ci­al e a ta­xa pa­ra­le­la no mer­ca­do cam­bi­al ten­do co­mo con­sequên­cia o au­men­to dos pre­ços, o de­ses­tí­mu­lo ao investimento e a in­dus­tri­a­li­za­ção. Diz não ter uma te­ra­pia que se pos­sa di­zer co­mo a me­lhor para a es­ta­bi­li­da­de dos pre­ços mas o en­tre­vis­ta­do re­co­men­da a aber­tu­ra do mer­ca­do à ple­na con­cor­rên­cia.

O sis­te­ma fi­nan­cei­ro an­go­la­no pa­re­ce me­re­cer al­gum es­tu­do a mais? Tu­do pa­re­ce se con­fun­dir? Dá a sen­sa­ção de que es­ta­mos pe­ran­te um jo­go em que as car­tas são ba­ra­lha­das mui­tas ve­zes e os trun­fos não apa­re­cem?

O di­le­ma do nos­so Sis­te­ma Fi­nan­cei­ro é que nun­ca foi ob­jec­to de re­for­ma es­tru­tu­ran­te. É pro­vi­do a re­ta­lho con­for­me o ní­vel de re­ser­vas in­ter­na­ci­o­nais lí­qui­das. O sis­te­ma fi­nan­cei­ro não po­de­ria ser uma ilha de ex­ce­lên­cia, é par­te da pri­va­ção de valores co­mo li­ber­da­des e trans­pa­rên­cia. Ur­ge pro­ce­der a re­for­mas es­tru­tu­ran­tes na nos­sa ad­mi­nis­tra­ção eco­nó­mi­ca de que o sec­tor fi­nan­cei­ro é par­te. Não ha­ven­do mo­de­los per­fei­tos, tu­do de­pen­de dos ins­tru­men­tos, ob­jec­ti­vos e me­tas que se pre­ten­de atin­gir. Mas, no ca­so da ban­ca, é ele­men­tar que, para se atin­gir me­tas men­su­rá­veis a lon­go pra­zo, pre­ci­sa­mos de bons ins­tru­men­tos.

En­tão o que é o BNA?

Apesar da dig­ni­da­de cons­ti­tu­ci­o­nal, o BNA é um ór­gão da ad­mi­nis­tra­ção in­di­rec­ta com ca­rac­te­rís­ti­cas especiais desde lo­go por­que é cri­a­do por lei, o que o tor­na dis­tin­to dos de­mais ór­gãos da ad­mi­nis­tra­ção in­di­rec­ta. Mas in­fe­liz­men­te o seu ór­gão de ges­tão de to­po po­de ser exo­ne­ra­do por con­ve­ni­ên­cia de ser­vi­ço. Es­tá na cons­ti­tui­ção. Temos de pa­rar de tra­ves­tir o BNA co­mo Ins­ti­tui­ção Pú­bli­ca In­de­pen­den­te.

Que ti­po de banco cen­tral quer o poder po­lí­ti­co?

Re­gu­lar mer­ca­dos é uma ques-

CA­BE AOS PO­LÍ­TI­COS DE­CI­DI­REM O QUE QUE­RE­MOS. SOU A FA­VOR DE UM BNA CO­MO EN­TI­DA­DE PÚ­BLI­CA IN­DE­PEN­DEN­TE

tão política. O exem­plo recente des­ta co­ne­xão deu-se es­te mês qu­an­do Zhou Xi­a­o­chun, pre­si­den­te do Banco Cen­tral da Chi­na, pe­diu apoio ao Par­ti­do Co­mu­nis­ta para uma mai­or re­for­ma no mer­ca­do fi­nan­cei­ro, com mai­or fle­xi­bi­li­da­de cam­bi­al, melhores ní­veis de re­gu­la­ção através de uma menor in­ter­ven­ção es­ta­tal pri­o­ri­zan­do a co-re­gu­la­ção ou re­gu­la­ção con­cer­ta­da.

Con­si­de­ra viá­vel es­te mo­de­lo para nós?

Se os chi­ne­ses con­se­guem, por quê que nós não?! Ca­re­ce­mos de re­for­mas pro­fun­das na or­dem ju­rí­di­ca eco­nó­mi­ca, que le­vem à adop­ção de um me­lhor mo­de­lo de for­mu­la­ção, co­or­de­na­ção, exe­cu­ção e su­per­vi­são da ac­ti­vi­da­de eco­nó­mi­ca.

Se­rá que nos fal­tam ma­cro­e­co­no­mis­tas?

Que fi­ze­ram os ma­cro­e­co­no­mis­tas?!, o nos­so di­le­ma é po­lí­ti­co, von­ta­de política, con­ve­ni­ên­cia seg­men­ta­da, os to­ma­do­res de decisão in­de­pen­dem da for­ma­ção. A ques­tão es­tá nos de­ci­so­res de quem têm aces­so e co­mo se­rá exer­ci­da es­ta ou aque­la ac­ti­vi­da­de eco­nó­mi­ca, se­ja a ban­ca, se­gu­ros ou a co­mu­ni­ca­ções elec­tró­ni­cas, no aces­so a di­vi­sas, nos ma­te­ri­ais de construção, nos jo­gos, até na im­por­ta­ção de ca­ra­pau. Per­gun­te aos de­mais re­ta­lhis­tas do porquê da sua au­sên­cia no Se­que­le ou no Ki­lam­ba? NÃO GOSTO DE FA­LAR DE PRU­DÊN­CIA NA BAN­CA NA­CI­O­NAL, IS­SO NÃO EXIS­TE A NOS­SA BAN­CA É ATROZ.

Vol­tan­do ao mer­ca­do fi­nan­cei­ro, acha que o banco cen­tral es­tá de fac­to ao ser­vi­ço da ban­ca?

Sou a fa­vor do mo­de­lo de co-re­gu­la­ção ou re­gu­la­ção con­cer­ta­da em to­dos os do­mí­ni­os da ac­ti­vi­da­de eco­nó­mi­ca. Aqui a con­cer­ta­ção é “ex an­te”. Temos maus exem­plos de fa­lhas de mer­ca­do de­ri­va­das de fa­lhas de in­ter­ven­ção. Mas o BNA tem de estar ao ser­vi­ço do Es­ta­do, é o que diz a cons­ti­tui­ção. Preservar o va­lor da mo­e­da, a se­gu­ran­ça das poupanças, en­fim, a sal­va­guar­da de valores co­lec­ti­vos, os es­ta­dos têm ali­cer­ces. Para mim, não tem na­da mais im­por­tan­te que a so­be­ra­nia pes­so­al do Es­ta­do e es­ta re­si­de nas pes­so­as. In­fe­liz­men­te o BNA é um ór­gão cap­tu­ra­do. Temos 29 ou 30 ban- cos co­mer­ci­ais e pa­re­ce si­nó­ni­mo de aber­tu­ra eco­nó­mi­ca.

E não há aber­tu­ra eco­nó­mi­ca?!

Te­nho di­fi­cul­da­des em en­ten­der porquê que no au­ge do nos­so bo­om eco­nó­mi­co e da co­o­pe­ra­ção com a Chi­na fo­mos ul­tra­pas­sa­dos pe­la Áfri­ca do Sul, na com­pra de 20 por cen­to do Stan­dard Bank pe­lo ICBC. Pa­re­ce dar a en­ten­der que há “uma mão in­vi­sí­vel” a con­di­ci­o­nar o investimento di­rec­to es­tran­gei­ro em de­ter­mi­na­dos sec­to­res da nos­sa economia.

Nes­te ca­so, afi­nal o que es­tá mal na ban­ca cen­tral? A so­lu­ção é mes­mo a mu­dan­ça de ges­tão?

Pre­ci­sa­mos mu­dar os pa­ra­dig­mas de ges­tão. Se ne­ces­sá­rio a cons­ti­tui­ção.

Que BNA acha que de­ve­ría­mos ter?

Ca­be aos po­lí­ti­cos de­ci­di­rem o que que­re­mos. Sou a fa­vor de um BNA co­mo en­ti­da­de pú­bli­ca in­de­pen­den­te.

Ex­pli­que-se me­lhor?

Pre­ci­sa­mos de uma re­for­ma cons­ti­tu­ci­o­nal que dê es­ta­bi­li­da­de ao man­da­to do go­ver­na­dor e me­ca­nis­mos de con­cer­ta­ção política e so­ci­al à sua for­ma de elei­ção. Es­te re­gi­me de ina­mo­vi­bi­li­da­de do ges­tor de to­po do BNA tor­na-o um ór­gão do Es­ta­do e, por­tan­to, in­de­pen­den­te do poder exe­cu­ti­vo. Mas que “per si” não é uma pa­na­ceia para os pro­ble­mas eco­nó­mi­cos do país.

Co­mo es­ta­mos em ma­té­ri­as de su­per­vi­são bancária?

Qu­an­do ini­ci­al­men­te dis­se que o BNA é um ór­gão cap­tu­ra­do da­do o ní­vel de in­cum­pri­men­to e au­sên­cia de san­ção pe­los ór­gãos re­gu­la­dos, por exem­plos, muitos ban­cos não au­to­no­mi­za­ram as fun­ções de com­pli­an­ce e de pro­ve­do­ria do con­su­mi­dor, no BNA. A pro­ve­do­ria do cli­en­te é um ser­vi­ço de ter­cei­ro es­ca­lão. Não gosto de fa­lar de pru­dên­cia na ban­ca na­ci­o­nal, is­to não exis­te para quem se com­por­ta mal to­dos os di­as. A nos­sa ban­ca é atroz. Até já se fa­la em im­pe­di­men­to para os cli­en­tes fe­cha­rem as su­as con­tas ban­cá­ri­as por des­ser­vi­ço. Para mim, a ban­ca e as co­mu­ni­ca­ções elec­tró­ni­cas são os mai­o­res vi­o­la­do­res dos di­rei­tos eco­nó­mi­cos e mo­rais dos ci­da­dãos pe­los va­lo-

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