“Há gru­pos que que­rem o petróleo de An­go­la de bor­la”

Es­pe­ci­a­lis­ta de­fen­de a pu­bli­ca­ção por par­te da Con­ces­si­o­ná­ria Na­ci­o­nal de Combustíveis os re­sul­ta­dos do con­cur­so pú­bli­co so­bre a cons­tru­ção de re­fi­na­ri­as, so­bre­tu­do os pe­di­dos es­pe­ci­ais de ga­ran­ti­as e sub­sí­di­os

Jornal de Economia & Financas - - Primeira Página -

Avoz e opinião de Lago de Carvalho é sem­pre a ter em con­ta qu­an­do se ava­lia o impacto das me­di­das ou de­ci­sões no ne­gó­cio do petróleo em An­go­la e no mun­do. Ob­jec­ti­vo e equi­dis­tan­te, o es­pe­ci­a­lis­ta em pe­troquí­mi­ca tem do­mí­nio de vá­ri­os dos­si­ers e, na ac­tu­a­li­da­de, a pre­ten­são de cons­tru­ção de re­fi­na­ri­as para a eli­mi­na­ção das im­por­ta­ções é para ele uma de­ci­são a res­pei­tar, mas de um ele­va­do cus­to para as con­tas na­ci­o­nais num cur­to e mé­dio pra­zo.

An­go­la re­ce­beu em dois me­ses qua­se 20 propostas para a cons­tru­ção de re­fi­na­ri­as e in­ves­ti­men­tos na in­dús­tria pe­troquí­mi­ca. O vo­lu­me de so­li­ci­ta­ções au­men­tou a pos­te­ri­or para 60. Quer di­zer que o Go­ver­no está apos­ta­do se­ri­a­men­te em in­ves­tir no seg­men­to de refinação do crude?

Jul­go que o Go­ver­no está in­te­res­sa­do em aumentar a ca­pa­ci­da­de de refinação do país, o que é per­fei­ta­men­te le­gí­ti­mo. Ter­mos 20 ou 60 propostas de investimento não me pa­re­ce sé­rio. Es­ta­mos por cer­to em face de gru­pos que es­tão a ten­tar ga­ran­tir que o Go­ver­no lhes vai for­ne­cer petróleo com um des­con­to im­por­tan­te e que lhes vai ga­ran­tir uma car­ga fis­cal nu­la ou ga­ran­tir sub­sí­di­os para po­de­rem ope­rar.

Não é eco­no­mi­ca­men­te viá­vel a cons­tru­ção de re­fi­na­ri­as em An­go­la?

Ja várias ve­zes o dis­se e con­ti­nuo a di­zer: Até pro­va em con­trá­rio, a re­fi­na­ria se­rá um pro­jec­to que An­go­la te­rá que sub­si­di­ar. Te­mos ou­tras áre­as que pre­ci­sam dos fun­dos do OGE e que são pri­o­ri­tá­ri­as.

A van­ta­gem se­rá o au­men­to de em­pre­gos es­pe­ci­a­li­za­dos que se­rão cri­a­dos e a me­lho­ria de se­gu­ran­ça ener­gé­ti­ca no país. Exis­tem ou­tras des­van­ta­gens?

A re­fi­na­ria de Lu­an­da é o espelho do que te­mos con­se­gui­do fa­zer nes­tes anos. Está a vol­tar para uma ges­tão es­tran­gei­ra de­pois de al­guns anos ge­ri­da di­rec­ta­men­te pe­la So­nan­gol. Qu­an­to à se­gu­ran­ça ener­gé­ti­ca, ela não se põe, já que exis­te mui­to pro­du­to dis­po­ní­vel no mercado à procura de cli­en­te.

Al­guns en­ten­di­dos con­si­de­ram que uma re­fi­na­ria pre­ci­sa de for­ne­ce­do­res de ma­té­ria-pri­ma e ou­tros equi­pa­men­tos. Nes­te ca­so, o for­ne­ci­men­to do petróleo bru­to de­ve es­tar ga­ran­ti­do po­den­do in­vi­a­bi­li­zar o pro­jec­to lo­go à par­ti­da ca­so não es­te­ja?

Equi­pa­men­tos com­pram-se “know-how” e a ca­pa­ci­da­de de ges­tão se­rá mais difícil. O Es­ta­do vai ter que ga­ran­tir o abas­te­ci­men­to do petróleo.

Até que pon­to An­go­la vai di­mi­nuir a im­por­ta­ção de combustíveis vis­to que gas­ta por mês mais de 16 milhões de eu­ros com a im­por­ta­ção de combustíveis re­fi­na­dos, nu­ma al­tu­ra em que a pro­du­ção na­ci­o­nal ron­da os 20 por cen­to do con­su­mo total?

Se aumentar a ca­pa­ci­da­de de refinação é cla­ro que vai re­du­zir as im­por­ta­ções, a ques­tão que se põe é qu­an­to va­mos gas­tar para pou­par os 160 milhões. Em mi­nha opinião, o país vai gas­tar por perda de ex­por­ta­ções custos de ope­ra­ção e reembolso de financiamentos mui­to mais do que is­so.

Para mui­tos dis­tri­bui­do­res, é mais ba­ra­to im­por­tar o com­bus­tí­vel?

Na si­tu­a­ção ac­tu­al tal­vez se­ja, mas os combustíveis sai­em da re­fi­na­ria a um pre­ço sub­si­di­a­do. So­men­te se o Go­ver­no sub­si­di­as­se a im­por­ta­ção as si­tu­a­ções se­ri­am com­pa­rá­veis.

Por que te­mos que im­por­tar 80 por cen­to do com­bus­tí­vel que con­su­mi­mos?

Im­por­ta­mos por­que não te­mos pro­du­ção na­ci­o­nal su­fi­ci­en­te para sa­tis­fa­zer o mercado. E qual é o mercado? Al­guém sa­be o que con­so­me e co­mo o Exér­ci­to, a Marinha ou a Ae­ro­náu­ti­ca.

E os combustíveis sub­si­di­a­dos?

Combustíveis sub­si­di­a­dos são con­su­mi­dos em mai­or vo­lu­me. Com os preços ac­tu­ais, o Es­ta­do não re­cu­pe­ra os 160 milhões que cus­tam as im­por­ta­ções. Somos to­dos nós, atra­vés do OGE, que pa­ga­mos a di­fe­ren­ça .

Mui­tas re­fi­na­ri­as afri­ca­nas não são ren­tá­veis por­que pro­du­zem em pou­cas quan­ti­da­des ou não são uti­li­za­das na to­ta­li­da­de da sua ca­pa­ci­da­de?

São re­fi­na­ri­as mui­to an­ti­gas, mal man­ti­das, no ge­ral com re­du­zi­da ca­pa­ci­da­de e sem qual­quer so­fis­ti­ca­ção. Só pro­du­zem combustíveis e sem pe­troquí­mi­ca agre­ga­da.

O que o le­va a crer que o cus­to de cons­tru­ção e ma­nu­ten­ção de uma re­fi­na­ria seria três ve­zes mais ca­ro que na Eu­ro­pa ou nos EUA?

Não se tra­ta de ar­gu­men­tos, mas de da­dos es­ta­tís­ti­cos de custos. Não sei se ho­je o número se­rá o mes­mo que era há al­guns anos.

A so­lu­ção por uma re­fi­na­ria es­tran­gei­ra é de­fen­di­da por al­guns es­pe­ci­a­lis­tas face aos custos de cons­tru­ção e ma­nu­ten­ção de uma re­fi­na­ria de raiz?

O re­cur­so à ca­pa­ci­da­de já ins­ta­la­da em al­guns paí­ses atra­vés de uma com­pra ou con­tra­to de pro­ces­sa­men­to são so­lu­ções que de­ve­mos con­si­de­rar co­mo al­ter­na­ti­vas.

Acha que há um “lobby” dos en­di­nhei­ra­dos an­go­la­nos em ten­tar in­flu­en­ci­ar para que con­si­gam ga­nhar o con­cur­so pú­bli­co para a cons­tru­ção de re­fi­na­ri­as em An­go­la?

A ques­tão está mal pos­ta. Cons­truir uma re­fi­na­ria em An­go­la te­rá um enor­me cus­to para o país. Se o Go­ver­no de­ci­dir fa­zê-lo en­tão que se­ja um gru­po na­ci­o­nal se­le­ci­o­na­do. As be­nes­ses em ter­mos de preços do petróleo e de re­du­ção de im­pos­tos fa­vo­re­cem um gru­po na­ci­o­nal em vez de es­tran­gei­ro. Não é mo­ral­men­te cor­rec­to pe­dir es­ses be­ne­fí­ci­os ao Es­ta­do que não tem co­mo os ga­ran­tir, mas se são para dar, en­tão que fi­quem em ca­sa. Sem­pre pe­di para fa­ze­rem as con­tas a fim de aju­dar o Go­ver­no a de­ci­dir. Nes­te mo­men­to, a ori­en­ta­ção do Pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca está a ser con­si­de­ra­da uma “or­dem para fa­zer”. Creio que ele pe­diu para ve­rem as propostas e fa­ze­rem as con­tas. Se as con­di­ções pedidas pe­los “in­te­res­sa­dos” fo­rem rui­no­sas para o país, en­tão cha­mem a atenção a quem tem que de­ci­dir.

Acre­di­ta que ha­ve­rá trans­pa­rên­cia ne­ces­sá­ria ao con­cur­so lan­ça­do pe­la So­nan­gol?

Gostava mui­to de ver os re­sul­ta­dos pu­bli­ca­dos, so­bre­tu­do os pe­di­dos es­pe­ci­ais de ga­ran­ti­as e sub­sí­di­os. Quem pede e qu­an­to de des­con­tos no pre­ço de for­ne­ci­men­to do petróleo à re­fi­na­ria? Que ga­ran­ti­as são pedidas para o reembolso dos cré­di­tos ao investimento? Que isen­ções fis­cais são pedidas? Qu­an­to o país per­de de ex­por­ta­ções?. Qual é a re­du­ção nos va­lo­res das im­por­ta­ções?

O PAÍS VAI GAS­TAR POR PERDA DE EX­POR­TA­ÇÕES CUSTOS DE OPE­RA­ÇÃO, REEMBOLSO DE FINANCIAMENTOS E MUI­TO MAIS DO QUE IS­SO

AGOSTINHO NARCISO | EDIÇÕES NO­VEM­BRO

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