Di­ver­si­fi­ca­ção no “bi­nó­cu­lo”

Jornal de Economia & Financas - - Opinião - Al­ci­des Go­mes Economista

Para es­ta­bi­li­zar eco­no­mi­ca­men­te (e qui­çá so­ci­al­men­te) o país, uma das saí­das mais rá­pi­das (no con­tex­to ac­tu­al) é, sem som­bra de dú­vi­da, a agri­cul­tu­ra, pois o de­sen­vol­vi­men­to des­te sec­tor pro­vi­den­cia o alar­ga­men­to rá­pi­do e sus­ten­tá­vel da ba­se tri­bu­tá­ria que, na nos­sa opinião, de­ve ser um dos nos­sos prin­ci­pais ob­jec­ti­vos a al­can­çar.

An­dan­do um pou­co para o in­te­ri­or do país, co­me­çan­do nas cer­ca­ni­as de Lu­an­da, de­pa­ra­mo-nos com enor­mes ex­ten­sões de ter­ra to­tal­men­te oci­o­sas. É sim­ples­men­te incrível per­mi­tir is­so por vá­ri­os anos, para de­pois im­por­tar tu­do e mais al­gu­ma coi­sa. Te­mos de apos­tar na agri­cul­tu­ra, adop­tan­do um mo­de­lo en­cai­xá­vel à nos­sa re­a­li­da­de, o qual de­ve con­tar com uma in­ter­ven­ção vi­go­ro­sa e qua­li­ta­ti­va do Es­ta­do, por um cer­to tempo, ten­do o ri­gor e a se­ri­e­da­de co­mo ba­lu­ar­tes de toda a ac­ção.

A nos­sa re­sis­tên­cia em apos­tar na agri­cul­tu­ra tem cus­ta­do mui­to ca­ro ao país. E se não mu­dar­mos ra­di­cal­men­te, es­tes custos vão continuar a ator­men­tar-nos. Pra­ti­car agri­cul­tu­ra não é coi­sa de ou­tro planeta, co­mo po­de pa­re­cer. Aliás, a maioria das pes­so­as adul­tas do país (em­bo­ra vi­ven­do ac­tu­al­men­te em ci­da­des) co­nhe­ce al­gu­ma coi­sa de agri­cul­tu­ra. Por­que, di­rec­ta ou in­di­rec­ta­men­te, to­dos te­mos ori­gens em zo­nas ru­rais on­de o tra­ba­lho agrí­co­la é das ta­re­fas mais tri­vi­ais.

Pa­ra­le­la­men­te a is­so, te­mos ho­je a tecnologia to­tal­men­te ao nos­so in­tei­ro dis­por. E ain­da as­sim, bem per­ti­nho de nós, exis­tem paí­ses que ti­ve­ram su­ces­so pe­la apos­ta na agri­cul­tu­ra, ala­van­can­do as su­as eco­no­mi­as por meio de­la. Es­ses paí­ses de­vem ser­vir-nos cla­ra­men­te de exem­plo. Ig­no­rar a sua ex­pe­ri­ên­cia só po­de ser um ac­to de pu­ra ma­lí­cia.

O Qué­nia e a Etió­pia, por exem­plo, fi­nan­ci­am es­pec­ta­cu­lar­men­te as su­as eco­no­mi­as por meio da pro­du­ção e ex­por­ta­ção de flo­res. En­quan­to is­so, a Zâm­bia, aqui mes­mo ao la­do, ga­nha in­co­men­su­rá­veis so­mas de di­vi­sas com a pro­du­ção e trans­for­ma­ção do mi­lho. Cá “na ban­da”, pa­re­ce que al­guns “mu­a­tas” aca­pa­ra­ram-se de enor­mes ex­ten­sões de ter­ra, on­de não pro­du­zem na­da, não dei­xam nin­guém pro­du­zir e por fim também não lhes acontece na­da.

E de­pois sur­gem os dis­cur­sos (com mui­ta te­o­ria à mis­tu­ra) de al­guns mu­a­tas, se­cun­da­dos por gru­pos de “ana­lis­tas tu­dó­lo­gos,” que têm opinião para tu­do. Por es­ses dias en­tão que se fa­la do OGE, é sim­ples­men­te có­mi­co: ca­da um atrás do me­lhor es­pa­ço para dar o seu show. Al­guns, se ca­lhar não sa­bem, mas boa par­te dos produtos (de ori­gem ve­ge­tal) que nos che­gam à mesa de­mo­ra ape­nas três me­ses des­de o lan­ça­men­to das se­men­tes até a aco­lhei­ta.

Re­la­ti­va­men­te aos ar­gu­men­tos que têm si­do avan­ça­dos, em­bo­ra al­guns te­nham co­mo ba­se a te­o­ria eco­nó­mi­ca, se apli­ca­dos sem se ana­li­sar pro­fun­da­men­te as pe­cu­li­a­ri­da­des da economia an­go­la­na e dos seus agen­tes eco­nó­mi­cos, po­dem pro­du­zir efei­tos con­trá­ri­os aos de­se­ja­dos, no cur­to e mé­dio pra­zo. E no lon­go pra­zo, co­mo di­zia Key­nes, es­ta­re­mos to­dos mortos.

Co­mo sa­be­mos, mais de me­ta­de do OGE de 2018 é para aten­der dí­vi­das que to­dos nós (en­quan­to Es­ta­do) te­mos vin­do a con­trair. E a ou­tra par­te é para pa­gar sa­lá­ri­os à fun­ção pú­bli­ca e, pos­si­vel­men­te, su­por­tar al­gu­mas despesas do Es­ta­do (despesas de bens e ser­vi­ços e de ca­pi­tais). Ora, da­do que, por al­gum des­cui­do (pre­gui­ça), não pro­du­zi­mos, boa par­te des­te di­nhei­ro vai acabar fo­ra do país, na mai­or das tran­qui­li­da­des, uma vez que é daí on­de vem a

CO­MO SE PO­DE CALCULAR, A SI­TU­A­ÇÃO NÃO É NA­DA ANIMADORA. PE­NA QUE MUI­TA GENTE AIN­DA NÃO CAIU NA RE­AL

ce­bo­la, o ar­roz, a fu­ba de mi­lho, a fa­ri­nha de tri­go e até o sal. Nes­ta or­dem de idei­as, e se as coi­sas não mu­da­rem ra­di­cal­men­te, a pre­vi­são da nos­sa economia cres­cer cer­ca 4,9 por cen­to, nes­te ano, se­rá pra­ti­ca­men­te im­pos­sí­vel.

Co­mo se po­de calcular, a si­tu­a­ção não é na­da animadora. Pe­na que mui­ta gente ain­da não caiu na re­al. Va­mos apos­tar sem de­mo­ra na agri­cul­tu­ra por­que não é tão difícil as­sim. É a agri­cul­tu­ra que nos le­va­rá a cres­cer mui­to ra­pi­da­men­te, a dois dí­gi­tos ou per­to dis­so, co­mo tem acon­te­ci­do com o Rwan­da, um pe­que­no país sem saí­da para o mar que tem cres­ci­do de ma­nei­ra sus­ten­tá­vel, sen­do ob­jec­to de mui­tos elo­gi­os.

Se con­ti­nu­ar­mos a ti­tu­be­ar com a agri­cul­tu­ra, co­mo tem si­do até ago­ra, a di­ver­si­fi­ca­ção da economia con­ti­nu­a­rá a ser um even­to só vis­to por meio de po­ten­tes bi­nó­cu­los; o de­sem­pre­go ten­de­rá a cres­cer em pro­gres­são ge­o­mé­tri­ca com to­dos os pro­ble­mas que is­so im­pli­ca, para não fa­lar da taxa de in­fla­ção que, nos úl­ti­mos anos, está a nos dar ta­reia.

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