Re­mu­ne­ra­ção sa­la­ri­al

Jornal de Economia & Financas - - Opinião - For­tu­na­to Pai­xão Do­cen­te uni­ver­si­tá­rio e Advogado

An­go­la vi­ve des­de fi­nais de 2014 uma cri­se fi­nan­cei­ra e eco­nó­mi­ca e o or­ça­men­to ge­ral do Es­ta­do para 2018 pre­vê um dé­fi­ce de 697,4 mil milhões de kwan­zas (3.560 milhões de eu­ros), equi­va­len­te a 2,9 por cen­to do pro­du­to in­ter­no bru­to (PIB), de acor­do com os da­dos cons­tan­tes do re­la­tó­rio de fun­da­men­ta­ção do Or­ça­men­to Ge­ral do Es­ta­do (OGE) para 2018, re­me­ti­do à As­sem­bleia Na­ci­o­nal, na sex­ta-fei­ra, dia 19 de Ja­nei­ro de 2018.

Para co­ber­tu­ra do dé­fi­ce, o Es­ta­do deverá fa­zer re­cur­so ao en­di­vi­da­men­to ex­ter­no e o mais gra­ve ao in­ter­no. A gravidade con­sis­te na atrac­ti­vi­da­de das ta­xas de juro que no ano pas­sa­do gi­ra­vam à vol­ta de 24 por cen­to. Ora, com a re­fe­ri­da taxa de juro, a ban­ca fi­ca­rá tão ali­ci­a­da e não te­rá com­pai­xão e nem vai que­rer per­der tempo em re­a­li­zar fi­nan­ci­a­men­to ao em­pre­sa­ri­a­do, por­quan­to vai de­di­car-se à com­pra dos tí­tu­los e à ven­da dos cam­bi­ais. Com efei­to, não se po­de es­pe­rar gran­des mi­la­gres na pro­du­ção na­ci­o­nal, ten­do em con­ta que o Es­ta­do an­go­la­no não está em con­di­ções de ala­van­car o em­pre­sa­ri­a­do, pe­lo que não se po­de es­pe­rar também gran­de pro­du­ti­vi­da­de das empresas. As­sim, a au­sên­cia ou baixa de pro­du­ti­vi­da­de co­lo­ca em cau­sa os custos cor­ren­tes das empresas, de­sig­na­da­men­te, o cus­to sa­lá­rio.

Di­an­te do di­le­ma, po­de­rão as empresas re­du­zir as re­mu­ne­ra­ções pe­ran­te a evi­den­te cri­se eco­nó­mi­ca e fi­nan­cei­ra?

Ora, um dos ele­men­tos do con­tra­to de tra­ba­lho e também de­ver prin­ci­pal do em­pre­ga­dor é a re­mu­ne­ra­ção (ar­ti­go 3.º, n.º 3 da LGT). En­ten­de-se por re­mu­ne­ra­ção o con­jun­to das pres­ta­ções eco­nó­mi­cas de­vi­das por em­pre­ga­dor a um tra­ba­lha­dor em con­tra­par­ti­da do tra­ba­lho por este pres­ta­do e em re­la­ção aos pe­río­dos de des­can­so le­gal­men­te equi­va­len­te à pres­ta­ção de tra­ba­lho (ar­ti­go 3.º, n.º 25 da LGT). Pe­lo con­jun­to de pres­ta­ções eco­nó­mi­cas, com­pre­en­de-se o sa­lá­rio-ba­se e com­ple­men­tos pa­gos di­rec­ta ou in­di­rec­ta­men­te em di­nhei­ro ou em es­pé­cie, se­ja qual for a sua de­no­mi­na­ção e for­ma de cál­cu­lo, por exem­plo, pré­mio de pro­du­ti­vi­da­de ou de as­si­dui­da­de, diu­tur­ni­da­de, sub­sí­dio de ris­co, de pe­no­si­da­de, de to­xi­ci­da­de, de iso- la­men­to, de ali­men­ta­ção, de trans­por­te, de tur­no, de na­tal, etc. (ar­ti­go 155.º, n.º 1 da LGT)

Não fazem par­te do con­jun­to da re­mu­ne­ra­ção, as atri­bui­ções acessórias do em­pre­ga­dor ao tra­ba­lha­dor, qu­an­do des­ti­na­da ao reembolso ou com­pen­sa­ção de despesas por este realizadas em re­la­ção ao tra­ba­lho, tais co­mo aju­das de cus­to, abo­nos de viagem e de ins­ta­la­ções, for­ne­ci­men­to obri­ga­tó­rio de alo­ja­men­to e ou­tras de idên­ti­ca na­tu­re­za (ar­ti­go 155.º, n.º 2 al a da LGT); as gra­ti­fi­ca­ções aci­den­tais e vo­lun­tá­ri­as não re­la­ci­o­na­das com a pres­ta­ção de tra­ba­lho ou que sir­vam de pré­mio ou re­co­nhe­ci­men­to pe­los bons ser­vi­ços (ar­ti­go 155.º, n.º 2, al b) da LGT) e abo­nos de fa­mí­lia e to­das as de­mais pres­ta­ções e sub­sí­di­os da se­gu­ran­ça so­ci­al qu­an­do pa­gos pe­lo em­pre­ga­dor (ar­ti­go 155.º, 2, al c) da LGT).

Pre­su­me-se cons­ti­tuir re­mu­ne­ra­ção qual­quer pres­ta­ção do em­pre­ga­dor ao tra­ba­lha­dor, com certa re­gu­la­ri­da­de e pe­ri­o­di­ci­da­de, de­ven­do o em­pre­ga­dor pro­var que a re­fe­ri­da pres­ta­ção não é re­mu­ne­ra­ção (ar­ti­go 155.º, n.º 3).

Na determinação do sa­lá­rio de­ve- se aten­der a parâmetros normativos que de certa for­ma constituem ga­ran­ti­as aos tra­ba­lha­do­res.

1. É ga­ran­ti­da aos tra­ba­lha­do­res uma re­mu­ne­ra­ção mí­ni­ma men­sal, se­ja qual for a mo­da­li­da­de pra­ti­ca­da, es­ta­be­le­ci­da na con­ven­ção co­lec­ti­va da de tra­ba­lho apli­cá­vel para o tra­ba­lho ou na sua fal­ta ao sa­lá­rio mí­ni­mo na­ci­o­nal, fi­xa­do pe­ri­o­di­ca­men­te pe­lo Pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca (ar­ti­gos 157.º, n.º 4,161 e 162.º.º);

2. De­ve ter-se em con­ta a quan­ti­da­de, na­tu­re­za e qua­li­da­de do tra­ba­lho, ob­ser­van­do-se o prin­cí­pio de que, para tra­ba­lho igual ou de valor igual, sa­lá­rio igual (ar­ti­go 76.º, n.º 2, da CRA, 43.º , al e) e 157.º, n.º 1 to­dos da LGT). Is­to não sig­ni­fi­ca que não ha­ja di­fe­ren­ci­a­ção sa­la­ri­al, mas sim a dis­cri­mi­na­ção sa­la­ri­al, a di­fe­ren­ci­a­ção sa­la­ri­al, ba­se­a­da no se­xo, re­li­gião, ra­ça, na­ci­o­na­li­da­de, e a con­vic­ções po­lí­ti­cas;

3. É ga­ran­ti­da aos tra­ba­lha­do­res a ir­re­du­ti­bi­li­da­de da re­mu­ne­ra­ção, pois está ga­ran­ti­da no ar­ti­go 43.º, al e), nos ter­mos do qual é proi­bi­do o em­pre­ga­dor re­du­zir a re­mu­ne­ra­ção dos tra­ba­lha­do­res (mes­mo por acor­do en­tre o tra­ba­lha­dor e o em­pre­ga­dor, aliás, nem se­rão vá­li­dos), sal­vo nos ca­sos pre­vis­tos na lei.

NA DETERMINAÇÃO DO SA­LÁ­RIO DE­VE-SE ATEN­DER A PARÂMETROS NORMATIVOS QUE DE CERTA FOR­MA CONSTITUEM GA­RAN­TI­AS AOS TRA­BA­LHA­DO­RES

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