O se­gu­ro e o in­te­res­se

Jornal de Economia & Financas - - Opinião - Mario Xi­ca­to Ju­ris­ta

Éi­ne­gá­vel que o avan­ço da téc­ni­ca e da tec­no­lo­gia im­pul­si­o­nou a me­lho­ria da nos­sa qualidade de vi­da. Por meio des­tes avan­ços foi pos­sí­vel, en­tre ou­tras, a in­ven­ção do veí­cu­lo, do avião, a cons­tru­ção de prédios, a ex­plo­ra­ção de re­cur­sos na­tu­rais, a pro­du­ção de equi­pa­men­tos elec­tró­ni­cos e o sur­gi­men­to de mui­tas ac­ti­vi­da­des eco­nó­mi­cas, que nos têm pro­por­ci­o­na­do imen­sos be­ne­fí­ci­os. Mas é in­con­tes­tá­vel, igual­men­te, que es­ses avan­ços trou­xe­ram inú­me­ros riscos à vi­da em so­ci­e­da­de, os quais o Es­ta­do não de­ve ig­no­rar.

A que­da de um avião, a co­li­são ou des­car­ri­la­men­to de um com­boio, o incêndio de uma bom­ba de com­bus­tí­vel, o der­ra­me de pe­tró­leo no mar, o er­ro de um mé­di­co, de um ar­qui­tec­to ou de um pe­ri­to con­ta­bi­lis­ta, por exem­plo, são riscos per­ce­bi­dos co­mo pas­sí­veis de, ocor­ren­do, cau­sa­rem da­nos sig­ni­fi­ca­ti­vos a ter­cei­ros e ao pró­prio agen­te – pes­soa sin­gu­lar ou co­lec­ti­va. Não obs­tan­te, os riscos re­fe­ri­dos, é con­sen­so que es­tas in­ven­ções e ac­ti­vi­da­des são ne­ces­sá­ri­as à ma­nu­ten­ção do ní­vel de vi­da e de de­sen­vol­vi­men­to eco­nó­mi­co que al­can­ça­mos. Po­rém, tal não po­de jus­ti­fi­car que a pro­tec­ção de ter­cei­ros se­ja re­le­ga­da. Es­ta é fun­da­men­tal pa­ra a paz so­ci­al. É uma obri­ga­ção do Es­ta­do, que o im­pe­le a en­con­trar a so­lu­ção mais efi­ci­en­te pa­ra este conflito de in­te­res­ses. Ora, sal­vo me­lhor en­ten­di­men­to, tal so­lu­ção pas­sa, na nos­sa opi­nião, pe­la via do se­gu­ro, me­ca­nis­mo que agre­ga uma du­pla fun­ção: a) pro­tec­ção pa­tri­mo­ni­al do ope­ra­dor, e b) pro­tec­ção do po­ten­ci­al lesado.

Com o se­gu­ro, va­le res­sal­tar, o pro­pri­e­tá­rio de um bem ou o agen­te de uma ac­ti­vi­da­de eco­nó­mi­ca sus­cep­tí­vel de cau­sar da­nos a ou­trem, trans­fe­re o ris­co de uma even­tu­al res­pon­sa­bi­li­da­de fi­nan­cei­ra a uma se­gu­ra­do­ra. Por es­ta via, am­bos vêem o seu pa­tri­mó­nio pro­te­gi­do. Ou se­ja, o pro­pri­e­tá­rio e o agen­te, já não têm ne­ces­si­da­de de pou­par avul­ta­das so­mas de di­nhei­ro - que os im­pe­di­ria de o in­ves­tir e ge­rar mais ri­que­za - pa­ra aten­der even­tu­ais pedidos de indemnização. E os ter­cei­ros, por sua vez, vêem a in­cer­te­za de li­qui­dez do cau­sa­dor do da­no re­du­zi­da ou afas­ta­da pe­la subs­ti­tui­ção do mes­mo por uma en­ti­da­de com ca­pa­ci­da­de fi­nan­cei­ra pa­ra o efei­to. Mas de­ve-se fa­zer se­gu­ro de to­do e qual­quer bem, e de to­da e qual­quer ac­ti­vi­da­de eco­nó­mi­ca?

A res­pos­ta a es­ta ques­tão não reú­ne con­sen­so. Pa­ra al­gu­mas pes­so­as os se­gu­ros não de­vem ser obri­ga­tó­ri­os. Po­rém, ou­tras há, que sus­ten­tam que sim. Nes­te par­ti­cu­lar, ca­be no­tar, an­tes de mais, que exis­tem bens e ac­ti­vi­da­des eco­nó­mi­cas de du­as ca­te­go­ri­as: (i) os sus­cep­tí­veis de cau­sa­rem da­nos a ter­cei­ros (uma ca­sa, um veí­cu­lo, ou a pro­du­ção e co­mer­ci­a­li­za­ção de be­bi­das e bens ali­men­ta­res), e (ii) aque­les cu­jos riscos de um da­no re­ca­em uni­ca­men­te so­bre o pro­pri­e­tá­rio do bem ou do agen­te da ac­ti­vi­da­de eco­nó­mi­ca (tí­tu­los, ac­ções, jói­as, agricultura de sub­sis­tên­cia ou a pro­du­ção ar­tís­ti­ca).

Di­an­te des­tas du­as ca­te­go­ri­as, de­fen­de­mos que pa­ra as ac­ti­vi­da­des ou bens no qual exis­te a sus­cep­ti­bi­li­da­de de o ris­co de um even­to da­no­so in­ci­dir ex­clu­si­va­men­te na es­fe­ra ju­rí­di­ca da pes­soa que o cria ou o de­tém, a con­tra­ta­ção de um se­gu­ro de­ve ser fa­cul­ta­ti­va. É o ca­so, por exem­plo, do se­gu­ro de saú­de. Nes­te, o ris­co de uma doença (pa­lu­dis­mo) ou de um acidente (frac­tu­ra da per­na), atin­gir tam­bém ter­cei­ros é qua­se nu­lo.

Lo­go, es­ta pes­soa é li­vre de ce­le­brar o se­gu­ro de saú­de, ou pre­fe­rir os ser­vi­ços de saú­de pú­bli­ca. Exis­te, por ou­tro la­do, co­mo re­fe­ri­mos, as ac­ti­vi­da­des ou bens, que pe­lo seu exer­cí­cio ou pe­la sim­ples de­ten­ção ou uti­li­za­ção, são sus­cep­tí­veis de cau­sar, co­mo con­sequên­cia de um acidente, da­nos a ter­cei­ros bem co­mo às pes­so­as que as de­sen­vol­vem ou as de­têm.

Na com­pra de um veí­cu­lo, por exem­plo, pa­ra uso pró­prio ou pa­ra o exer­cí­cio da ac­ti­vi­da­de de trans­por­te de pes­so­as e bens, exis­te a pos­si­bi­li­da­de des­te cau­sar da­nos a ter­cei­ros, co­mo re­sul­ta­do de um cho­que, co­li­são, ca­po­ta­men­to ou de incêndio. Do mes­mo modo po­de­rá ocor­rer com a aqui­si­ção de uma ca­sa, es­cri­tó­rio ou fá­bri­ca. Ou se­ja, da uti­li­za­ção ou não de um des­ses bens, é pos­sí­vel que de um de­les ad­ve­nha um incêndio ou inun­da­ção que os da­ni­fi­que par­ci­al ou to­tal­men­te e cau­se, con­se­quen­te­men­te, da­nos a ter­cei­ros.

Por ou­tro la­do, o for­ne­ci­men­to de ser­vi­ços pú­bli­cos es­sen­ci­ais, co­mo água, luz, se­gu­ran­ça e trans­por­tes (aé­reo, terrestre, ma­rí­ti­mo e fer­ro­viá­rio), o trans­por­te de ma­té­ri­as pe­ri­go­sas, a pro­du­ção e co­mer­ci­a­li­za­ção de be­bi­das ou bens ali­men­ta­res, são exem­plos, en­tre ou­tros, de ac­ti­vi­da­des que, ape­sar de sa­tis­fa­ze­rem in­te­res­ses pri­va­dos, são pas­sí­veis de cau­sa­rem igual­men­te da­nos na vi­da ou no pa­tri­mó­nio de ter­cei­ros.

Do ex­pos­to, pa­re­ce-nos le­gí­ti­mo con­cluir que pa­ra as ac­ti­vi­da­des e bens sus­cep­tí­veis de cau­sa­rem da­nos a ou­tras pes­so­as (ter­cei­ros), o Es­ta­do de­ve ins­ti­tuir – por es­tar em cau­sa, um pres­su­pos­to da tu­te­la do in­te­res­se pú­bli­co, is­to é, a pro­tec­ção de ter­cei­ros - a obri­ga­to­ri­e­da­de do se­gu­ro. As­sim, ga­ran­te a se­gu­ran­ça pa­tri­mo­ni­al das fa­mí­li­as, das em­pre­sas, o cres­ci­men­to eco­nó­mi­co, e por fim, o equi­lí­brio e a jus­ti­ça sociais.

DE­VE-SE FA­ZER SE­GU­RO DE TO­DO E QUAL­QUER BEM, E DE TO­DA E QUAL­QUER AC­TI­VI­DA­DE ECO­NÓ­MI­CA

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