Cons­truir os es­tá­di­os foi um er­ro?

Jornal dos Desportos - - OPINIÃO - AU­GUS­TO FER­NAN­DES

Oa­no de 2010 fi­ca mar­ca­do na his­tó­ria do desporto an­go­la­no, por ter si­do o ano em que o go­ver­no que ces­sou fun­ções a 26 de Setembro, re­a­li­zou um dos mai­o­res even­tos des­por­ti­vos de Áfri­ca: O Cam­pe­o­na­to Afri­ca­no das Na­ções (CAN Oran­ge An­go­la-2010).

Pa­ra re­a­li­za­ção de um even­to, de ta­ma­nha im­por­tân­cia, co­mo é o CAN, é nor­mal que o país or­ga­ni­za­dor ca­pri­che na sua or­ga­ni­za­ção. Por is­so, o go­ver­no cons­truiu vá­ri­as in­fra­es­tru­tu­ras, desde ho­téis, cam­pos de trei­nos, requalificação de ae­ro­por­tos, es­tra­das, e na­tu­ral­men­te, Es­tá­di­os com as con­di­ções ne­ces­sá­ri­as pa­ra a re­a­li­za­ção do even­to.

Luanda, Ben­gue­la, Hui­la e Cabinda foram as ci­da­des es­co­lhi­das pa­ra se­de­ar a fa­se de gru­pos, e por is­so, foram as que mais obras de be­ne­fi­ci­a­ção ti­ve­ram em to­dos os as­pec­tos, en­tre­tan­to, ne­nhu­ma de­las ti­nha um Es­tá­dio em con­di­ções pa­ra a re­a­li­za­ção do even­to da en­ver­ga­du­ra de um CAN.

Em Luanda, tínhamos ape­nas os "en­fer­mos" Es­tá­di­os da Ci­da­de­la e dos Co­quei­ros. Em Cabinda, o Es­tá­dio ( ou cam­po?) do Ta­fe, em Ben­gue­la, o cam­po Mu­ni­ci­pal e o do Bu­ra­co, que tam­bém são cha­ma­dos de Es­tá­di­os, fi­nal­men­te na Hui­la, o Es­tá­dio (?) do Fer­ro­via e o de Nos­sa Se­nho­ra do Mon­te.

Quem co­nhe­ceu es­tes cam­pos, até an­tes do CAN 2010, sa­be exac­ta­men­te do que me es­tou a re­fe­rir, ao rejeitar a qua­li­fi­ca­ção da mai­or par­te des­tes cam­pos, pa­ra Es­tá­di­os. Bem, a ver­da­de é que em fun­ção da re­a­li­za­ção do even­to, o Estado te­ve de cons­truir no­vos Es­tá­di­os.

As­sim, Luanda ga­nhou o mo­nu­men­tal Es­tá­dio 11 de Novembro, com ca­pa­ci­da­de pa­ra 50 mil al­mas sen­ta­das, Ben­gue­la re­ce­beu o Es­tá­dio de Om­ba­ka, com ca­pa­ci­da­de pa­ra 40 mil pes­so­as, Cabinda ga­nhou o Tchi­a­zi, pa­ra mais de 25 mil pes­so­as sen­ta­das, e a Hui­la re­ce­beu de presente, o Es­tá­dio da Tun­da­va­la, tam­bém com ca­pa­ci­da­de pa­ra al­ber­gar mais de 25 mil pes­so­as.

Foi gra­ças à re­a­li­za­ção do CAN 2010, que o cam­po de São Fi­li­pe (propriedade do Na­ci­o­nal de Ben­gue­la) re­ce­beu rel­va, e vá­ri­os cam­pos no Lo­bi­to, em Cabinda, na Hui­la e mes­mo em Luanda foram re­qua­li­fi­ca­dos.

Um gran­de exem­plo dis­to, foi a re­mo­de­la­ção fei­ta no velho Es­tá­dio dos Co­quei­ros, que ago­ra de velho, só res­ta o no­me

Por­tan­to, não res­tam dú­vi­das, que pa­ra a re­a­li­za­ção de um even­to co­mo um CAN, Eu­ro­peu, Mundial ou ou­tro even­to que con­gre­gue as mai­o­res es­tre­las da mo­da­li­da­de em cau­sa, quer a ní­vel con­ti­nen­tal ou Mundial, o país or­ga­ni­za­dor deve ca­pri­char na sua or­ga­ni­za­ção, pois, tra­ta-se de uma opor­tu­ni­da­de não só de fa­zer re­cei­tas pa­ra os co­fres do Estado com o even­to em si, co­mo por via do turismo, que o pró­prio even­to promove.

Alem dis­so, to­do o tra­ba­lho re­la­ti­vo à or­ga­ni­za­ção do cer­ta­me, é um gran­de ganho pa­ra o país or­ga­ni­za­dor. En­tre­tan­to, al­gu­mas pes­so­as da fa­mí­lia do fu­te­bol an­go­la­no e não só, dis­se­ram que o go­ver­no er­rou, ter­ri­vel­men­te, ao cons­truir os Es­tá­di­os nas qua­tro pro­vín­ci­as que se­di­a­ram o CAN 2010.

Pa­ra tais pes­so­as, se­ria melhor que fos­sem cons­truí­dos hos­pi­tais, es­co­las ou ou­tros bens pú­bli­cos. O mo­ti­vo de tais afir­ma­ções, é o fac­to da mai­or par­te de­les (dos Es­tá­di­os) es­ta­rem aban­do­na­dos e des­tra­ta­dos. Pa­ra tais pes­so­as, o dinheiro foi mal em­pre­gue na construção des­sas in­fra - es­tru­tu­ras pú­bli­cas. Es­ta ideia está a fa­zer mui­to mais eco, desde a vi­si­ta que o no­vo go­ver­na­dor de Cabinda fez ao “mo­ri­bun­do” Es­tá­dio do Tchi­a­zi.

Com to­do o res­pei­to, que te­nho pa­ra com a opi­nião dos ou­tros, de­vo dizer que tam­bém re­pro­vo com ve­e­mên­cia o estado em que se en­con­tram os re­fe­ri­dos Es­tá­di­os, da­do o ele­va­do cus­to (e mes­mo que fos­sem cons­truí­dos a pre­ço da ba­na­na) que en­vol­ve­ram a construção da­que­les re­cin­tos des­por­ti­vos.

É in­con­ce­bí­vel, que pas­sa­dos se­te/oi­to anos da sua construção, os re­fe­ri­dos bens pú­bli­cos es­te­jam nas con­di­ções de­plo­rá­veis que to­dos sa­be­mos. Aliás, mui­to an­tes da vi­si­ta do se­nhor go­ver­na­dor de Cabinda ao Tchi­a­zi, a im­pren­sa far­tou-se de fa­lar so­bre a si­tu­a­ção, nu­ma al­tu­ra em que as coi­sas ain­da po­di­am ser con­tro­la­das com menos cus­tos.

Até aí, tu­do bem. Em mi­nha mo­des­ta opi­nião, não po­de­mos dizer que a construção dos Es­tá­di­os aci­ma re­fe­ren­ci­a­dos, foi um gran­de er­ro da par­te do go­ver­no, pe­los ar­gu­men­tos apre­sen­ta­dos aci­ma, en­vol­vi­dos na re­a­li­za­ção de um even­to da en­ver­ga­du­ra de um CAN, que são ób­vi­os e ines­cu­sá­veis. Dizer que foi um er­ro, o go­ver­no ter cons­truí­do os Es­tá­di­os, equi­va­le dizer que to­dos os go­ver­nos que as­sim agem em cir­cuns­tan­ci­as si­mi­la­res, tam­bém têm er­ra­do.

O gran­de pro­ble­ma, foi que o go­ver­no não acau­te­lou o cha­ma­do “day - af­ter” dos Es­tá­di­os. Es­te, foi o er­ro, e não a construção dos mes­mos. Quer dizer: o go­ver­no de­via to­mar me­di­das pa­ra man­ter os Es­tá­di­os fun­ci­o­nais e saudáveis de­pois do CAN, em fun­ção do tem­po de vida de uma in­fra­es­tru­tu­ra da­que­la di­men­são, da­do o ti­po de ma­te­ri­al usa­do na sua construção.

Pa­ra al­gu­mas pes­so­as, os Es­tá­di­os em re­fe­rên­ci­as tor­na­ram-se nu­ma es­pé­cie de elefante bran­co, por se­rem con­si­de­ra­dos sa­gra­dos em al­guns paí­ses, não po­dem ser usa­dos pa­ra fa­zer ne­nhum ti­po de tra­ba­lho, mas de­vem ser mui­to bem tra­ta­dos, o que po­de le­var o seu pro­pri­e­tá­rio à ruí­na eco­nó­mi­ca e con­se­quen­te­men­te à po­bre­za.

Mas es­te não deve ser, ne­ces­sa­ri­a­men­te, o ca­so em ques­tões de bens pú­bli­cos ge­ri­dos pelo Estado. A gran­de ver­da­de é a im­pu­ni­da­de, a fal­ta de res­pon­sa­bi­li­za­ção e ou­tros mi­mos que se dão a al­guns ges­to­res de bens pú­bli­cos, que con­du­zem a es­te estado de coi­sas.

Um exem­plo fla­gran­te dis­to, foi o su­mi­ço que se deu ao ge­ra­dor de ener­gia do Es­tá­dio da Tun­da­va­la, na Hui­la. Até ho­je, pas­sa­dos mais de três anos, se a me­mó­ria não me atrai­çoa, nin­guém sa­be co­mo o ge­ra­dor “fu­giu” do Es­tá­dio. A Rá­dio 5 até ofe­re­cia (ou ofe­re­ce?) um bom pré­mio a quem der pis­tas, que con­du­zam ao ge­ra­dor de­sa­pa­re­ci­do.

Pe­los vis­tos, pa­re­ce que o apa­re­lho eva­po­rou-se. Acre­di­to, não ser a pes­soa in­di­ca­da pa­ra dizer co­mo o go­ver­no de­via ou deve ge­rir a ac­tu­al si­tu­a­ção dos Es­tá­di­os, por res­pei­to às pes­so­as in­di­ca­das pa­ra o efei­to. Mas acho, que a ac­tu­al si­tu­a­ção dos Es­tá­di­os do CAN 2010, por es­ta­rem mui­to mal, ain­da vai a tem­po de ser me­lho­ra­da.

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