A mar­ca que da­va um fil­me

Tem to­dos os in­gre­di­en­tes pa­ra uma pe­lí­cu­la de su­ces­so. Um jo­vem vi­si­o­ná­rio que co­me­çou a ven­der ma­las de vi­a­gem em cou­ro, dis­pu­ta­das fa­mi­li­a­res e um ho­mi­cí­dio. A his­tó­ria da­mar­ca ita­li­a­na é tão só apai­xo­nan­te

Super Fashion - - Super / Mulheres - POR MA­RIA SAN­TOS

"A al­ta cos­tu­ra e a al­ta gas­tro­no­mia são uma re­cei­ta fei­ta do céu." As palavras são de Mas­si­mo Bot­tu­ra, chef com três es­tre­las Mi­che­lin, a pro­pó­si­to da no­va apos­ta da Guc­ci: um res­tau­ran­te, o Guc­ci Os­te­ria, que faz par­te do Guc­ci Gar­den, o mu­seu da grif­fe que in­cluiu um es­pa­ço pa­ra ex­po­si­ções, uma lo­ja e uma sa­la de ci­ne­ma e que fi­ca si­tu­a­do no Pa­laz­zo del­la Mer­can­zia, vi­ra­do pa­ra a pra­ça mais fa­mo­sa de Flo­ren­ça, a Pi­az­za del­la Sig­no­ria.

Não é a pri­mei­ra mar­ca de lu­xo a li­gar­se à gas­tro­no­mia e a res­tau­ra­ção po­de­rá pas­sar mais por uma ação de mar­ke­ting, do que pro­pri­a­men­te na apos­ta no lu­cro. Mas mos­tra como as mar­cas se sa­bem rein­ven­tar e es­tar sem­pre a par das no­vas ten­dên­ci­as de com­por­ta­men­to. E se há mar­ca que tem sa­bi­do dar a vol­ta por ci­ma, es­sa mar­ca é a Guc­ci. A sua his­tó­ria, que é con­ta­da há já qua­se cem anos, é re­che­a­da de epi­só­di­os dig­nos de um fil­me: in­tri­gas fa­mi­li­a­res, pré-fa­lên­cia e até um ho­mi­cí­dio en­co­men­da­do. De­pois dos anos de ou­ro vi­vi­dos com as es­tre­las de Hollywo­od, o su­ces­so só re­a­pa­re­ceu na dé­ca­da de 90 do sé­cu­lo pas­sa­do quan­do Tom Ford foi con­tra­ta­do pa­ra di­re­tor cri­a­ti­vo.

A his­tó­ria co­me­ça com o ita­li­a­no Guc­cio Guc­ci, fi­lho de um ar­te­são hu­mil­de que tra­ba­lhou como as­cen­so­ris­ta e ma­lei­ro no lu­xu­o­so Ho­tel Sa­voy em Lon­dres. Nes­sa al­tu­ra te­ve a opor­tu­ni­da­de de apu­rar o seu bom gos­to ao ad­mi­rar os per­ten­ces das fa­mí­li­as ri­cas. Quan­do re­gres­sou à sua ter­ra na­tal, Flo­ren­ça, em 1921,de­ci­diu abrir uma lo­ja on­de ven­dia ma­las de vi­a­gem de cou­ro de al­ta qua­li­da­de. Ra­pi­da­men­te a sua fa­ma se es­pa­lhou e em pou­co tem­po ti­nha aber­to uma ofi­ci­na on­de fa­bri­ca­va os seus pró­pri­os pro­du­tos.

A pri­mei­ra lo­ja abriu em Ro­ma em 1938 e no­ve anos de­pois lan­ça­va o pri­mei­ro dos

seus pro­du­tos icó­ni­cos, a bolsa com al­ça de bam­bu que pas­sou a ser um must ha­ve de tu­do quan­to era ce­le­bri­da­de. Em 1951, 30 anos de­pois da fun­da­ção, os fi­lhos de Guc­cio - Al­do e Ro­dol­fo - atra­ves­sa­ram o oce­a­no e abri­ram uma lo­ja em No­va Ior­que. A mar­ca lan­çou en­tre­tan­to outro dos seus íco­nes, o hor­se­bit lo­a­fer, uns mo­cas­sis com fi­ve­la de me­tal, com a as­si­na­tu­ra ver­de e ver­me­lha.

Fo­ram mui­tas as es­tre­las de Hollywo­od a dar a sua con­tri­bui­ção pa­ra que a Guc­ci ga­nhas­se cada vez mais e mais pres­tí­gio. En­tre elas con­ta­vam-se Sophia Lo­ren, In­grid Berg­man, Gra­ce Kelly, Pe­ter Sel­lers e Au­drey Hep­burn. Tam­bém o ca­sal Ken­nedy não dis­pen­sa­va os seus pro­du­tos de lu­xo.

Mas os bons di­as não du­ra­ram e com o pas­sar dos anos os pro­ble­mas fa­mi­li­a­res co­me­ça­ram a afe­tar gra­ve­men­te a vi­a­bi­li­da­de fi­nan­cei­ra da em­pre­sa e a pa­la­vra fa­lên­cia sur­gia com mui­ta frequên­cia. Na dé­ca­da de 80, o no­me de Al­do Guc­ci sur­ge num es­cân­da­lo de frau­de fis­cal de se­te mi­lhões de dó­la­res. Como se já não bas­tas­se, Mau­ri­zio Guc­ci, so­bri­nho de Al­do e ne­to do fun­da­dor, foi mor­to por en­co­men­da. O ho­mi­cí­dio foi exe­cu­ta­do a man­do da sua mu­lher em 1995, quan­do es­te es­ta­va a che­gar ao seu es­cri­tó­rio em Mi­lão. Pa­tri­zia Reg­gi­a­ni fi­cou co­nhe­ci­da como "viú­va ne­gra".

tom For traz no­vo fô­le­go

Já a fa­mí­lia Guc­ci es­ta­va fo­ra de ce­na quan­do o en­tão lí­der da em­pre­sa, Do­me­ni­co Del So­le, no­me­ou Tom Ford, em 1994, pa­ra di­re­tor cri­a­ti­vo. E a Guc­ci ga­nha­va um no­vo fô­le­go - foi re­lan­ça­da a bolsa com al­ça de bam­bu o es­ti­lis­ta pe­gou em mãos tu­do o que ti­nha a ver com a mo­da, des­de a as­si­na­tu­ra das co­le­ções, à es­co­lha dos fo­tó­gra­fos, pas­san­do pela de­ci­são so­bre as cam­pa­nhas e até a es­co­lha da de­co­ra­ção das lo­jas. Os ros­tos das cam­pa­nhas fo­ram subs­ti­tuí­dos por íco­nes mais atu­ais - Au­drey Hep­burn e Gra­ce Kelly de­ram lu­gar a Ma­don­na e Ti­na Tur­ner.

Há pre­ci­sa­men­te dez anos a grif­fe inau­gu­rou a sua mai­or lo­ja, das 430 que tem es­pa­lha­das pelo mun­do, na lu­xu­o­sa Quin­ta Ave­ni­da, em No­va Ior­que. São mais de 14 mil me­tros qua­dra­dos de lu­xo ab­so­lu­to, di­vi­di­do por três an­da­res.

Rei­ven­tan­do-se, a grif­fe, que tem como seu di­re­tor cri­a­ti­vo Ales­san­dro Mi­che­le, con­ti­nua a ser uma re­fe­rên­cia no mun­do da mo­da de lu­xo.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Angola

© PressReader. All rights reserved.