PE­SA­DO CO­MO O CHUM­BO

Quan­do se pen­sa pen­sa­va que o so­nho ha­via aca­ba­do, era ape­nas o co­me­ço de uma ver­da­dei­ra ex­plo­são so­no­ra que se ini­ci­a­va. Na dé­ca­da de 70 o rock au­men­tou o vo­lu­me e ini­ci­ou um ca­mi­nho sem re­tor­no ru­mo à di­ver­si­fi­ca­ção de es­ti­los, mas não sem le­var a lou­cu

ALMANAQUE DO ROCK - EDIÇÃO DE COLECIONADOR - - Terceira Era -

Otí­tu­lo de uma das mais

de­ta­lha­das bi­o­gra­fi­as do Led Zep­pe­lin, es­cri­ta por Mick Wall, é When gi­ants wal­ked the Earth, tra­du­zi­do no Bra­sil co­mo “Quan­do os gi­gan­tes ca­mi­nha­vam so­bre a Ter­ra”. E po­de ser to­ma­do não ape­nas co­mo uma re­fe­rên­cia à ban­da de Jimmy Pa­ge, mas co­mo um re­su­mo de to­da uma épo­ca do rock'n'roll, mar­ca­da pe­lo gi­gan­tis­mo e o exa­ge­ro em tu­do que se pen­sar. De re­pen­te, a música fi­cou in­cri­vel­men­te pesada; o vo­lu­me dos am­pli­fi­ca­do­res pa­re­cia não ter li­mi­tes e o rock jor­ra­va em mi­lhões de me­gawatts por to­ne­la­das de equi­pa­men­tos.

Em ou­tra fren­te, os shows se tor­na­ram es­pe­tá­cu­los de lu­zes e efei­tos vi­su­ais. Com is­so, o rock saiu dos pe­que­nos clu­bes no­tur­nos e foi pa­ra os gran­des teatros e es­tá­di­os. As mú­si­cas tam­bém fi­ca­ram mais lon­gas e tra­ba­lha­das. O vir­tu­o­sis­mo se im­pu­nha co­mo con­di­ção pa­ra qual­quer um que pen­sas­se em ter uma ban­da. Em ter­mos de mercado, as ven­das de ál­buns pas­sa­ram a ser me­di­das em mi­lhões de dó­la­res, bem co­mo o sal­do das con­tas das gran­des gra­va­do­ras e dos as­tros (sim, os roc­kers ago­ra eram es­tre­las). Os ca­be­los tam­bém fi­ca­ram bem mai­o­res, as­sim co­mo as rou­pas mais ex­tra­va­gan­tes, ter­mo que tam­bém se apli­ca­ria ao es­ti­lo de vi­da dos mú­si­cos e qual­quer ou­tra pes­soa que es­ti­ves­se co­nec­ta­da ao no­vo “rock way of li­fe”. Quar­tos de ho­tel eram brin­que­di­nhos a se­rem des­truí­dos, a pon­to de al­gu­mas re­des de ho­téis se re­cu­sa­rem a re­ce­ber ban­das de rock. As dro­gas alu­ci­nó­ge­nas dos anos 60 de­ram lu­gar a mon­ta­nhas de co­caí­na e do­ses fa­tais de he­roí­na. O des­con­tro­le emo­ci­o­nal e os egos tam­bém se agi­gan­ta­ram. En­fim, em qual­quer que se­ja o as­pec­to que se quei­ra pen­sar so­bre o rock pós-Wo­ods­tock, de­ve-se pen­sar que era bem mai­or do que se ima­gi­na.

Dos dez ál­buns

mais ven­di­dos da

his­tó­ria do rock,

MI­NA DE ES­TI­LOS

cin­co fo­ram gra­va­dos

A ter­cei­ra era do rock é tam­bém on­de se co­me­çou a de­fi­nir as cor­ren­tes dis­tin­tas den­tro do gê­ne­ro. O hard rock pre­do­mi­nou e lan­çou a ba­ses do he­avy me­tal, com ban­das co­mo Led Zep­pe­lin, Black Sab­bath e De­ep Pur­ple. No en­tan­to, te­ve que di­vi­dir es­pa­ço com o rock pro­gres­si­vo de ban­das co­mo Yes, Jeth­ro Tull e ELP que, ins­pi­ra­dos pe­lo Pink Floyd, cri­a­ram pai­sa­gens so­no­ras ex­tra­po­lan­do a mé­dia de três mi­nu­tos im­pos­ta pe­las rá­di­os, che­gan­do a gra­var épi­cos de mais de 20 mi­nu­tos. Além dis­so, in­tro­du­zi­ram o uso de sin­te­ti­za­do­res e a am­pli­fi­ca­ção de ins­tru­men­tos co­mo vi­o­li­nos e flau­tas em uma di­men­são iné­di­ta, sem con­tar as or­ques­tra­ções e o fler­te com a música clás­si­ca.

Ou­tra cor­ren­te im­por­tan­te foi o glam-rock, com as ex­tra­va­gân­ci­as de Marc Bo­lan, Da­vid Bowie e ou­tros. A ima­gem an­dró­gi­na dos rocks­tars en­con­trou ali sua má­xi­ma ex­pres­são. Mais im­por­tan­te ain­da foi ter fei­to um re­tor­no ao rock mais sim­ples, po­rém, me­nos in­gê­nuo, res­ga­ta­do dos anos pré-Be­a­tles, mas com rou­pa­gem

nos anos 70: Dark

Si­de Of The Mo­on

(Pink Floyd), Bat Out

Of Hell

(Me­at Lo­af),

Their Gre­a­test Hits:

1971–1975

(Ea­gles),

Ru­mours (Fle­etwo­od

Mac) e Led Zep­pe­lin IV

(Led Zep­pe­lin).

Ape­sar da

efer­ves­cên­cia

po­lí­ti­ca e da Gu­er­ra

do Vi­et­nam, pou­cas

ban­das de rock

des­se pe­río­do

usa­vam te­mas

so­ci­ais em su­as

letras. Por is­so,

mui­tos crí­ti­cos di­zem

que o rock fi­cou

ali­e­na­do.

hard rock. Mui­ta gen­te do pós-punk e da ce­na in­die sur­gi­da a par­tir dos anos 90 be­beu nes­sa fon­te. Aliás, o glam abriu es­pa­ço pa­ra a tur­ma un­der­ground, que sem­pre an­te­ci­pou ten­dên­ci­as, se­guir uma in­can­sá­vel bus­ca pe­lo no­vo.

Em New York, nos clu­bes mais fu­lei­ros, emer­gi­am ban­das co­mo o New York Dolls, se­gui­do­res da cru­e­za do MC5, The So­nics e Sto­o­ges, nu­ma pré­via pá­li­da do furacão que se se­gui­ria a par­tir de 1976. Mas a In­gla­ter­ra não fi­ca­va atrás, e nos pubs o rock'n'roll des­pi­do de plu­mas e pa­e­tês, exe­cu­ta­do pa­ra pla­tei­as bem me­no­res (e bê­ba­das) da­va es­pe­ran­ças de ter uma ban­da a qu­em ja­mais se­ria um Jimmy Pa­ge. Aliás, o cha­ma­do art rock pre­cur­sor da new wa­ve e do in­die rock atu­al, ga­nha­va ba­ses com o Roxy Mu­sic.

Até mes­mo a música ele­trô­ni­ca, que por al­gu­mas dé­ca­das se dis­tan­ci­ou do rock, tem su­as ba­ses nos aos 70. Mais es­pe­ci­fi­ca­men­te na Ale­ma­nha, on­de uma on­da cha­ma­da krau­trock le­va­va o ex­pe­ri­men­ta­lis­mo com as frequên­ci­as so­no­ras de ór­gãos ele­trô­ni­cos e sin­te­ti­za­do­res a ní­veis mais aces­sí­veis e cri­a­ti­vos. Seus mais fa­mo­sos re­pre­sen­tan­tes fo­ram Can, Tan­ge­ri­ne Dre­am, Amon Dull, Neu! e Kraftwerk, en­tre ou­tros. A re­to­ma­da de ele­men­tos ele­trô­ni­cos se con­so­li­da­ria nos anos 90, com o “nu me­tal”, que ine­ga­vel­men­te se as­se­me­lha a mui­ta coi­sa fei­ta pe­los ale­mães na­que­le pe­río­do.

O ter­mo “he­avy

me­tal” te­ria

si­do usa­do pe­la

pri­mei­ra vez pe­lo

DESINTEGRAÇÃO

No ál­bum Beg­gars Ban­quet (1968), os Rol­ling Sto­nes can­ta­vam, em Stre­et Figh­ting Man: “But what can a po­or boy do / Ex­cept to sing for a rock'n'roll band?” (Mas o que mais po­de um ga­ro­to po­bre fa­zer? / A não ser can­tar em uma ban­da de rock'n'roll?). No en­tan­to, por vol­ta da me­ta­de da dé­ca­da de 70, is­so se­ria qu­a­se im­pos­sí­vel. Ter uma ban­da de rock até não era lá mui­to di­fí­cil, o pro­ble­ma era che­gar a al­gum lu­gar. O gi­gan­tis­mo do rock tor­nou-o um ne­gó­cio mi­li­o­ná­rio. Fa­zer um dis­co que pu­des­se con­cor­rer com tu­do o que as gran­des gra­va­do­ras pro­du­zi­am, cus­ta­va al­guns mi­lha­res de dó­la­res. Na ver­da­de, as ban­das ha­vi­am cri­a­do seu pró­prio uni­ver­so e vi­vi­am em mun­dos fo­ra da re­a­li­da­de. Is­so aca­bou afas­tan­do os ído­los dos fãs. Tan­to que o con­cei­to do ál­bum The Wall, do Pink Floyd, se ba­seia nes­sa pa­re­de que os se­pa­ra­va do pú­bli­co.

Por is­so, quan­do o punk sur­giu, re­a­brin­do as por­tas pa­ra um exér­ci­to de “stre­et figh­ting kids”, as mu­ra­lhas er­gui­das pe­los su­pers­tars co­me­ça­ram a ruir. Mas que fi­que bem cla­ro: en­tre 1969 e 76, o rock vi­veu uma de su­as épo­cas mais pro­du­ti­vas e ain­da es­con­de ver­da­dei­ros te­sou­ros a se­rem des­co­ber­tos até mes­mo por qu­em a vi­veu e ain­da tem uns pou­cos neurô­ni­os in­tac­tos...

Steppenwolf em

Born To Wild, mas

co­mo re­fe­rên­cia a

um es­ti­lo mu­si­cal,

sur­giu por vol­ta

de 1971, quan­do

o jor­na­lis­ta Mi­ke

Saun­ders o usou

pa­ra des­cre­ver o

ál­bum King­dom

Co­me, do gru­po

Sir Lord Bal­ti­mo­re.

Mas o crí­ti­co

mu­si­cal Les­ter

Bangs, rei­vin­di­cou

o pi­o­nei­ris­mo pa­ra

si, uma vez que

tam­bém em­pre­gou

o ter­mo pa­ra

clas­si­fi­car o som do

pri­mei­ro ál­bum do

Black Sab­bath.

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