Crianças e ado­les­cen­tes obe­sos au­men­ta dez ve­zes

Brasil em Folhas - - Primeira Página -

Omun­do en­fren­ta uma cri­se global de má nu­tri­ção cau­sa­da tan­to pe­la fal­ta de co­mi­da co­mo pelo con­su­mo de ali­men­tos pro­ces­sa­dos pou­co saudáveis. Os dois pro­ble­mas estão re­la­ci­o­na­dos com a po­bre­za e a de­si­gual­da­de so­ci­al e ame­a­çam cada vez mais os paí­ses em de­sen­vol­vi­men­to, alerta um estudo pu­bli­ca­do nes­ta quar­ta-fei­ra pe­la Or­ga­ni­za­ção Mundial da Saúde (OMS) em co­la­bo­ra­ção com ins­ti­tui­ções aca­dê­mi­cas do Rei­no Uni­do.

No mun­do já há 124 milhões de crianças e jo­vens —en­tre cin­co e 19 anos— que so­frem de obe­si­da­de, um nú­me­ro dez ve­zes mai­or do que o re­gis­tra­do há qua­tro dé­ca­das. En­quan­to o pro­ble­ma se­gue cres­cen­do en­tre os mais jo­vens, o avan­ço da des­nu­tri­ção está di­mi­nuin­do a ní­vel global. Se es­tas ten­dên­ci­as con­ti­nu­a­rem nos pró­xi­mos anos, em 2022 ha­ve­rá no mun­do mais crianças e jo­vens obe­sos do que des­nu­tri­dos, acres­cen­ta o tra­ba­lho, que tam­bém res­sal­ta que há ou­tros 213 milhões de ga­ro­tos e ga­ro­tas com so­bre­pe­so. À es­te pro­ble­ma é pre­ci­so so­mar o dos 192 milhões de crianças e jo­vens com des­nu­tri­ção mo­de­ra­da e agu­da, um pro­ble­ma que afe­ta es­pe­ci­al­men­te paí­ses asiá­ti­cos, co­mo a Ín­dia.

“A obe­si­da­de tam­bém é uma con­sequên­cia da má nu­tri­ção”, ex­pli­ca Chi­a­ra di Ce­sa­re, es­pe­ci­a­lis­ta em saúde pública da Uni­ver­si­da­de de Mid­dle­sex e co­au­to­ra do estudo, pu­bli­ca­do nes­ta quar­ta na re­vis­ta médica The Lan­cet, e cu­jos da­dos por paí­ses po­dem ser ob­ser­va­dos aqui. O estudo ana­li­sou mais de 2.000 es­tu­dos so­bre o ín­di­ce de mas­sa cor­po­ral de adul­tos, crianças e ado­les­cen­tes que in­clui da­dos de 128 milhões de pes­so­as pa­ra es­ti- mar as taxas de so­bre­pe­so, obe­si­da­de e des­nu­tri­ção em 200 paí­ses.

A re­gião com mais crianças obe­sas é a Po­li­né­sia, onde mais de 30% das crianças e jo­vens estão obe­sos. Em se­gui­da estão ou­tras re­giões de paí­ses em de­sen­vol­vi­men­to com taxas pró­xi­mas a 20% na Ásia e no Nor­te da Áfri­ca, co­mo Ará­bia Sau­di­ta, Ira­que, Kuwait e Egi­to. Amé­ri­ca La­ti­na tam­bém é uma das re­giões onde mais cres­ceu a obe­si­da­de en­tre as crianças, ex­pli­ca Di Ce­sa­re. A ní­vel global, 5,6% das ga­ro­tas e 7,8% dos ga­ro­tos estão obe­sos. Em 1975, o pri­mei­ro ano ana­li­sa­do, as ci­fras eram de 0,7% e de 0,9%, res­pe­ti­va­men­te. Quan­do ana­li­sa­dos os da­dos ape­nas do Bra­sil, os nú­me­ros são ain­da mais al­tos: en­tre os me­ni­nos, a pre­va­lên­cia é de 12,7% e, en­tre as me­ni­nas, de 9,4%

—em 1975, era de 0,9% pa­ra am­bos e, em 2000, quan­do hou­ve um es­ti­rão de cres­ci­men­to, de 5,7% en­tre eles e de 5% en­tre elas. “Ain­da não está cla­ra qual é a ex­pli­ca­ção pa­ra que se te­nha tan­ta obe­si­da­de nes­tes paí­ses, em­bo­ra uma das ra­zões pos­sa ser as mu­dan­ças brus­cas no mer­ca­do de ali­men­ta­ção e a che­ga­da das co­mi­das pro­ces­sa­das com bai­xo va­lor nu­tri­ti­vo”, res­sal­ta a es­pe­ci­a­lis­ta. En­quan­to a obe­si­da­de en­tre jo­vens avan­ça nos paí­ses em de­sen­vol­vi­men­to, o cres­ci­men­to está es­tan­can­do na Eu­ro­pa e nos EUA, mas só após dé­ca­das de avan­ço e com uma pre­va­lên­cia que con­ti­nua sen­do mui­to al­ta, aler­tam os au­to­res do tra­ba­lho. Se o im­pac­to da des­nu­tri­ção é vi­sí­vel e de cur­to prazo —cer­ta de três milhões de crianças mor­rem por es­tas causas a cada ano—, o da obe­si­da­de é crô­ni­co, pois fo­men­ta do­en­ças co­mo a di­a­be­tes, os pro­ble­mas car­di­o­vas­cu­la­res ou o cân­cer, que apa­re­cem após dé­ca­das. Com es­ta ten­dên­cia, se não se to­ma­rem me­di­das “sé­ri­as” con­tra a obe­si­da­de, “se co­lo­ca­rá em risco des­ne­ces- sá­rio a saúde de milhões de pes­so­as, o que ele­va­rá os cus­tos hu­ma­nos e econô­mi­cos”, aler­tou Le­an­ne Ri­ley, es­pe­ci­a­lis­ta da OMS e co­au­to­ra do estudo.

Ma­jid Ez­za­ti, pes­qui­sa­dor do Im­pe­ri­al Col­le­ge e um dos co­or­de­na­do­res do tra­ba­lho, res­sal­ta que “a mai­o­ria de paí­ses ri­cos re­sis­ti­ram a es­ta­be­le­cer impostos e re­gu­la­ção pa­ra mu­dar os há­bi­tos ali­men­ta­res das crianças e, as­sim, evi­tar a obe­si­da­de in­fan­til”. “Mais im­por­tan­te é que exis­tem mui­to pou­cas po­lí­ti­cas e pro­gra­mas de­di­ca­dos a fa­ci­li­tar o aces­so a co­mi­das saudáveis co­mo os grãos in­te­grais, fru­tas e ve­ge­tais pa­ra fa­mí­li­as po­bres. A im­pos­si­bi­li­da­de de com­prar co­mi­da sau­dá­vel po­de le­var à de­si­gual­da­de so­ci­al e à obe­si­da­de”, acres­cen­ta. A tran­si­ção en­tre a des­nu­tri­ção e o so­bre­pe­so e a obe­si­da­de po­de acon­te­cer de for­ma rá­pi­da em paí­ses em de­sen­vol­vi­men­to que pas­sam de ter fal­ta de co­mi­da a um aces­so fa­ci­li­ta­do a ali­men­tos e be­bi­das pro­ces­sa­das com al­to te­or de gor­du­ras, sal e açú­ca­res e pou­cos nu­tri­en­tes es­sen­ci­ais, aler­tam os au­to­res. Ao mes­mo tem­po, “os paí­ses de­sen­vol­vi­dos mos­tram um es­tan­ca­men­to do avan­ço da obe­si­da­de, mas é pos­sí­vel que o que es­te­ja acon­te­cen­do é uma re­du­ção só en­tre os mais ri­cos e um avan­ço en­tre os se­to­res mais des­fa­vo­re­ci­dos”, ad­ver­te Di Ce­sa­re.

No Bra­sil, 12,7% dos me­ni­nos estão obe­sos e 9,4% das me­ni­nas

NUÑO DOMÍNGUEZ

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