Aju­da, abra­ço e Ralph Lau­ren pa­ra os po­bres

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As pes­so­as mui­to po­bres po­dem fi­car mui­to fe­li­zes. Na mes­ma se­ma­na, du­as mu­lhe­res mui­to ri­cas, bo­ni­tas, lou­ras e mui­to bo­a­zi­nhas anun­ci­a­ram su­as pre­o­cu­pa­ções com os po­bres. A pri­mei­ra a fa­zê-lo foi a pri­mei­ra-da­ma Mar­ce­la Te­mer, a pri­mei­ra Lo­li­ta adul­ta da Re­pú­bli­ca, com seus ves­ti­dos al­go­do­a­dos, an­ge­li­cais, que che­gam a re­me­ter, pe­las ima­gens, a per­fu­me in­fan­to­ju­ve­nil. Mar­ce­la dis­se que vai aju­dar as cri­an­ças po­bres e que quem aju­da pes­so­as mu­da his­tó­ri­as. O po­vo que tra­ba­lha com po­lí­ti­cas pú­bli­cas, saú­de, edu­ca­ção e ser­vi­ços pú­bli­cos de as­sis­tên­cia re­a­giu com fú­ria, pois con­si­de­ra que com vo­lun­ta­ris­mo, ca­ri­da­de e aju­da não se faz ci­da­dãos, mas sim com po­lí­ti­cas pú­bli­cas e sem per­so­na­li­za­ção.

Pou­cos di­as de­pois foi a vez da fu­tu­ra pri­mei­ra-da­ma da mai­or e mais im­por­tan­te ci­da­de do país, São Pau­lo, a ar­tis­ta plás­ti­ca Bia Do­ria, di­zer o quão co­mo­vi­da fi­cou ao des­co­brir, du­ran­te a cam­pa­nha elei­to­ral que ele­geu o ma­ri­do no 1º tur­no, João Do­ria Jú­ni­or (PSDB), que os po­bres pre­ci­sam de mui­to pou­co pa­ra se sen­ti­rem bem. Pa­ra Bia, eles pre­ci­sam ape­nas de um cum­pri­men­to, um ca­ri­nho, um aper­to de mão, um abra­ço. Bia mo­ra nu­ma das 10 mai­o­res man­sões de São Pau­lo, nu­ma área de qu­a­se 8 mil me­tros qua­dra­dos, e o ca­sal de­cla­rou ao TSE ter um pa­trimô­nio no va­lor de R$ 180 mi­lhões. Cir­cu­lam na im­pren­sa in­for­ma­ções de que os Do­ria omi­ti­ram da de­cla­ra­ção à Justiça Elei­to­ral uma man­são de 11 mi­lhões de dó­la­res em Mi­a­mi e que a man­são do Jar­dim Eu­ro­pa, um dos bair­ros mais lu­xu­o­sos de São Pau­lo, foi de­cla­ra­da por ape­nas um quar­to do va­lor re­al, que é de 50 mi­lhões de re­ais.

AR­RU­MA­DEI­RAS

João Do­ria Jú­ni­or não foi o úni­co mi­li­o­ná­rio elei­to nas elei­ções de 3 de ou­tu­bro. Mas, en­tre os ri­cos, foi o pri­mei­ro a en­fi­ar o pé na ja­ca quando se tra­ta de ig­no­rar bom sen­so, des­cui­dar-se, es­cor­re­gar na os­ten­ta­ção e es­que­cer de vi­gi­ar-se ao dar en­tre­vis­tas. Se tem coi­sa que jor­na­lis­ta bom ado­ra é pe­gar po­lí­ti­cos, mi­li­o­ná­ri­os e fa­mo­sos no con­tra­pé, ar­ran­can­do de­les, em en­tre­vis­tas, de­cla­ra­ções que os fa­rão ar­re­pen­der-se pa­ra o res­to de su­as vi­das. Na pri­mei­ra se­ma­na após a elei­ção, o ca­sal Do­ria dis­se o in­di­zí­vel, em se tra­tan­do de quem vai go­ver­nar a ci­da­de de São Pau­lo e, por­tan­to, di­gam o que dis­se­rem, sa­bem que ha­ve­rá for­te re­per­cus­são.

Nu­ma en­tre­vis­ta

vei­cu­la­da no fim de se­ma­na, Bia achou pou­co di­zer que os po­bres, os hu­mil­des, só pre­ci­sam de um abra­ço, de um ca­ri­nho. Pros­se­guiu e foi ain­da mais abai­xo na ri­ban­cei­ra ver­bal: la­men­tou o fa­to de as ar­ru­ma­dei­ras já não che­ga­rem trei­na­das quando são con­tra­ta­das, per­gun­tou se o Mi­nho­cão era um ti­po de vi­a­du­to e dis­se que per­to de­le só co­nhe­ce a rua Ava­nhan­da­va, “aque­la vi­e­li­nha tor­ti­nha on­de fi­ca a Fa­mi­glia Man­ci­ni” [fa­mo­sa can­ti­na ita­li­a­na], se­gun­do ela, o úni­co lu­gar na ci­da­de on­de é pos­sí­vel “an­dar a pé, igual em No­va York”. Pa­ra fe­char com mais os­ten­ta­ção, dis­se amar as ci­clo­vi­as. Mas as de Syd­ney, na Aus­trá­lia. As de São Pau­lo? São pe­ri­go­sas, in­se­gu­ras. SAFADÃO

Ao mes­mo tem­po, sem com­bi­nar com a mu­lher, ou quem sa­be por cum­pli­ci­da­de na os­ten­ta­ção, o pró­prio pre­fei­to elei­to, tam­bém nu­ma en­tre­vis­ta, ao fa­lar so­bre o fa­to de ser cha­ma­do de al­mo­fa­di­nha pe­lo mo­do co­mo se ves­te, sem­pre com ca­mi­sas de cor­te im­pe­cá­vel e pulô­ver de cash­me­re, sa­cou do bol­so de gri­fe uma ti­ra­da de ge­ne­ro­si­da­de pa­ra de­fen­der, ao seu mo­do, cla­ro, sua es­pe­ran­ça de um Brasil an­co­ra­do na igual­da­de: “Al­gum dia, quem sa­be, to­dos os brasileiros vão po­der usar polo Ralph Lau­ren”.

Num país em que as cri­an­ças po­bres te­rão su­as his­tó­ri­as de vi­das mu­da­das sob a aju­da vo­lun­tá­ria con­vo­ca­da pe­la can­du­ra de Mar­ce­la, em que a pri­mei­ra-da­ma da mai­or ci­da­de se mos­tra tão pre­o­cu­pa­da com o trei­na­men­to ade­qua­do das ar­ru­ma­dei­ras e o ma­ri­do pre­fei­to e, se­gun­do ela, per­fei­to, so­nha com to­dos usan­do Ralph Lau­ren, não há em­pe­ci­lho que pos­sa de­ter o bri­lhan­tis­mo do fu­tu­ro dos po­bres. Nin­guém de­tém um país com eli­tes tão côns­ci­as das ma­ze­las do po­vo. E na ne­o­clas­se mé­dia ain­da se tem Wes­ley Safadão inau­gu­ran­do cam­pi uni­ver­si­tá­ri­os país afo­ra e sen­do anun­ci­a­do com pom­pa e cir­cuns­tân­cia pa­ra atrair fu­tu­ros alu­nos.

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