CA­PI­TA

Correio da Bahia - - Vida - Ivan Di­as Mar­ques ivan.mar­ques@re­de­bahia.com.br

O jo­go já es­ta­va de­ci­di­do. Com 3x1 no pla­car, era di­fí­cil - pra não di­zer im­pos­sí­vel - a Itá­lia vi­rá-lo nos cin­co mi­nu­tos que fal­ta­vam. A bo­la ro­da­va de pé em pé até que Clo­do­al­do re­sol­veu dar os pri­mei­ros tra­ços da pin­tu­ra.

Dri­blou três e pas­sou a Ri­ve­li­no, que es­ti­cou pa­ra Jair­zi­nho. A es­sa ho­ra, Pe­lé, que ha­via par­ti­ci­pa­do do iní­cio da jo­ga­da, já es­pe­ra­va a bo­la de no­vo. O pas­se, o mais pre­ci­so e afe­tu­o­so da his­tó­ria do fu­te­bol, en­con­trou Car­los Al­ber­to Tor­res. Do seu pé di­rei­to, o gol e a his­tó­ria.

O capitão da Se­le­ção Bra­si­lei­ra da Co­pa do Mun­do de 1970, tri­cam­peã mun­di­al no Mé­xi­co, já ti­nha seu no­me, seu gol, seu ges­to de er­guer e bei­jar a ta­ça Ju­les Ri­met e sua al­cu­nha de “ca­pi­ta” na his­tó­ria. On­tem, foi des­can­sar.

Aos 72 anos, Car­los Al­ber­to Tor­res mor­reu, no Rio, ví­ti­ma de um in­far­to ful­mi­nan­te. O Ca­pi­ta es­ta­va em ca­sa, no bair­ro da Bar­ra da Ti­ju­ca, jo­gan­do pa­la­vras cru­za­das, quan­do sen­tiu uma dor e caiu. Le­va­do às pres­sas pa­ra o Hos­pi­tal Ri­o­mar, não re­sis­tiu. Ve­la­do du­ran­te a noi­te de on­tem na se­de da CBF, o cor­po do ex-jo­ga­dor se­rá se­pul­ta­do ho­je, no Ce­mi­té­rio do Ira­já, na ca­pi­tal ca­ri­o­ca.

Atu­al­men­te, Tor­res atu­a­va co­mo co­men­ta­ris­ta do Sportv. Sua úl­ti­ma apa­ri­ção foi do­min­go à noi­te, em que co­men­tou a ro­da­da da Sé­rie A do Bra­si­lei­ro. O ex-jo­ga­dor ha­via per­di­do o ir­mão gê­meo, Car­los Roberto, há um mês, e es­ta­va aba­ti­do com a mor­te de­le.

PER­SO­NA­LI­DA­DE

A al­cu­nha de Ca­pi­ta não era à toa. Tor­res con­se­guiu, em 1970, ser uma una­ni­mi­da­de. De­mo­crá­ti­co, du­ro nas ho­ras ne­ces­sá­ri­as, era res­pei­ta­do por to­dos, se­ja jo­ga­do­res, co­mis­são téc­ni­ca ou di­ri­gen­tes. Sua per­so­na­li­da­de for­te e opi­niões sin­ce­ras con­tri­buí­ram à vo­ca­ção pa­ra o “car­go”.

“Nin­guém me cha­ma de Car­los Al­ber­to. To­dos me cha­mam de Capitão, Ca­pi­ta... Te­nho cer­te­za de que se não ti­ves­se si­do capitão da­que­la Se­le­ção, tal­vez ho­je não fos­se mais lem­bra­do”, dis­se, no li­vro As Me­lho­res Se­le­ções de To­dos os Tem­pos, do jor­na­lis­ta Mil­ton Lei­te. Pa­ra o Ca­pi­ta, seu tra­ba­lho foi fa­ci­li­ta­do por­que os ou­tros jo­ga­do­res eram lí­de­res em seus ti­mes.

De­pois de pa­rar, Tor­res se­guiu fa­lan­do fir­me quan­do ques­ti­o­na­do. “Eu te­nho cer­te­za de que, se eu jo­gas­se fu­te­bol ho­je, fi­ca­ria bi­li­o­ná­rio. Não mi­li­o­ná­rio, não: bi­li­o­ná­rio. Sem fal­sa mo­dés­tia, ia ga­nhar mui­to di­nhei­ro”, afir­mou, em 2003.

Nas­ci­do no Rio em 1944, co­me­çou al­ter­nan­do a la­te­ral di­rei­ta e a za­ga no Flu­mi­nen­se. De lá, Santos, Bo­ta­fo­go, Fla­men­go, Ca­li­for­nia Surf e New York Cos­mos, on­de en­cer­rou a car­rei­ra em 82. No ano se­guin­te, co­me­çou a car­rei­ra de trei­na­dor, sen­do cam­peão bra­si­lei­ro pe­lo Fla­men­go no mes­mo ano. Te­ve pas­sa­gens por ou­tros clu­bes bra­si­lei­ros, me­xi­ca­nos, ame­ri­ca­nos, co­lom­bi­a­nos, além das se­le­ções de Omã e do Azer­bai­jão. Seu último clu­be co­mo trei­na­dor foi o Pay­san­du, em 2005.

La­te­ral e capitão da Se­le­ção do tri mun­di­al mor­re no Rio aos 72 anos

Ca­pi­ta er­gue a Ju­les Ri­met no Mé­xi­co: ges­to eter­ni­za­do na his­tó­ria

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil

© PressReader. All rights reserved.