Capitão Bra­sil

Correio da Bahia - - Esporte -

Sem fi­xar, no “Youtu­be men­tal” - os an­ti­gos cha­ma­vam me­mó­ria - , o quar­to gol de Car­los Al­ber­to nos 4x1 so­bre a Itá­lia, de 1970, o eu não se es­ta­be­le­ce, o bra­si­lei­ro não tem ci­da­da­nia. É no ou­tro, no capitão, que o bra­si­lei­ro cons­trói sua iden­ti­da­de. Quan­do Pe­lé vê o capitão pas­sar, diz pra bo­la as­sim: “Vai lá, fia, agra­da o capitão!”. Ela vai na mes­ma ho­ra, to­da se­re­le­pe, e ob­ser­ve que tem pu­li­nho de strip­per, em po­le-dan­ce, pa­ra en­con­trar o pé cer­tei­ro do deus da la­te­ral di­rei­ta e fe­char o cai­xão com mus­sa­re­la.

Quan­do deus mor­reu, e com ele a ideia de trans­fe­rir ao di­vi­no a res­pon­sa­bi­li­da­de de nos­sas ati­tu­des, nun­ca ima­gi­na­mos que, um dia, o capitão do tri tam­bém mor­re­ria. Is­so mu­da tu­do! Ne­nhu­ma po­tên­cia de agir, ou ale­gria de vi­ver, po­de man­ter-se sem bai­xa. A for­ma­ção do ti­me de bo­tão do Santos da Es­tre­la ti­nha, nu­ma das ca­ri­nhas, com no­me em­bai­xo, a de Car­los Al­ber­to, nu­ma es­ca­la­ção que co­me­ça­va com Ce­jas, vi­nha ele, até che­gar em Pe­lé e Edu.

Aos 11, meu pai me pe­gou pe­la mão pa­ra le­var-me ao co­li­seu, on­de meus olhos en­tão in­fan­tis vi­ram Car­los Al­ber­to con­tra Má­rio Sérgio, al­go que nem He­sío­do pô­de in­ven­tar ao es­cre­ver a Te­o­go­nia, com Gaia, Ca­os, Tár­ta­ro, Eros, ou mes­mo os Ti­tãs e Zeus. O Vi­tó­ria deu 2x0 na­que­le en­con­tro de 1973 que até ho­je ale­gra mes­mo os que já dei­xa­ram es­te gra­ma­do da vi­da.

A Fon­te No­va te­ve em Car­los Al­ber­to a me­lhor for­ma­ção de to­da sua ri­ca his­tó­ria, com o Vi­to­nen­se, uma mis­tu­ra do Vi­tó­ria com o Flu­mi­nen­se de 1976. Ti­nha An­dra­da, ele, João­zi­nho, Al­ti­vo e Rodrigues Ne­to; Pin­ti­nho, Pau­lo Cé­sar Li­ma e Ri­vel­li­no; Os­ni, Fis­cher e Dir­ceu­zi­nho. E ain­da Ga­gui­nho, mas­sa­gis­ta, dan­do su­por­te a es­te olim­po. De­sa­fio cris­tãos e fa­ri­seus a es­ca­lar um qua­dro me­lhor que es­se.

An­tes, a ve­lha e boa Fon­te já ha­via ad­mi­ra­do o capitão, num amis­to­so pre­pa­ra­tó­rio con­tra o Bahia, ru­mo ao tri­cam­pe­o­na­to. Cor­ria o di­fí­cil ano de 69 e as fe­ras de Sal­da­nha pre­pa­ra­vam-se pa­ra che­gar até o fi­nal fe­liz na Ci­da­de do Mé­xi­co.

Car­los par­ti­ci­pou com Pe­lé da aven­tu­ra do New York Cos­mos. No fi­nal da ju­ven­tu­de, o capitão foi jo­gar de za­ga no grande Fla­men­go da­que­les tem­pos da Ilía­da. Vi o capitão so­li­dá­rio no jo­go pa­ra ar­re­ca­dar di­nhei­ro pro ami­gão Gar­rin­cha, que pa­rou du­ro e al­coó­la­tra.

Vo­cê, bra­si­lei­ro, não se­rá mais o mes­mo que on­tem, sem a pre­sen­ça do Capitão Bra­sil.

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