A ge­ni­a­li­da­de de Al­ber­to Ne­po­mu­ce­no

Correio da Bahia - - Vida - Aqui­les do MPB4

O com­po­si­tor ce­a­ren­se Al­ber­to Ne­po­mu­ce­no (1864-1920) te­ve gra­va­dos os seus três quar­te­tos de cor­das. Pro­e­za que cou­be ao Qu­ar­te­to Car­los Go­mes, in­te­gra­do por Cláu­dio Cruz e Ado­nhi­ran Reis (vi­o­li­no), Ga­bri­el Ma­rin (vi­o­la) e Al­ceu Reis (vi­o­lon­ce­lo). Nas­ci­do em For­ta­le­za (1864), a sin­ge­le­za com que con­ce­bia as obras e a sen­si­bi­li­da­de ta­lha­da em ca­da acor­de, em ca­da con­tra­pon­to, fazem de­le um dos mai­o­res com­po­si­to­res eru­di­tos do Bra­sil. Su­as con­cep­ções com­po­si­ci­o­nais sem­pre es­ti­ve­ram om­bro a om­bro com as dos mai­o­res com­po­si­to­res bra­si­lei­ros e eu­ro­peus. Quan­to ao Qu­ar­te­to Car­los Go­mes, que, con­fes­so, ain­da não co­nhe­cia, após mui­tas e pra­ze­ro­sas au­di­ções do ál­bum Qu­ar­te­to Car­los Go­mes – Al­ber­to Ne­po­mu­ce­no (se­lo Sesc SP) pu­de com­pro­var a vir­tu­o­se de seus ins­tru­men­tis­tas. Com a téc­ni­ca e a emo­ção la­te­jan­do na ponta dos de­dos, em­ba­la­das por pri­mo­ro­sa afi­na­ção, su­as in­ter­pre­ta­ções per­mi­tem aos ou­vin­tes com­pre­en­der a ex­tra­or­di­ná­ria be­le­za das obras de Al­ber­to Ne­po­mu­ce­no. Dos pon­tos de vis­ta me­ló­di­co e harmô­ni­co, ca­da um dos qua­tro mo­vi­men­tos, de ca­da um dos quar­te­tos, são uma ma­ra­vi­lha. Os al­le­gros, scher­zos ou an­dan­tes têm o dom de se­rem por ve­zes lí­ri­cos, sin­ge­los, dra­má­ti­cos, me­lan­có­li­cos e/ou gra­ci­o­sos... Mas sem­pre ad­mi­rá­veis. Se­ja pe­la mes­tria da in­ter­pre­ta­ção do Qu­ar­te­to Car­los Go­mes, se­ja pe­la ge­ni­a­li­da­de da com­po­si­ção, os mo­vi­men­tos so­am na mais ab­so­lu­ta har­mo­nia. Nu­an­ces são per­cep­tí­veis a ca­da piz­zi­ca­to, a ca­da in­ter­mez­zo, a ca­da afre­tan­do, a ca­da ra­len­tan­do. As­sim é, por exem­plo, no Qu­ar­te­to nº 1 (1889), que abre com um mo­nu­men­tal ale­gro agi­ta­to; se­gui­do de um an­dan­te, cu­ja re­pe­ti­ção em pi­a­nís­si­mo de uma mes­ma fra­se mu­si­cal nos re­con­for­ta; su­ce­di­do por um scher­zo, que cul­mi­na com um ple­no de gra­ça ale­gro spi­ri­tu­o­so. O meu pre­fe­ri­do é o pri­mei­ro mo­vi­men­to.

As­sim tam­bém é no Qu­ar­te­to nº 2 (1891), quan­do um al­le­gro com fu­o­co dá a par­ti­da. Em se­gui­da um an­dan­te ex­pres­si­vo, se­gui­do de um em­pol­gan­te Scher­zo, que, por sua vez, de­sá­gua nou­tro mo­vi­men­to ale­gro com fu­oc­co, ain­da mais ri­co do que o pri­mei­ro.

E vem o Qu­ar­te­to Nº 3 (1891) – o mais bo­ni­to de to­dos. Um al­le­gro mo­de­ra­to dá o pon­ta­pé ini­ci­al ao mais lu­mi­no­so den­tre os mo­vi­men­tos des­te qu­ar­te­to, que traz o vi­o­lon­ce­lo num pri­mo­ro­so de­se­nho. Se­gue-se um in­ter­mez­zo – al­le­gret­to, que, por sua vez, en­tre­ga para um al­le­gret­to, o quar­to e úl­ti­mo mo­vi­men­to. Após mais de 70 mi­nu­tos de au­di­ção, o im­pul­so para re­to­má-la des­de o pri­mei­ro qu­ar­te­to é ir­re­sis­tí­vel. E eu vol­ta­va. E ain­da ho­je vol­to, vol­to...

Ain­da que eu não de­ves­se, não con­si­go dei­xar de ago­ra re­pe­tir uma fra­se co­mu­men­te ou­vi­da em mui­tos dos fa­ro­es­tes do ci­ne­ma nor­te-ame­ri­ca­no, cu­ja tra­du­ção diz mais ou me­nos as­sim: “Me­xam seus tra­sei­ros gor­dos”. A ela eu acres­cen­to: e vão ou­vir o ál­bum Qu­ar­te­to Car­los Go­mes – Al­ber­to Ne­po­mu­ce­no.

Ago­ra sem brin­ca­dei­ra, gen­te, é pe­ca­do não ou­vir es­se dis­co que traz uma das obras mais fas­ci­nan­tes da mú­si­ca eru­di­ta bra­si­lei­ra.

Com a téc­ni­ca e a emo­ção la­te­jan­do na ponta dos de­dos, su­as in­ter­pre­ta­ções per­mi­tem aos ou­vin­tes com­pre­en­der a ex­tra­or­di­ná­ria be­le­za das

obras de Al­ber­to Ne­po­mu­ce­no. Dos pon­tos de vis­ta me­ló­di­cos e harmô­ni­cos

são uma ma­ra­vi­lha

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