Bei­ra do abis­mo

Correio da Bahia - - Brasil -

A mo­e­da ve­ne­zu­e­la­na per­deu qua­se 30% do va­lor ape­nas em ou­tu­bro, no mer­ca­do pa­ra­le­lo. Con­tar bo­lí­va­res vi­rou ta­re­fa pa­ra as má­qui­nas e há até co­mer­ci­an­tes que pe­sam as no­tas na ho­ra das tran­sa­ções. O país pas­sa por uma com­bi­na­ção de cri­ses: econô­mi­ca, po­lí­ti­ca e hu­ma­ni­tá­ria. Mes­mo ten­do a mai­or re­ser­va de pe­tró­leo do mun­do, a eco­no­mia so­fre com a hi­pe­rin­fla­ção, que po­de pas­sar de 1.000%. “A Ve­ne­zu­e­la vi­ve, tal­vez, a mai­or cri­se econô­mi­ca da his­tó­ria da Amé­ri­ca La­ti­na”, re­su­me Moi­sés Naím, ex-di­re­tor do Ban­co Mun­di­al e que tam­bém foi mi­nis­tro do país nos anos 1990. A in­fla­ção de­ve fi­car em 500% es­te ano e pas­sar de 1.600% em 2017, se­gun­do o FMI. Só em ou­tu­bro, a mo­e­da per­deu 28% do va­lor, na es­ti­ma­ti­va do do­lar­to­day.com, si­te que é re­fe­rên­cia so­bre os da­dos não ofi­ci­ais da Ve­ne­zu­e­la e que mo­ni­to­ra os pre­ços do mer­ca­do pa­ra­le­lo.

O pro­ble­ma econô­mi­co é ape­nas um dos ma­les. No cam­po po­lí­ti­co, Naím ex­pli­ca que o re­cen­te diá­lo­go en­tre go­ver­no e opo­si­ção não re­sol­ve­rá a di­vi­são do país. Ele acre­di­ta ser ape­nas uma es­tra­té­gia de Ni­co­lás Ma­du­ro pa­ra atra­sar o re­fe­ren­do re­vo­ga­tó­rio do seu man­da­to, que po­de afas­tá-lo do po­der. Se o afas­ta­men­to acon­te­cer de­pois de 10 de ja­nei­ro, não ha­ve­rá no­va elei­ção e as­su­mi­rá o vi­ce, tam­bém cha­vis­ta:

- O re­fe­ren­do é pre­vis­to na Cons­ti­tui­ção, mas o cha­vis­mo não acei­ta di­vi­dir o po­der. A opo­si­ção é cri­mi­na­li­za­da. O país tem que aban­do­nar o au­to­ri­ta­ris­mo por­que den­tro do cha­vis­mo não há so­lu­ção pa­ra a cri­se.

Qua­se a me­ta­de da re­cei­ta do go­ver­no vem do pe­tró­leo, cu­ja co­ta­ção caiu mais de 50% nos úl­ti­mos anos. Re­for­mas e um so­cor­ro fi­nan­cei­ro in­ter­na­ci­o­nal são as me­di­das de emer­gên­cia pa­ra as cri­ses fis­cal e cam­bi­al, mas Ma­du­ro se re­cu­sa a ado­tá-las.

A es­tra­té­gia de adi­ar as so­lu­ções agra­va a cri­se de abas­te­ci­men­to. Fal­tam co­mi­da e re­mé­di­os. So­bre os pe­di­dos pe­lo re­fe­ren­do, Ma­du­ro res­pon­de que a opo­si­ção de­ve acei­tar, “tran­qui­li­nha”, ser go­ver­na­da por ele. No país que tem mais pe­tró­leo que a Ará­bia Sau­di­ta, pos­tos do in­te­ri­or ama­nhe­ce­ram com bom­bas va­zi­as es­ta se­ma­na. É um exem­plo sim­bó­li­co da he­ran­ça trá­gi­ca que o cha­vis­mo dei­xa pa­ra a eco­no­mia. GUER­RA FI­NAN­CEI­RA

Pa­ra jus­ti­fi­car a tra­gé­dia econô­mi­ca no país, Ni­co­las Ma­du­ro cu­nhou a ex­pres­são “guer­ra fi­nan­cei­ra”, que se­ria uma cons­pi­ra­ção in­ter­na­ci­o­nal li­de­ra­da pe­los Es­ta­dos Uni­dos com o ob­je­ti­vo de pre­ju­di­car o país. Na úl­ti­ma se­ma­na, o pre­si­den­te che­gou a pe­dir a pri­são do eco­no­mis­ta Ri­car­do Haus­mann, pro­fes­sor de Har­vard, por ele ter de­fi­ni­do a po­lí­ti­ca do go­ver­no co­mo um “ca­lo­te so­ci­al”, já que pro­vo­cou es­cas­sez de ali­men­tos e me­di­ca­men­tos.

DI­NHEI­RO NA BALANÇA

O eco­no­mis­ta An­gel Gar­cía, da con­sul­to­ria Eco­no­mé­tri­ca, con­ta que as no­tas de bo­lí­var com mai­or va­lor es­tão sen­do ven­di­das com ágio no país, por­que os ve­ne­zu­e­la­nos não que­rem car­re­gar ma­ços de di­nhei­ro. Na úl­ti­ma se­ma­na, cha­mou aten­ção uma fo­to­gra­fia da agên­cia Blo­om­berg, de um ge­ren­te de pa­da­ria em Ca­ra­cas pe­san­do as no­tas em uma balança pa­ra não ter o tra­ba­lho de con­tá-las.

IN­FLA­ÇÃO

O IBGE di­vul­ga o IPCA de ou­tu­bro na quar­ta-fei­ra. A ta­xa de­ve ace­le­rar de 0,08% pa­ra 0,28%, mas cai­rá no acu­mu­la­do em 12 me­ses. VAREJO

Na quin­ta-fei­ra sa­em as ven­das do varejo de se­tem­bro, que de­vem ter o ter­cei­ro mês se­gui­do de con­tra­ção.

VO­TO A VO­TO

O gran­de even­to da se­ma­na se­rá a elei­ção ame­ri­ca­na, na ter­ça-fei­ra. A dis­pu­ta es­tá tão acir­ra­da que há con­sul­to­ri­as que pre­fe­rem não fa­zer pre­vi­são.

mi­ri­am­lei­tao@oglo­bo.com.br

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