Eles es­tão cer­ca­dos

Correio da Bahia - - Economia -

A co­o­pe­ra­ção in­ter­na­ci­o­nal con­tra o cri­me fi­nan­cei­ro se in­ten­si­fi­cou nos úl­ti­mos anos pa­ra re­cu­pe­rar o fru­to do rou­bo e fe­char o cer­co em tor­no de quem co­me­te o de­li­to. O pro­cu­ra­dor do MP pa­ra Co­o­pe­ra­ção In­ter­na­ci­o­nal, Vladimir Aras, acha que sem es­sa no­va re­la­ção en­tre os paí­ses, e a tro­ca de pro­vas, a La­va-Ja­to não te­ria o ta­ma­nho que tem. Hoje, o Bra­sil for­ne­ce da­dos a ou­tros paí­ses.

‘Co­o­pe­ra­ção po­li­ci­al exis­te há mui­to tem­po, a In­ter­pol é dos anos 20 e vai fa­zer 100 anos, mas co­o­pe­ra­ção ju­rí­di­ca é mais re­cen­te e veio cres­cen­do nos úl­ti­mos anos, fe­chan­do o cer­co em tor­no do cri­me”, dis­se Vladimir Aras.

A co­o­pe­ra­ção te­ve, se­gun­do Aras, três ve­to­res. Con­tra o nar­co­trá­fi­co, con­tra o ter­ro­ris­mo e con­tra o cri­me or­ga­ni­za­do. O pri­mei­ro con­jun­to de me­di­das sur­ge nos anos 1960, pa­ra com­ba­ter o trá­fi­co de dro­gas, e de­pois ele evo­lui pa­ra re­pri­mir tam­bém a la­va­gem de di­nhei­ro em tor­no da ven­da de dro­gas.

— A pri­mei­ra ge­ra­ção de la­va­gem de di­nhei­ro nos anos

1980 era fo­ca­da na re­pres­são con­tra o trá­fi­co de dro­gas. A nos­sa lei, que é de 1998, já in­clui uma sé­rie de ou­tros cri­mes — diz Aras.

No fi­nal dos anos 1990, e, prin­ci­pal­men­te, após 2001, co­me­çam as le­gis­la­ções in­ter­na­ci­o­nais de com­ba­te ao cri­me fi­nan­cei­ro li­ga­do ao ter­ro­ris­mo:

— De­pois do 11 de Se­tem­bro e dos aten­ta­dos de Ma­dri e Lon­dres se for­ta­le­ce a ideia de que é pre­ci­so com­ba­ter o fi­nan­ci­a­men­to do ter­ro­ris­mo. A Con­ven­ção da ONU de Su­pres­são do Fi­nan­ci­a­men­to do Ter­ro­ris­mo, que é de 1999, ga­nha mais for­ça e ade­são. An­tes, o que ha­via era o ter­ror na­ci­o­nal, o ETA, as Bri­ga­das Ver­me­lhas, mo­vi­men­tos den­tro dos paí­ses, mas o cri­me se tor­na glo­ba­li­za­do e por is­so a re­pres­são a ele pre­ci­sa da co­o­pe­ra­ção dos paí­ses. Em se­gui­da, co­me­ça o ter­cei­ro ve­tor, que le­va à Con­ven­ção da ONU Con­tra o Cri­me Or­ga­ni­za­do, que foi as­si­na­do em Pa­ler­mo pa­ra ho­me­na­ge­ar Gi­o­va­ni Fal­co­ni, e que es­ta­be­le­ce re­gras pa­ra a co­o­pe­ra­ção con­tra la­va­gem de di­nhei­ro, a tro­ca de pro­vas e a re­cu­pe­ra­ção de ati­vos, se­gun­do con­ta Aras. Pa­ra re­for­çar, foi fir­ma­da lo­go de­pois a Con­ven­ção da ONU con­tra a Cor­rup­ção:

— Até en­tão, os acor­dos en­tre os paí­ses sem­pre ex­cluíam das tro­cas de in­for­ma­ções os cri­mes fis­cais. Co­o­pe­ra­va-se em vá­ri­as áre­as, me­nos nes­sa. Is­so co­me­çou a aca­bar com a in­ten­si­fi­ca­ção dos acor­dos, tra­ta­dos e con­ven­ções. Em 2011, hou­ve ou­tro pas­so nes­se cer­co ao cri­me fi­nan­cei­ro li­ga­do à cor­rup­ção. Foi fir­ma­da a Con­ven­ção da OCDE de Co­o­pe­ra­ção Ad­mi­nis­tra­ti­va Con­tra a Cor­rup­ção. Es­se acor­do foi se am­pli­an­do com a in­clu­são de ou­tros paí­ses que nem são par­te da OCDE e se trans­for­mou num gran­de ins­tru­men­to de re­pres­são do su­bor­no. Atra­vés de­le pas­sa a ha­ver mais tro­ca de da­dos en­tre as na­ções, in­clu­si­ve as que sem­pre fo­ram con­si­de­ra­das pa­raí­sos fis­cais. Eu­ro­pa e Es­ta­dos Uni­dos pres­si­o­na­ram paí­ses co­mo Uru­guai, ilhas do Ca­ri­be, Suí­ça, Lu­xem­bur­go, Li­e­ch­tens­tein pa­ra que fe­chas­sem as la­cu­nas le­gais pe­las quais se es­con­de o di­nhei­ro fru­to de pro­pi­na.

— Is­so foi um gran­de avan­ço. Até os anos 1990 ha­via in­clu­si­ve em vá­ri­os paí­ses a pos­si­bi­li­da­de de se de­du­zir dos tri­bu­tos o que se pa­ga­va de co­mis­sões em paí­ses es­tran­gei­ros. Ago­ra, pas­sa a ha­ver tro­ca de in­for­ma­ções pa­ra com­ba­ter exa­ta­men­te es­se cri­me. Es­tá se fe­chan­do ca­da vez mais o cer­co — co­me­mo­ra o pro­cu­ra­dor.

No Bra­sil, en­trou em vi­gor a lei de­ri­va­da des­sa con­ven­ção da OCDE em ou­tu­bro e vai en­trar em vi­gor na Suí­ça em ja­nei­ro de 2017. Daí pa­ra di­an­te, a co­o­pe­ra­ção ad­mi­nis­tra­ti­va, a tro­ca de in­for­ma­ções e de pro­vas na área fi­nan­cei­ra e fis­cal se­rá mui­to mai­or, fi­can­do ca­da vez mais di­fí­cil es­con­der o di­nhei­ro das vá­ri­as for­mas de des­vio. — Foi por is­so que hou­ve es­sa cor­re­ria pa­ra re­pa­tri­a­ção do di­nhei­ro no ex­te­ri­or e pa­ra le­ga­li­zar os re­cur­sos. An­tes, a Suí­ça não con­si­de­ra­va que a so­ne­ga­ção era cri­me. Pas­sa­va a ser ape­nas quan­do fos­se fru­to de frau­de. Mas no fu­tu­ro ha­ve­rá mui­to mais fa­ci­li­da­de pa­ra tro­ca de pro­vas. Um fun­ci­o­ná­rio pú­bli­co que ti­ver no ex­te­ri­or bens in­com­pa­tí­veis com seus ga­nhos se­rá fa­cil­men­te lo­ca­li­za­do — diz Vladimir Aras.

O pro­cu­ra­dor diz que não tem dú­vi­das de que no­vos pas­sos se­rão da­dos e ha­ve­rá mais co­ne­xão en­tre o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co dos paí­ses pa­ra fe­char o cer­co em tor­no do cri­me de cor­rup­ção. O cri­me que tem nos fe­ri­do tan­to.

mi­ri­am­lei­tao@oglo­bo.com.br

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