DÓ­LAR

Câm­bio po­de tra­zer de vol­ta mai­or lu­cro e mai­or cus­to de pro­du­ção

Dinheiro Rural - - CONTENTS - CAUê VIZZACCARO

No iní­cio de julho, enquanto os bel­gas man­da­vam a se­le­ção bra­si­lei­ra de fu­te­bol de vol­ta pa­ra ca­sa, eli­mi­na­da da Co­pa do Mun­do de fu­te­bol na Rús­sia, um ou­tro jo­go mui­to mais acir­ra­do acon­te­cia no Brasil. Mas não em um cam­po de fu­te­bol. O jo­go era de ner­vos e o cam­po, um vo­lá­til mercado fi­nan­cei­ro em con­tra­po­si­ção ao ide­al de uma mo­e­da es­tá­vel. No dia 6 de julho, a co­ta­ção da mo­e­da americana atin­giu R$ 3,95 e fe­chou o dia em R$ 3,93. O valor foi o mai­or re­gis­tra­do pe­lo mercado des­de o dia 1º de mar­ço de 2016, quan­do o dó­lar atin­giu R$ 3,94. Es­sa co­ta­ção é 23% aci­ma do valor da mo­e­da no iní­cio do ano. Dó­lar al­to é bom pa­ra quem ven­de e pés­si­mo pa­ra quem com­pra. “A des­va­lo­ri­za­ção do real be­ne­fi­ci­ou os pro­du­to­res, prin­ci­pal­men­te os de soja, mi­lho e algodão”, diz Eníl­son No­guei­ra, ana­lis­ta de mercado da con­sul­to­ria Cé­le­res, de Uber­lân­dia (MG). “No ca­so da soja, o pre­ço es­ta­va em R$ 75 por sa­ca de 60 qui­los, no iní­cio do ano. Ho­je está em R$ 90 a sa­ca.” Pa­ra Mau­ro Osa­ki, pes­qui­sa­dor do Cen­tro de Pes­qui­sas Econô­mi­cas da Es­co­la Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Ce­pea/USP), o ce­ná­rio pa­ra os próximos anos po­de ser de aper­to pa­ra os

pro­du­to­res que não ex­por­tam. “Ha­ve­rá um efei­to ne­ga­ti­vo pa­ra as cul­tu­ras de co­mér­cio do­més­ti­co, co­mo a ba­ta­ta, o alho e o to­ma­te, já que os fer­ti­li­zan­tes e de­fen­si­vos agrí­co­las es­tão in­de­xa­dos ao dó­lar”, diz Osa­ki. “A ren­ta­bi­li­da­de po­de ser ne­ga­ti­va ao pro­du­tor.”

O fa­to é que a va­lo­ri­za­ção do dó­lar traz um incô­mo­do ou­tro la­do da mo­e­da: o en­ca­re­ci­men­to do cus­to de pro­du­ção, por con­ta dos in­su­mos, co­mo fer­ti­li­zan­tes im­por­ta­dos, de­fen­si­vos e se­men­tes. “A sa­fra 2018/2019 de­ve ser mais ca­ra pa­ra pro­du­zir”, afir­ma No­guei­ra. Os pro­du­to­res es­tão en­fren­tan­do os mai­o­res cus­tos dos úl­ti­mos dois anos, em­bo­ra os da­dos con­so­li­da­dos se­rão co­nhe­ci­dos no pró­xi­mo mês, quan­do o to­tal dos in­su­mos já es­ta­rão com­pra­dos. Até ago­ra, em Ma­to Gro­so, por exem­plo, Estado que co­lheu 32,3 mi­lhões de to­ne­la­das de soja na sa­fra pas­sa­da, o cus­teio da la­vou­ra que co­me­ça a ser plan­ta­da em no­vem­bro su­biu 2,7%, re­gis­tran­do R$ 2.031 por hec­ta­re.

Os in­su­mos que mais su­bi­ram de pre­ços fo­ram os fer­ti­li­zan­tes bá­si­cos, ma­cro­nu­tri­en­tes co­mo po­tás­sio e fós­fo­ro, com al­ta de 18,3%. No Rio Gran­de do Sul, o clo­re­to de po­tás­sio su­biu 34%. Por is­so, pa­ra o se­tor, o que im­por­ta na dan­ça do dó­lar é o momento quan­do as altas e baixas acon­te­cem. Por exem­plo, com­prar in­su­mos com o dó­lar per­to de R$ 4, e no pró­xi­mo ano ven­der a pro­du­ção com a mo­e­da americana va­len­do me­nos que R$ 3,50 é um ce­ná­rio que nin­guém quer ver. Es­se me­do vem des­de sa­fra 2003/2004, épo­ca da pri­mei­ra elei­ção do ex-pre­si­den­te Lula da Silva. Com o mercado re­ce­o­so em re­la­ção a um pos­sí­vel governo do pe­tis­ta, o dó­lar atin­giu R$ 3,95 na épo­ca da com­pra de in­su­mos. No ano se­guin­te, além da mo­e­da americana des­pen­car pa­ra R$ 2,80, hou­ve uma quebra de sa­fra por con­ta de for­tes se­cas. De acor­do com No­guei­ra, o am­bi­en­te po­lí­ti­co des­te ano lem­bra um pouco a sa­fra 2003/2004. “Nes­ta elei­ção pre­si­den­ci­al nin­guém sa­be quem irá pa­ra o se­gun­do tur­no”, diz ele. “Is­so traz in­se­gu­ran­ça ao mercado.”

Não por aca­so, os pro­du­to­res es­tão an­te­ci­pan­do as ven­das da sa­fra 2018/2019 o má­xi­mo que con­se­guem. Is­so por­que o prê­mio pa­go pa­ra a soja bra­si­lei­ra, aci­ma da co­ta­ção da Bol­sa de Chi­ca­go, está em US$ 2 por bushel, an­te US$ 0,74 do mes­mo pe­río­do em 2017. As­sim, o pro­du­tor po­de ganhar cer­ca de R$ 290 por to­ne­la­da. Pa­ra a Chi­na, es­se es­for­ço na pre­mi­a­ção tem com­pen­sa­do o negócio. Atu­al­men­te, a to­ne­la­da da soja nacional em­bar­ca­da ao país asiá­ti­co pe­lo porto de Pa­ra­na­guá (PR) sai por US$ 390, enquanto a americana em­bar­ca­da no Golfo do Mé­xi­co cus­ta US$ 413, já com a so­bre­ta­xa de 25%. De acor­do com o De­par­ta­men­to de Agricultura dos Es­ta­dos Uni­dos (USDA), o Brasil de­ve pro­du­zir 119 mi­lhões de to­ne­la­das nes­te ci­clo, o que trans­for­ma­ria o País no mai­or pro­du­tor global do grão. A es­ti­ma­ti­va é de que pe­lo me­nos 25% des­se volume já te­nha si­do ven­di­do, o que equi­va­le­ria a quase 30 mi­lhões de to­ne­la­das de soja. Só pa­ra com­pa­ra­ção, a Ar­gen­ti­na, que en­fren­tou in­tem­pé­ri­es na sa­fra 2017/2018, pro­du­ziu no ci­clo 38 mi­lhões de to­ne­la­das de soja.

Do la­do da tur­ma que vê com bons olhos um dó­lar va­lo­ri­za­do, Jo­sé Vi­cen­te Fer­raz, diretor-técnico da con­sul­to­ria In­for­ma Eco­no­mics IEG-FNP, diz que o im­pac­to da mo­e­da afe­ta o se­tor de du­as ma­nei­ras. “Com a ren­ta­bi­li­da­de ge­ra­da pe­las ex­por­ta­ções, os agri­cul­to­res po­dem au­men­tar a pro­du­ção”, diz Fer­raz. “E po­de ha­ver, tam­bém, um mai­or po­der de bar­ga­nha pa­ra conquistar novos mer­ca­dos, ofe­re­cen­do des­con­to no pre­ço, em­bo­ra a sua formação ocor­ra no mercado in­ter­na­ci­o­nal.” Entre os con­sul­to­res é con­sen­so a pro­je­ção pa­ra o dó­lar entre R$ 3,8 e R$ 4 no pró­xi­mo pe­río­do. Re­gi­nal­do Ga­lhar­do, ge­ren­te de câm­bio da con­sul­to­ria Tre­vi­so Cor­re­to­ra, acre­di­ta que o dó­lar de­ve che­gar aos R$ 4 em cur­to pra­zo. “A par­tir des­se valor o Ban­co Cen­tral de­ve in­ter­vir com mai­or con­tun­dên­cia in­je­tan­do dó­lar no mercado”, diz Ga­lhar­do. Mas is­so de­pen­de de não ocor­rer im­pre­vis­tos, co­mo acon­te­ceu es­te ano. Co­mo a mudança do pre­si­den­te do Ban­co Cen­tral ame­ri­ca­no, a guerra co­mer­ci­al ain­da in­de­fi­ni­da entre os Es­ta­dos Uni­dos e a Chi­na, e a crise ge­o­po­lí­ti­ca en­vol­ven­do o Irã, a Rús­sia e ou­tros paí­ses, por cau­sa da guerra na Sí­ria. “Em 2017, quan­do ava­liá­va­mos co­mo se­ria o ano de 2018, só en­ten­día­mos que o úni­co im­pac­to no câm­bio se­ria a nos­sa elei­ção pre­si­den­ci­al”, diz Ga­lhar­do.

Com a ren­ta­bi­li­da­de ge­ra­da pe­las ex­por­ta­ções, os agri­cul­to­res po­dem au­men­tar a pro­du­ção”

Jo­sé Vi­cen­te Fer­raz, diretor da IEG-FNP

NEGóCIO FE­CHA­DO: com o dó­lar em al­ta e prê­mio no mercado chi­nês, os agri­cul­to­res es­tão an­te­ci­pan­do a ven­da da sa­fra 2018/2019 mais do que em anos an­te­ri­o­res

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