TOUROS

An­gus mos­tra o pri­mei­ro tra­ba­lho em ge­né­ti­ca adap­ta­da

Dinheiro Rural - - CONTENTS - VE­RA ON­DEI, DE ITATINGA (SP)

No fil­me Sociedade dos Po­e­tas Mor­tos, obra da dé­ca­da de 1990 que se tor­nou um clás­si­co nos ci­ne­mas com o ator Ro­bin Wil­li­ams, o prin­ci­pal con­cei­to da tra­ma é a ideia do “car­pe di­em”. A fra­se em la­tim, do po­e­ta ro­ma­no Ho­rá­cio que vi­veu no iní­cio do sé­cu­lo um, po­de ser tra­du­zi­da co­mo “co­lha o dia”. Po­de pa­re­cer o con­trá­rio, mas co­lhei­ta tem tu­do a ver com pe­cuá­ria. “É o que nós qu­e­re­mos pa­ra o mercado da car­ne bo­vi­na”, diz o ad­vo­ga­do e pe­cu­a­ris­ta Bruno Gru­bi­si­ch, só­cio da Ver­da­na Agro­pe­cuá­ria. Na noi­te de 18 de julho, em um lei­lão trans­mi­ti­do pe­lo Ca­nal Ru­ral, Gru­bi­si­ch acom­pa­nha­va de per­to as ven­das da pri­mei­ra edi­ção do lei­lão An­gus Pro­va­do CRA. A si­gla sig­ni­fi­ca Cen­tro de Re­fe­rên­cia An­gus, lo­ca­li­za­do em Itatinga (SP), um pro­je­to de ava­li­a­ção ge­né­ti­ca da ra­ça de ori­gem bri­tâ­ni­ca, ini­ci­a­do no ano pas­sa­do. Fo­ram ven­di­dos 59 touros pe­la mé­dia de R$ 12,1 mil, valor equi­va­len­te a 85 ar­ro­bas de boi gor­do no mercado pau­lis­ta. Em fun­ção da qua­li­da­de, o mercado de touros é elás­ti­co. Mas, os pro­du­to­res con­si­de­ram co­mo acei­tá­veis co­ta­ções entre 40 ar­ro­bas e 90 ar­ro­bas pa­ra animais com al­gum ti­po de me­lho­ra­men­to ge­né­ti­co. Aci­ma dis­so, so­men­te pa­ra animais di­fe­ren­ci­a­dos, des­ti­na­dos a ser­vir re­ba­nhos de al­to valor ge­né­ti­co ou a cen­trais de in­se­mi­na­ção. Co­mo ocor­reu com o pre­ço má­xi­mo do pre­gão, que saiu por R$ 60 mil, valor equi­va­len­te a 422 ar­ro­bas de boi gor­do.

O ani­mal mais va­lo­ri­za­do foi com­pra­do pe­lo pe­cu­a­ris­ta Al­fre­do Zam­lut­ti, com fa­zen­das em Ma­to Gros­so do Sul, na re­gião do Pan­ta­nal. E mais: o touro não era da cri­a­ção de Gru­bi­si­ch. Is­so por­que a ideia do CRA tem co­mo ba­se tes­tar a ge­né­ti­ca de vá­ri­os re­ba­nhos da ra­ça bri­tâ­ni­ca. A bus­ca é por um ti­po que se adap­te

às con­di­ções de am­bi­en­te no País, em re­giões de cli­ma mais quen­te que o Sul. Não por aca­so, os no­ve só­ci­os de Gru­bi­si­ch, pa­ra fa­zer do CRA uma realidade, até ago­ra, são todos do­nos de re­ba­nhos des­sa re­gião. Entre eles es­tão no­mes tra­di­ci­o­nais da pe­cuá­ria gaú­cha, co­mo a Com­pa­nhia Azul, a ca­ba­nha da Cor­ti­cei­ra, a Rin­con del Sa­randy, cri­a­do­res de an­gus que têm su­as fa­mí­li­as na ori­gem da in­tro­du­ção da ra­ça no País, no sé­cu­lo pas­sa­do.

Pa­ra tes­tar os animais, Gru­bi­si­ch mon­tou uma es­tru­tu­ra avaliada em R$ 500 mil, entre equipamentos pa­ra me­dir a efi­ci­ên­cia ge­né­ti­ca dos animais, mais o tra­ba­lho de ci­en­tis­tas e de téc­ni­cos. A ideia com os tes­tes, que nes­te ano se­guem pa­ra uma se­gun­da ba­te­ria de animais, é en­con­trar os me­lho­res touros na­ci­o­nais que se adap­tem ao cru­za­men­to in­dus­tri­al com va­cas da ra­ça ne­lo­re. No ca­so, os touros ven­di­dos no lei­lão fo­ram ava­li­a­dos em 25 ca­rac­te­rís­ti­cas, entre elas a efi­ci­ên­cia em con­ver­ter pas­to em car­ne, qua­li­da­de do sê­men, apru­mos e con­for­ma­ção cor­po­ral. A ba­se científica do pro­je­to ficou com o ge­ne­ti­cis­ta Jo­sé Bento Ster­man Fer­raz, pro­fes­sor da Fa­cul­da­de de Zo­o­tec­nia e En­ge­nha­ria de Ali­men­tos da Universidade de São Paulo, um dos mai­o­res es­pe­ci­a­lis­tas do País em cru­za­men­to in­dus­tri­al e qua­li­da­de de car­ne. Pa­ra o co­or­de­na­dor da pro­va no CRA, o mé­di­co ve­te­ri­ná­rio Bre­no Barros, con­sul­tor e mestre em reprodução ani­mal, o tra­ba­lho de ava­li­a­ção dos animais an­gus po­de dar mais op­ções de ge­né­ti­ca pa­ra o pro­du­tor de be­zer­ro co­mer­ci­al. “Ho­je, das cer­ca de qua­tro mi­lhões de do­ses de sê­men da ra­ça an­gus ven­di­das no Brasil, 90% são im­por­ta­das”, afir­ma Barros. “Mas o País tem ge­né­ti­ca da ra­ça pa­ra com­pe­tir nes­se mercado.”

Pa­ra fa­ci­li­tar a escolha dos animais ava­li­a­dos no CRA e ven­di­dos no re­ma­te, fo­ram cri­a­dos qua­tro ín­di­ces pa­ra as 25 ca­rac­te­rís­ti­cas ava­li­a­das. Gru­bi­si­ch diz que o tra­ba­lho em con­jun­to foi fun­da­men­tal na ideia de fa­ci­li­tar lei­tu­ras com­ple­xas do tra­ba­lho de se­le­ção. “Tra­du­zir e en­ten­der com fa­ci­li­da­de aju­da o pro­du­tor no momento da escolha da ge­né­ti­ca”, diz ele. “Is­so era uma ideia mui­to cla­ra pa­ra nós, des­de o iní­cio do pro­je­to.” Entre os ín­di­ces es­tão a rus­ti­ci­da­de, pa­ra animais com mai­or re­sis­tên­cia a car­ra­pa­to, por exem­plo. O ín­di­ce pa­ra a car­ca­ça, que entre ou­tras qua­li­da­des aponta os animais que trans­mi­tem aos seus des­cen­den­tes o mar­mo­reio, a gor­du­ra pre­sen­te entre as fi­bras da car­ne. Tam­bém cons­ta as qua­li­da­des de­se­já­veis pa­ra o con­fi­na­men­to, por exem­plo, a ca­pa­ci­da­de pa­ra ga­nho de pe­so. E o quar­to, o ín­di­ce be­zer­ro, que me­de a efi­ci­ên­cia na cria. “O pla­no é se­guir em fren­te, aper­fei­ço­an­do ca­da vez mais as ava­li­a­ções”, afir­ma Gru­bi­si­ch. “E reu­nir mais cri­a­do­res da ra­ça.” A ca­pa­ci­da­de do CRA é pa­ra alo­jar até 700 animais, em três ro­da­das anu­ais de ava­li­a­ção. O pró­xi­mo pas­so se­rá a cri­a­ção de um su­má­rio de touros ex­clu­si­vos pa­ra cru­za­men­to in­dus­tri­al. A pro­mes­sa da pri­mei­ra edi­ção da obra é pa­ra 2020.

TES­TA­DOS: touros ava­li­a­dos no Cen­tro de Re­fe­rên­cia An­gus sa­em da pro­va com 25 ca­rac­te­rís­ti­cas mo­ni­to­ra­das

CI­êN­CIA: pa­ra o mestre em reprodução ani­mal, Bre­no Barros, o Brasil tem ge­né­ti­ca pa­ra com­pe­tir no mercado de sê­men de bo­vi­nos an­gus

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