CAI­XA DOIS

Lis­ta de con­ta­bi­li­da­de pa­ra­le­la da Ode­bre­cht com o no­me de mais de 300 políticos re­a­cen­de de­ba­te em tor­no das do­a­ções de cam­pa­nhas no Bra­sil

Folha de Londrina Domingo - - PRIMEIRA PÁGINA - Ma­ri­a­na Fran­co Ra­mos Re­por­ta­gem Lo­cal

Lis­ta da Ode­bre­cht com pa­ga­men­tos a mais de 300 políticos traz à to­na o de­ba­te so­bre as do­a­ções de cam­pa­nhas. Pa­ra ju­ris­tas, re­for­ma elei­to­ral não ini­bi­rá re­pas­se de re­cur­sos não con­ta­bi­li­za­dos

Cu­ri­ti­ba

– As re­cen­tes mudanças na legislação elei­to­ral, vá­li­das já pa­ra os plei­tos municipais de 2016, não de­vem, na opinião de ad­vo­ga­dos ou­vi­dos pe­la FO­LHA, evi­tar ca­sos de do­a­ções ile­gais a can­di­da­tos e par­ti­dos. Na úl­ti­ma quar­ta­fei­ra, veio a pú­bli­co uma lis­ta com mais de 300 políticos, de 24 le­gen­das di­fe­ren­tes, que apa­re­cem co­mo pos­sí­veis be­ne­fi­ciá­ri­os de uma es­pé­cie de con­ta­bi­li­da­de pa­ra­le­la da Ode­bre­cht.

En­tre os ci­ta­dos es­ta­ri­am ao me­nos dez pa­ra­na­en­ses: o go­ver­na­dor Be­to Ri­cha (PSDB), a se­na­do­ra Glei­si Hoff­mann (PT), os ex-mi­nis­tros Pau­lo Ber­nar­do (PT) e Márcia Lopes (PT); os de­pu­ta­dos fe­de­rais Ri­car­do Bar­ros (PP), Lu­ci­a­no Duc­ci (PSB) e Luiz Car­los Hauly (PSDB), o di­re­tor-ge­ral bra­si­lei­ro da Itai­pu Bi­na­ci­o­nal, Jor­ge Sa­mek (PT), o pre­fei­to de Cu­ri­ti­ba, Gus­ta­vo Fru­et (PDT), e o se­cre­tá­rio de Es­ta­do do De­sen­vol­vi­men­to Ur­ba­no, Ra­ti­nho Jr. (PSD). To­dos ne­gam qual­quer ir­re­gu­la­ri­da­de, afir­man­do que su­as pres­ta­ções de con­tas fo­ram de­vi­da­men­te apro­va­das.

As ta­be­las fo­ram pu­bli­ca­das pe­lo blog do jor­na­lis­ta Fer­nan­do Ro­dri­gues, do por­tal UOL, de­pois de os di­re­to­res da em­prei­tei­ra te­rem de­ci­di­do fa­zer de­la­ção pre­mi­a­da (acor­do re­jei­ta­do pe­lo Mi­nis­té­rio Pú­bli­co Fe­de­ral). Ain­da que não se sai­ba se os da­dos se re­fe­rem a re­pas­ses re­gu­la­ri­za­dos ou a pa­ga­men­tos de pro­pi­na, a ex­po­si­ção de um nú­me­ro tão gran­de de políticos re­a­cen­de o de­ba­te em tor­no da for­ma co­mo são or­ga­ni­za­das as cam­pa­nhas no Bra­sil.

“A Ope­ra­ção La­va Ja­to de­mons­tra co­mo é di­fí­cil se fis­ca­li­zar a exis­tên­cia de cai­xa dois. Não é por­que a lei ago­ra proí­be o fi­nan­ci­a­men­to de em­pre­sas que ele dei­xa­rá de exis­tir”, dis­se a ad­vo­ga­da Zuleika Lou­rei­ro Gi­ot­to. Ex-pre­si­den­te da Co­mis­são de Res­pon­sa­bi­li­da­de So­ci­al e Política da Or­dem dos Ad­vo­ga­dos do Bra­sil (OAB) no Pa­ra­ná, ela atua na área cí­vel e tra­ba­lhis­ta, mas tam­bém pos­sui experiência em fis­ca­li­za­ção elei­to­ral.

A Lei nº 13.165/2015, co­nhe­ci­da co­mo Re­for­ma Elei­to­ral 2015, pro­mo­veu uma sé­rie de mo­di­fi­ca­ções nas re­gras das elei­ções des­te ano, co­mo a re­de­fi­ni­ção dos pra­zos pa­ra as con­ven­ções par­ti­dá­ri­as, fi­li­a­ção e tem­po de cam­pa­nha. A mais im­pac­tan­te de­las, con­tu­do, foi jus­ta­men­te a proi­bi­ção do fi­nan­ci­a­men­to elei­to­ral por pes­so­as ju­rí­di­cas. Na prá­ti­ca, is­so sig­ni­fi­ca que as cam­pa­nhas se­rão pa­gas ex­clu­si­va­men­te por pes­so­as fí­si­cas e re­cur­sos do Fun­do Par­ti­dá­rio. An­tes da apro­va­ção das me­di­das, o Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral (STF) já ha­via de­ci­di­do pe­la in­cons­ti­tu­ci­o­na­li­da­de das do­a­ções de em­pre­sas a par­ti­dos e can­di­da­tos. “Eu acho que a gran­de di­fe­ren­ça é que as cam­pa­nhas vão fi­car mais ba­ra­tas e a gen­te vai ter mai­o­res pa­râ­me­tros pa­ra fis­ca­li­za­ção”, ava­li­ou Zuleika.

Por ou­tro la­do, ela fri­sou a ne­ces­si­da­de de o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co, a Receita Fe­de­ral e os de­mais ór­gãos fis­ca­li­za­do­res acom­pa­nha­rem de per­to a si­tu­a­ção en­vol­ven­do as si­glas e os can­di­da­tos. “É pre­ci­so re­du­zir os cus­tos e fi­xar tal­vez ou­tras re­gras pa­ra a pro­pa­gan­da elei­to­ral; al­te­rar o for­ma­to dos pro­gra­mas, por exem­plo. A gen­te tem de ti­rar o di­nhei­ro de cir­cu­la­ção e mu­dar a cul­tu­ra das em­pre­sas, no re­la­ci­o­na­men­to com o po­der pú­bli­co. Es­pe­ro que nes­se pon­to a La­va Ja­to con­tri­bua. Não adi­an­ta mu­dar a lei se não se mu­dar a cul­tu­ra”, com­ple­tou.

O tam­bém ad­vo­ga­do Luiz Fer­nan­do Pe­rei­ra, pro­fes­sor de Di­rei­to Elei­to­ral da Uni­ver­si­da­de Po­si­ti­vo (UP), tem opinião di­fe­ren­te. Se­gun­do ele, ao in­vés de aju­dar, a re­for­ma ten­de a pi­o­rar a si­tu­a­ção. “Na ver­da­de, o que acon­te­ceu foi que proi­bi­ram a do­a­ção ofi­ci­al. Nes­ta lis­ta da Ode­bre­cht, foi di­ag­nos­ti­ca­do que há uma par­ce­la de do­a­ções ofi­ci­ais e ou­tra de não ofi­ci­ais. O Su­pre­mo proi­biu o cai­xa um. Ou se­ja, vai fi­car só o cai­xa dois”, cri­ti­cou. Ele lem­brou que, ho­je, a ca­da R$ 100 re­pas­sa­dos, em tor­no de 3% são de pes­so­as fí­si­cas. “Re­ti­ra­mos de ce­na o fi­nan­ci­a­dor prin­ci­pal e não co­lo­ca­mos na­da pa­ra subs­ti­tuir.”

Pe­rei­ra ci­tou o exem­plo de ou­tros paí­ses, on­de exis­te o fi­nan­ci­a­men­to pú­bli­co de cam­pa­nha ou de em­pre­sas, en­tre­tan­to, com li­mi­tes. “Fo­ra is­so, se­ria im­por­tan­te pu­nir de for­ma mui­to mais se­ve­ra os ca­sos fla­gra­dos de cai­xa dois”, su­ge­riu. O ad­vo­ga­do dis­se que as in­ves­ti­ga­ções em cur­so no País po­dem sim tra­zer re­sul­ta­dos po­si­ti­vos. “Va­mos vi­ver ou­tra ce­na, mas acho que a experiência da elei­ção de 2016 vai ser ruim, por­que é pre­ci­so re­co­nhe­cer que não se faz cam­pa­nha sem di­nhei­ro. Na úl­ti­ma elei­ção em que is­so acon­te­ceu (a res­tri­ção de do­a­ções a pes­so­as fí­si­cas), ti­ve­mos o mai­or cai­xa dois da his­tó­ria, que foi o do (Fer­nan­do) Col­lor, em 1992”, des­ta­cou.

“O Su­pre­mo proi­biu o cai­xa um.Ou se­ja,vai fi­car só o cai­xa dois”

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