Bre­xit­po­de en­fra­que­cer Mer­co­sul

Pro­fes­so­ra ava­lia que cri­se na UE, além de pa­ra­li­sar ne­go­ci­a­ção de acor­do, deve acir­rar discurso de in­sa­tis­fa­ção com o blo­co sul-ame­ri­ca­no

Folha de Londrina Domingo - - ENTREVISTA - Lo­ri­a­ne Co­me­li Re­por­ta­gem Lo­cal Leia en­tre­vis­ta com­ple­ta www.fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

Aas­cen­são de um discurso de extrema di­re­ta, con­ser­va­dor e xe­nó­fo­bo em vá­ri­os paí­ses do mun­do é um dos prin­ci­pais fa­to­res da decisão do Rei­no Uni­do de re­ti­rar-se da União Eu­ro­peia (UE), e es­sa ati­tu­de dos bri­tâ­ni­cos, to­ma­da em re­fe­ren­do no dia 23 de ju­nho, po­de re­per­cu­tir em ou­tros blo­cos re­gi­o­nais, co­mo o Mer­co­sul. A ava­li­a­ção é de Lud­mi­la Cul­pi, pro­fes­so­ra de Re­la­ções In­ter­na­ci­o­nais e Ci­ên­cia Po­lí­ti­ca no Cen­tro Uni­ver­si­tá­rio In­ter­na­ci­o­nal Unin­ter e mes­tre em Ci­ên­cia Po­lí­ti­ca e dou­to­ran­da em Po­lí­ti­cas Pú­bli­cas.

No Mer­co­sul, que não traz re­sul­ta­dos prá­ti­cos há anos no as­pec­to co­mer­ci­al, Lud­mi­la acre­di­ta in­clu­si­ve que paí­ses­mem­bros pos­sam vo­tar, em ple­bis­ci­to, sua re­ti­ra­da. No Bra­sil, lem­bra a pro­fes­so­ra, o blo­co en­fren­ta crí­ti­cas da­que­les que de­fen­dem ne­go­ci­a­ção di­re­ta dos paí­ses co­ma UE e os Es­ta­dos Uni­dos, por exem­plo.Éo ca­so dop re­si­den­te in­te­ri­no Michel Te­mer( P MD B ).

No as­pec­to so­ci­al, o prin­ci­pal im­pac­to do Brexit é pa­ra qu­em tem pas­sa­por­te de ou­tro país eu­ro­peu. Com o fim do li­vre trân­si­to de pes­so­as e de re­si­dên­cia, bra­si­lei­ros, por exem­plo, que mo­ram na In­gla­ter­ra, po­de­rão ter de bus­car ou­tro país. Além dis­so, o Rei­no Uni­do deve dei­xar de ser um dos des­ti­nos pre­fe­ri­dos. Ou­tro fa­tor ne­ga­ti­vo se­ria uma cri­se de­cor­ren­te jus­ta­men­te do pos­sí­vel iso­la­men­to, que di­mi­nui­ria empregos e pos­si­bi­li­da­des.

Quan­to ao pro­ces­so de saí­da, a pro­fes­so­ra lem­bra que a tran­si­ção po­de le­var até dois anos. To­dos os acor­dos e tra­ta­dos te­rão que ser re­vis­tos, mes­mo aque­les que o Rei­no Uni­do fez di­re­ta­men­te com paí­ses de fo­ra do blo­co, ex­pli­cou a pro­fes­so­ra. E um acor­do co­mer­ci­al que vem sen­do dis­cu­ti­do há 16 anos – de co­mér­cio en­tre o Mer­co­sul e UE – será pa­ra­li­sa­do.

Co­mo será o pro­ces­so de tran­si­ção pa­ra a efe­ti­va saí­da do Rei­no Uni­do da União Eu­ro­peia?

Com a con­fir­ma­ção deThe­re­sa May co­mo pri­mei­ra-mi­nis­tra, o pro­ces­so deve ser apres­sa­do. Ini­ci­al­men­te, ela era a fa­vor da saí­da da União Eu­ro­peia; de­pois mu­dou de ideia e de­fen­deu a per­ma­nên­cia. Po­rém, ela já anun­ci­ou que vai le­var em con­si­de­ra­ção a decisão dos bri­tâ­ni­cos: vai res­pei­tar o re­sul­ta­do do ple­bis­ci­to. Exis­tia a possibilidade de um se­gun­do ple­bis­ci­to ser con­vo­ca­do, po­rém, com May as­su­min­do, di­fi­cil­men­te is­so vai se con­cre­ti­zar. Acre­di­to que es­se pro­ces­so deve ser ace­le­ra­do, até por­que os lí­de­res da União Eu­ro­peia já so­li­ci­ta­ram que a saí­da se­ja ime­di­a­ta pa­ra que eles pos­sam re­ne­go­ci­ar to­dos os tra­ta­dos, to­dos os acor­dos, co­mer­ci­ais ou mi­gra­tó­ri­os. Com ela as­su­min­do ago­ra – a prin­cí­pio, ela as­su­mi­ria so­men­te em se­tem­bro – o pro­ces­so vai ser ace­le­ra­do.

O que in­clui es­se pro­ces­so de tran­si­ção? To­dos os acor­dos e tra­ta­dos te­rão de ser re­vis­tos?

Exis­tem du­as pos­si­bi­li­da­des. O Rei­no Uni­do po­de op­tar por sair da UE, mas por fi­car no es­pa­ço econô­mi­co eu- rop eu( EEE),co­moéo ca­so da No­ru­e­ga, que não faz par­te da UE, mas faz par­te da li­vre cir­cu­la­ção de mer­ca­do­ri­as, ser­vi­ços, pes­so­as e ca­pi­tais. Se op­tar por per­ma­ne­cer, al­guns acor­dos per­ma­ne­cem, co­mo os acor­dos mi­gra­tó­ri­os. Is­so sig­ni­fi­ca que a cir­cu­la­ção de eu­ro­peus pa­ra o Rei­no Uni­do vai per­ma­ne­cer. Po­rém, ca­so o Rei­no Uni­dos ai­a­do EEE tam­bém, to­do so­sa cor­dos per­dem a va­li­da­de e te­ria que re­ne­go­ci­ar, re­vi­sar to­dos eles. Tan­to os acor­dos que fez den­tro da UE e com mem­bros da UE co­mo os acor­dos que fez com ou­tros paí­ses, co­mo o Bra­sil, Chi­na, os acor­dos co­mer­ci­ais. São 65 acor­dos que o Rei­no Uni­do fez atra­vés da UE que te­rão de ser re­vi­sa­dos. Tem paí­ses que não fa­zem par­te nem da UE nem do EE E, co­mo é oca so­da Suí­ça, mas­que fa­zem par te­dos acor­dos mi­gra­tó­ri­os, que se­ria aá­re­aS­che ng en.Háv ári­as al­ter­na­ti­vas.

E qual deve ser a op­ção do Rei­noU­ni­do?

Eu acre­di­to que o mais pro­vá­vel é que sai­am tam­bém do EEE por­que, afi­nal de con­tas, a gran­de ques­tão que mo­ti­vou o ple­bis­ci­to foi a ques­tão mi­gra­tó­ria e o te­ma dos re­fu­gi­a­dos. Pa­ra eles po­de­rem re­to­mar os con­tro­les mi­gra­tó­ri­os, te­ri­am que sair des­se es­pa­ço econô­mi­co e aí ne­go­ci­ar acor­dos mi­gra­tó­ri­os in­di­vi­du­ais. Por exem­plo, só com a Fran­ça, só com a Bél­gi­ca, só com a Ale­ma­nha. E não in­cluí­rem ou­tros paí­ses e, mui­to me­nos, re­fu­gi­a­dos.

Mes­mo co­ma decisão do Rei­no Uni­do, ob­vi­a­men­te a cha­ma­da cris emi­gra­tó­ria per­ma­ne­ce. Is­so po­de le­var ou­tros paí­ses a dei­xa­rem a UE pa­ra ten­tar fe­char su­as fron­tei­ras?

Do meu pon­to de vis­ta, a saí da­do Rei­no Uni­doéo re­sul­ta­do­do cres­ci­men­to da extrema di­rei­ta na Eu­ro­pa e no mun­do; é uma ma­ni­fes­ta­ção de um mo­vi­men­to xe­nó­fo­bo, con­ser­va­dor, con­tra o imi­gran­te, um mo­vi­men­to que não cres­ceu só na In­gla­ter­ra, só no Rei­no Uni­do, cres­ceu tam­bém na Ale­ma­nha, na Fran­ça, na Hun­gria, nas prin­ci­pais eco­no­mi­as da UE. Na Fran­ça, a Ma­ri­ne Le Pen, lí­der de extrema di­rei­ta, já anun­ci­ou que quer con­vo­car um ple­bis­ci­to tam­bém pa­ra a Fran­ça sair da UE. Por is­so, exis­te, sim, a possibilidade de ou­tros paí­ses so­li­ci­ta­rem a saí­da da UE atra­vés de re­fe­ren­dos.

Qu­ais os prin­ci­pais im­pac­tos da saí­da do Rei­no Uni­do? Eles vão ser sen­ti­dos so­men­te da­qui a dois anos? E que tipo de im­pac­to o Bra­sil deve sen­tir?

O pri­mei­ro im­pac­to que o Bra­sil de­ves en­tir­maisd ire ta­men­teéaqu es­tão dos acor­dos que es­ta­vam sen­do ne­go­ci­a­dos en­tre Mer­co­sul e União Eu­ro­peia. OBra si léo prin­ci­pal­lí der do Mer­co­sul jun­to co­ma Ar­gen­ti­na e o Rei­no Uni do­e­ra um dos apoi­a­do­res des­se acor­do, que era um acor­do co­mer­ci­al que ia nos tra­zer mui­tas van­ta­gens, mui­tos be­ne­fí­ci­os econô­mi­cos, por­que agente ia ven­der mui­tos pro­du­tos agrí­co­las pa­ra eles e, de al­gu­ma forma, po­de­ria ser uma saí­da pa­ra nos­sa cri­se, uma re­cu­pe­ra­ção das ex­por­ta­ções. Co­ma saí­da do Rei­no Uni­do, aprin­ci­palc ons equên­ci­aéa pa­ra­li­sa­ção des­ta ne­go­ci­a­ção. E, cla­ro, os imi­gran­tes bra­si­lei­ros que es­tão lá eque­de algum afor­ma são be­ne­fi­ci­a­dos pe­la UE, que têm pas­sa­por­te eu­ro­peu, iri­am ter que pro­cu­rar ou­tra sal­ter­na­ti­vas. Te­ri­am que ten­tar uma re­si­dên­cia per­ma­nen­te lá por ou­tras for­mas, que não o pas­sa­por­te eu­ro­peu, ou te­ri­am que mi­grar pa­ra ou­tros paí­ses. Mui­tos da­que­les que ho­je es­tão que­ren­do ir pa­ra o Rei­no Uni­do com pas­sa­por­te eu­ro­peu já têm que pen­sar em ou­tra al­ter­na­ti­va. Pa­ra a imi­gra­ção ile­gal, não mu­da mui­ta coi­sa, por­que já está ile­gal.

Qual o ta­ma­nho do im­pac­to da pa­ra­li­sa­ção das negociações do acor­do com o Mer­co­sul?

A UE éon os­so mai­or par­cei­ro co­mer­ci­al, se­gui do­dos Es­ta­dos Uni­do se­da Chi­na. Ou se­ja, se hou­ver au­men­to das ex­por­ta­ções, agente po­de­ria au­men­tar o PIB e aque­ce­ra eco­no­mia, ter mais empregos. O Rei­no Uni­do re­pre­sen­ta pou­co da nos­sa pau­ta de ex­por­ta­ção – 1%, apro­xi­ma­da­men­te, dos nos­sos pro­du­tos –e o que eles mais com­pram da gen­te, além de ali­men­tos, co­mo car­nes, são pe­dras pre­ci­o­sas. Já a UE é um gran­de mercado nos­so. É um acor­do que vem sen­do ne- go­ci­a­do há 16 anos, que o Bra­sil te­ria mui­to a ga­nhar. E o Bra­sil vi­ve uma cri­se po­lí­ti­ca, o Te me­ra in­daéop re­si­den­te in­te­ri­no e não foi con­vo­ca­do, por exem­plo, pa­ra as úl­ti­mas reu­niões de cúpula do Mer­co­sul. En­tão, não está ne­go­ci­an­do nem co­mo Mer­co­sul nem com ou­tros paí­ses. É um pro­ces­so de tran­si­ção. En­tão, eu acre­di­to que a ne­go­ci­a­ção des­se acor­do vai fi­car sus­pen­sa por algum tem­po. Acre­di­to que so­men­te a par­tir da so­lu­ção em re­la­ção ao Rei­no Uni­do – por­que a UE, di­ga­mos, tem mais pri­o­ri­da­des ago­ra – é que o acor­do com o Mer­co­sul vai vol­ta­ra ser pri­o­ri­da­de.

So­bre o Mer­co­sul, es­se blo­co sul-ame­ri­ca­no po­de sen­tir ou­tros im­pac­tos da decisão do Rei­no Uni­do?

O Mer­co­sul se en­fra­que­ce por­que a UE é uma re­fe­rên­cia de pro­ces­so de in­te­gra­ção re­gio nal,éo prin­ci­pal pro­ces­so de in­te­gra­ção re­gi­o­nal. E uma cri­se po­de se re­fle­tir em ou­tros blo­cos. En­tão, po­de pro­vo­car tam­bém um im­pac­to aqui no Mer­co­sul, com as­ser­ti­vas co­mo “não qu­e­re­mos mais o Mer­co­sul”, “o Mer­co­sul é um gas­to”,“o Mer­co­sul é des­ne­ces­sá­rio”. E is­so po­de até pro­vo­car, por exem­plo, um ple­bis­ci­to pa­ra a saí da­do Bra­sil, acre­di­to eu que por par­te do Te­mer por­que ele, as­sim co­mo o Jo­sé Ser­ra (mi­nis­tro das Re­la­ções Ex­te­ri­o­res in ter ino),é crí­ti­co do Mer­co­sul, no sen­ti­do de que o Mer­co­sul em­per­ra negociações com ou­tros paí­ses. Acre­di­to que há possibilidade, sim, de o Mer­co­sul ser fle­xi­bi­li­za­do, se en­fra­que­cer, tal­vez per­der mem­bros. Na Amé­ri­ca do Sul, agente tem um mo­vi­men­to mai­or de re­to­ma­da do ne­o­li­be­ra­lis­mo, de di­rei­ta, que não vê o Mer­co­sul bem, que pre­fe­re ne­go­ci­ar com os Es­ta­dos Uni­dos, co­ma UE. En­tão, pro­va­vel­men­te, o Mer­co­sul vai fi­car en­fra­que­ci­do, fra­gi­li­za­do. Ho­je, o Mer­co­sul tem poucos re­sul­ta­dos econô­mi­cos pa­ra nós. Já te­ve uma fase áu­rea nos anos 90 até os anos 2000. Ago­ra, não são vistos cla­ra­men­te os re­sul­ta­dos em ter­mos co­mer­ci­ais, po­rém, em ter­mos so­ci­ais, se tem, por exem­plo, o acor­do de li­vre re­si­dên­cia, queéu­mav itó­ri a,eéu­mes­pe­lh oda UE: mui­tos não sa­bem, é pos­sí­vel mo­rar li­vre­men­te na Ar­gen­ti­na, no Uru guai­e­nos paí­ses­par­tes, co­mo Pe­ru, Bo­lí­via, vi­ver co­mo ci­da­dão com to­dos os di­rei­tos.

A saí­da do Rei­no Uni­do é o re­sul­ta­do do cres­ci­men­to da extrema di­rei­ta na Eu­ro­pa e no mun­do”

Oli Scarff/AFP

The­re­sa May no seu pri­mei­ro pro­nun­ci­a­men­to co­mo pre­miê bri­tâ­ni­ca: pro­ces­so de saí­da deve ser ace­le­ra­do

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