Ci­da­des oferecem um­ro­tei­ro­de aro­mas

Folha de Londrina Domingo - - FOLHA 2 -

As ci­da­des têm chei­ros que fa­zem par­te de um bair­ro ou po­dem apa­re­cer nu­ma si­tu­a­ção mo­men­tâ­nea. Is­so me fez pen­sar num ro­tei­ro de aro­mas que, na úl­ti­ma quar­ta-fei­ra, me pe­gou de sur­pre­sa no cen­tro de Lon­dri­na.

Es­ta­va nu­ma do­ce­ria na rua Pa­rá com chei­ro ca­rac­te­rís­ti­co de bo­los, uma mis­tu­ra de ma­çã e ca­ne­la que, acre­di­to, as co­zi­nhei­ras fa­zem ques­tão de dei­xar como uma is­ca aos tran­seun­tes. Chei­ro de bo­lo é ca­paz de per­fu­mar uma rua in­tei­ra e atrair a cli­en­te­la.

Saí de lá e des­ci a rua Pa­rá, per­to do Co­lé­gio Mãe de Deus - on­de ha­via um co­ro en­sai­an­do pa­ra o Festival de Mú­si­ca - sen­ti chei­ro de lo­ja de sa­pa­tos, ve­jam só, me­mó­ria da in­fân­cia que me ba­teu na­que­le mo­men­to sem ex­pli­ca­ção. Num aces­so de ima­gi­na­ção, pen­sei que as frei­ras po­di­am es­tar en­gra­xan­do cal­ça­dos ou tal­vez usan­do no as­so­a­lho algum pro­du­to quí­mi­co. De qual­quer forma, is­so me des­per­tou uma lem­bran­ça da in­fân­cia quan­do dei um show por­que queria um sa­pa­to ver­me­lho que aca­bei ga­nhan­do, de­pois de pro­ta­go­ni­zar uma ses­são de cho­ro que foi uma das mais au­tên­ti­cas de to­da mi­nha vi­da.

Já que es­ta­va na­que­le quar­tei­rão, do­brei a es­qui­na,fui até a ca­pe­la do Co­lé­gio Mãe de Deus que não vi­si­ta­va há tem­pos, é ne­la que fi­ca a ima­gem de Nos­sa Se­nho­ra de Scho­ens­tatt, uma das mais bo­ni­tas da ci­da­de. O jar­dim ao re­dor ti­nha chei­ro de pinheiro e ou­tras plan­tas que não iden­ti­fi­quei. A ca­pe­la chei­ra­va a ro­sas e às ve­las quei­ma­das ali fre­quen­te­men­te.

Já era de noi­te quan­do fui em­bo­ra e su­bi a rua Pro­fes­sor João Cân­di­do. Per­to de dois edi­fí­ci­os an­ti­gos, o Prin­ce­sa Isa­bel - on­de sem­pre quis mo­rar - e o Jo­sé Amé­ri­co Go­doy – no­me que de­ve ser de um pi­o­nei­ro - sen­ti chei­ro de co­mi­da, bi­fe e fei­jão re­cém co­zi­do. Me ba­teu a nos­tal­gia que Ar­ri­go Bar­na­bé de­ve ter sen­ti­do quan­do compôs a val­sa “Lon­dri­na”, só fal­tou o avião so­bre­vo­an­do a ci­da­de e a voz de alguma ca­bo­cla sain­do do rádio. Aqui­lo era chei­ro de al­mo­ço de ro­ça, que se re­pe­te nal­gu­mas ca­sas ao anoi­te­cer, aque­las que ain­da so­bre­vi­vem ao “de­li­very” de co­mi­das pron­tas. Um chei­ro an­ti­go como ou­tra evo­ca­ção da in­fân­cia.

Ain­da na rua Pro­fes­sor João Cân­di­do pas­sei a sen­tir chei­ro de óleo di­e­sel, ne­nhum a ex­pli­ca­ção plau­sí­vel até avis­tar o pos­to de ga­so­li­na lo­go ali na es­qui­na.

O chei­ro ruim lo­go se­ria subs­ti­tuí­do por ou­tro, do res­tau­ran­te de co­mi­da ára­be que atrai com seu aro­ma de tem­pe­ro, mis­tu­ra de alho,azei­te e es­pe­ci­a­ri­as que nos to­ca como um per­fu­me das Mil e Uma Noi­tes de gen­te de­vo­ta­da às fá­bu­las da culinária tí­pi­ca. Lon­dri­na, on­de sem­pre fer­ve um cal­dei­rão cul­tu­ral, põe pa­ra fer­ver qui­tu­tes de vá­ri­as na­ci­o­na­li­da­des, cu­jo chei­ro se mis­tu­ra àque­le tí­pi­co do trân­si­to. Mas é pe­las fres­tas sen­so­ri­ais que a gen­te se­le­ci­o­na os me­lho­res aro­mas e os ro­tei­ros que en­tram pe­lo na­riz se cons­tro­em tam­bém pe­la for­ça da fan­ta­sia.

No meio de tu­do, o chei­ro de ál­co­ol e ace­to­na das far­má­ci­as é um to­que de as­sep­sia in­co­mum nu­ma ci­da­de que nos dis­põe a um exer­cí­cio de me­mó­ri­as. Só as co­mi­das exa­lam chei­ros exa­tos, sem o risco de pa­re­ce­rem sa­pa­tos novos como po­de­ria su­ge­rir uma pa­ne­la de bo­ti­nas ou de san­dá­li­as co­zi­das com pi­men­ta. O resto faz par­te de uma sen­sa­ção mo­men­tâ­nea, como per­fu­mes de mulheres, at­mos­fe­ras de ba­res, o to­que áci­do de um resto de cerveja.

Quan­do che­guei em ca­sa, o pá­tio do pré­dio chei­ra­va à lim­pe­za das quar­tas-fei­ras, um chei­ro de lar que su­biu co­mi­go pe­lo ele­va­dor. Já no meu quar­to, o chei­ro era mui­to pes­so­al, aque­le que só os quar­tos têm e não es­tão em ne­nhum ro­tei­ro ur­ba­no, por­que são par­te da in­ti­mi­da­de que guar­da­mos pa­ra a ho­ra do des­can­so. Na­que­la noi­te so­nhei com pi­nhei­ros en­fei­ta­dos com ma­çãs e cas­cas de ca­ne­la. Is­so de­ve ter um sig­ni­fi­ca­do e me­re­cer o di­vã de um psi­ca­na­lis­ta, mas não me en­ro­lo mais com so­nhos. Já bas­ta meu ex­ces­so de fan­ta­sia co­ti­di­a­na.

Mar­co Ja­cob­sen

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