A ca­chor­ri­nha da rua

Folha de Londrina - - Cidades -

Em Lon­dri­na exis­te um bair­ro, nes­te bair­ro exis­te uma rua, e nes­ta rua vi­ve uma ca­chor­ri­nha vi­ra-lata. Não tem do­no, não tem co­lei­ra, não tem mal­da­de. Acon­te­ce que na mes­ma ci­da­de, no mes­mo bair­ro e na mes­ma rua vi­ve ou­tra fê­mea da mes­ma es­pé­cie, da ra­ça pit­bull. Ela tem do­no e tem co­lei­ra. Não tem mal­da­de, mas tem um ins­tin­to agres­si­vo. Na ma­nhã da úl­ti­ma quar­ta-fei­ra, o do­no da pit­bull saiu de ca­sa e es­que­ceu o por­tão aber­to. Por uma in­fe­li­ci­da­de do des­ti­no, a ca­chor­ri­nha que mo­ra na rua pas­sa­va por ali na­que­le exa­to mo­men­to. A pit­bull viu a vi­ra-lata e ata­cou.

Os cães da ra­ça pit­bull são fa­mo­sos por ter uma mor­di­da mui­to for­te. Al­guns de­les pos­su­em uma ca­rac­te­rís­ti­ca pe­ri­go­sa: quan­do mor­dem, não sol­tam a pre­sa. Sim, eu sei que exis­tem pit­bulls dó­ceis e que não fa­zem mal a nin­guém, nem mes­mo a ou­tros cães. La­men­ta­vel­men­te não era o ca­so.

A ca­chor­ra que mo­ra na ca­sa mor­deu a ca­chor­ra que mo­ra na rua, e não que­ria lar­gá-la. Os ga­ni­dos da ví­ti­ma eram lan­ci­nan­tes, a obs­ti­na­ção da agres­so­ra era to­tal. Co­me­çou a jun­tar gen­te. A es­po­sa do do­no da pit­bull as­sis­tia à ce­na e dis­se, em tom de re­sig­na­ção: “Não pos­so fa­zer na­da, é a na­tu­re­za de­la”.

Um mo­ra­dor da rua di­ri­gia-se de au­to­mó­vel ao tra­ba­lho quan­do viu aque­la agi­ta­ção to­da. Parou o car­ro e foi ver o que es­ta­va acon­te­cen­do. Com­pa­de­ci­do da po­bre ca­chor­ri­nha, re­sol­veu to­mar al­gu­ma pro­vi­dên­cia. Pe­diu um bal­de de água. Jo­gou água — mas a pit­bull não sol­ta­va a vi­ra-lata. Jo­gou uma pe­dra — mas a pit­bull não sol­ta­va a vi­ra-lata. Pe­gou o ex­tin­tor de in­cên­dio do car­ro e des­car­re­gou so­bre a man­dí­bu­la da agres­so­ra — mas a pit­bull não sol­ta­va a vi­ra-lata.

O ho­mem de­ci­diu en­tão fa­zer o inu­si­ta­do. En­trou no car­ro e deu a par­ti­da, apro­xi­man­do o veí­cu­lo das du­as ca­de­las. O ron­co do mo­tor foi a úni­ca coi­sa que fez a pit­bull sol­tar a vi­ra­la­ta. Rá­pi­da, a ví­ti­ma re­fu­gi­ou-se de­bai­xo do car­ro, on­de a agres­so­ra não con­se­guia al­can­çá-la. Por al­guns mo­men­tos, a pit­bull fi­cou dan­do vol­tas em tor­no do au­to­mó­vel, ros­nan­do ame­a­ça­do­ra­men­te. Só saiu de lá com a chegada do do­no, que con­se­guiu pe­gá-la no co­lo, le­van­do-a pa­ra a ca­sa — e, des­ta vez, fe­chan­do o por­tão.

Após en­ro­lar a ca­chor­ri­nha em um len­çol, o ho­mem le­vou-a pa­ra o Hos­pi­tal Ve­te­ri­ná­rio, on­de ela re­ce­beu aten­di­men­to. Cons­ta­tou-se que a ví­ti­ma de agres­são es­tá pa­ra dar à luz al­guns ca­chor­ri­nhos. Nos olhos da vi­ra-lata, ve­mos dor, mas ve­mos, aci­ma de tu­do, gra­ti­dão. Ela só es­tá vi­va por­que um re­pre­sen­tan­te da es­pé­cie hu­ma­na te­ve com­pai­xão e in­te­li­gên­cia pa­ra fa­zer o que pre­ci­sa­va ser fei­to.

Co­mo dis­se Eins­tein, Deus não jo­ga da­dos com o uni­ver­so. O sal­va­dor da ca­chor­ri­nha em bre­ve se­rá pai. Da­qui a al­guns di­as, nas­ce­rão ca­chor­ri­nhos. Da­qui a al­guns me­ses, nas­ce­rá um lin­do be­bê. Mas na quar­ta-fei­ra já nas­ceu um he­rói.

A his­tó­ria do ho­mem co­mum que te­ve com­pai­xão e sal­vou uma pe­que­na vi­da

Da­vid­son San­ti­a­go

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