ANÁ­LI­SE Mor­te com­ple­ta ci­clo ini­ci­a­do com sui­cí­dio de Kurt Co­bain

Folha De S.Paulo - - Ilustrada - RA­FA­EL GREGORIO

O ex-vo­ca­lis­ta do Sound­gar­den e do Au­di­os­la­ve, mor­to ho­ras após um show em De­troit, nos EUA, era uma das qua­tro mai­o­res vo­zes do úl­ti­mo mo­vi­men­to re­al­men­te re­le­van­te pa­ra re­no­var o rock.

Sua mor­te com­ple­ta um ci­clo tris­te e vi­o­len­to ini­ci­a­do com o sui­cí­dio de Kurt Co­bain, em 1994, aos 27 anos.

Dois ei­xos mar­cam es­sa ex­tin­ção for­ça­da do grun­ge: a re­la­ção au­to­des­tru­ti­va com as dro­gas, em es­pe­ci­al a he­roí­na, e o tra­to des­con­for­tá­vel e an­tagô­ni­co com o su­ces­so.

A ali­e­na­ção fa­ce aos ho­lo­fo­tes foi com­pre­en­sí­vel a uma ge­ra­ção que, ain­da que de for­ma des­co­or­de­na­da, en­ter­rou uma era de excessos, ilus­tra­da à ca­ri­ca­tu­ra pe­lo rei de­pos­to Axl Ro­se, do Guns N’ Ro­ses.

Kurt Co­bain foi o pri­mei­ro. Al­ça­do a lí­der da on­da e an­tí­po­da do mo­de­lo de rock star, o lí­der do Nir­va­na se matou com um ti­ro na ca­be­ça, em 1994, aos 27. En­fren­ta­va de­pres­são e ví­cio em he­roí­na.

De­pois foi Lay­ne Sta­ley, o ma­cam­bú­zio lí­der do Ali­ce in Chains, em 2002, aos 34, qua­tro anos após sua úl­ti­ma apa­ri­ção pú­bli­ca. Seu cor­po foi en­con­tra­do em ca­sa se­ma­nas após o que as au­to­ri­da­des cre­em ter si­do uma over­do­se de he­roí­na e co­caí­na.

Em 2015, Scott Wei­land se­guiu os ma­ca­bros re­cei­tuá­ri­os au­to­des­tru­ti­vos do rock e mor­reu, tam­bém de over­do­se —de co­caí­na e re­mé­di­os, após dé­ca­das de lu­ta con­tra o ví­cio em he­roí­na e ál­co­ol—, em um ôni­bus de tur­nê.

Ele ten­ta­va se re­er­guer após saí­das na­da ami­gá­veis do Sto­ne Tem­ple Pi­lots e do Vel­vet Re­vol­ver, for­ma­do pe­los en­tão ex-Guns N’ Ro­ses Slash e Duff Mc­Ka­gan.

Do­no da voz mais vir­tu­o­sa en­tre eles, Cor­nell foi um dos pri­mei­ros a ten­tar pu­lar do bar­co do ni­i­lis­mo, em­bo­ra te­nha fler­ta­do com o ví­cio, em par­ti­cu­lar com o ál­co­ol.

Sau­dá­vel, te­ve tem­po de fazer su­ces­so de no­vo com ou­tra ban­da, o Au­di­os­la­ve. Nos úl­ti­mos anos, em­pre­en­deu bem-su­ce­di­da car­rei­ra so­lo, en­tre o rock e o pop e ar­ris­can­do-se em ou­tras se­a­ras.

Não dei­xa de ser sin­to­má­ti­co que Wei­land e Cor­nell te­nham dei­xa­do o pal­co da vi­da já no iní­cio da ve­lhi­ce e em uma era em que o gê­ne­ro ago­ni­za pe­la pró­pria ir­re­le­vân­cia —em es­pe­ci­al nos EUA, on­de o hip-hop e o pop al­ça­ram rap­pers e di­vas aos pos­tos de por­ta-vo­zes an­tes ocu­pa­dos por ro­quei­ros ca­be­lu­dos.

Tam­bém é sin­to­má­ti­co que des­te ti­me te­nha so­bra­do Ed­die Ved­der. O can­tor do Pe­arl Jam —há 27 anos com a ban­da— nunca foi um jun­kie, ao me­nos não co­mo os co­le­gas, e des­de ce­do ul­tra­pas­sou os li­mi­tes mór­bi­dos des­ta ce­na.

Co­mo que fe­chan­do um ci­clo so­tur­no, va­le lem­brar que o pró­prio mo­vi­men­to grun­ge foi ca­ta­li­sa­do por uma mor­te: a de An­drew Wo­od, can­tor do Mother Lo­ve Bo­ne, em 1990.

Em ho­me­na­gem ao ami­go mor­to, Cor­nell re­cru­tou co­le­gas mú­si­cos pa­ra uma ban­da­tri­bu­to, o Tem­ple of the Dog.

Fãs de Pe­arl Jam re­co­nhe­ce­rão a for­ma­ção des­te efê­me­ro con­jun­to: os gui­tar­ris­tas Sto­ne Gos­sard e Mi­ke McC­re­ady, o bai­xis­ta Jeff Ament e o ba­te­ris­ta Matt Ca­me­ron.

Eles mes­mos, mem­bros do Pe­arl Jam, en­tão à pro­cu­ra de uma voz. Co­nhe­ce­ram, na oca­sião, um jo­vem can­tor que ha­via vi­a­ja­do a Se­at­tle pa­ra tes­te em ou­tro gru­po: Ved­der.

O res­to é his­tó­ria e, es­pe­ra­se, ain­da ga­nha­rá tin­tas. Mas, só por ga­ran­tia, al­guém por fa­vor co­lo­que Ed­die Ved­der em um lo­cal se­gu­ro.

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