Qua­se 3 mi­lhões bus­cam tra­ba­lho há mais de 2 anos

Nú­me­ro re­pre­sen­ta 20,4% do to­tal dos de­sem­pre­ga­dos, ín­di­ce re­cor­de

Folha De S.Paulo - - Mercado - FER­NAN­DA PERRIN

Quan­to mais tem­po fo­ra do mer­ca­do, mai­or é a di­fi­cul­da­de de ser con­tra­ta­do no fu­tu­ro, afir­ma es­pe­ci­a­lis­ta

Com o pro­lon­ga­men­to da cri­se, o nú­me­ro de bra­si­lei­ros pro­cu­ran­do em­pre­go há mais de dois anos atin­giu o re­cor­de de 2,9 mi­lhões de pes­so­as no pri­mei­ro tri­mes­tre de 2017.

Em ter­mos ab­so­lu­tos, o nú­me­ro é o mai­or da sé­rie his­tó­ri­ca da Pes­qui­sa Na­ci­o­nal por Amos­tra de Do­mi­cí­li­os Con­tí­nua (Pnad Con­tí­nua), ini­ci­a­da pe­lo IBGE em 2012. Is­so re­pre­sen­ta 20,4% do to­tal de de­sem­pre­ga­dos do país, que che­gou a 14,2 mi­lhões de pes­so­as no pe­río­do.

A pes­qui­sa, di­vul­ga­da nes­ta quin­ta (18), mos­tra que o por­cen­tu­al de tra­ba­lha­do­res que não con­se­guem co­lo­ca­ção há mais de dois anos vol­tou a su­bir, após dois tri­mes­tres de re­cuo —no fim de 2016, es­se nú­me­ro ha­via caí­do pa­ra 19,9%.

Quan­to mais tem­po fo­ra do mer­ca­do de tra­ba­lho, me­no­res são as chan­ces de con­tra­ta­ção, afir­ma o eco­no­mis­ta Bru­no Ot­to­ni, pes­qui­sa­dor da Fun­da­ção Ge­tu­lio Var­gas.

“Há uma de­sa­tu­a­li­za­ção, uma de­pre­ci­a­ção do ca­pi­tal hu­ma­no. O em­pre­ga­dor tam­bém não quer al­guém há mui­to tem­po afas­ta­do”, afir­ma.

A mai­or par­te dos de­sem­pre­ga­dos, con­tu­do, es­tá em bus­ca de tra­ba­lho há pe­lo me­nos um mês e me­nos de um ano. No pri­mei­ro tri­mes­tre de 2017, eram 6,9 mi­lhões de pes­so­as nes­sa si­tu­a­ção.

A ta­xa de de­sem­pre­go au­men­tou qua­se dois pon­tos per­cen­tu­ais em re­la­ção ao úl­ti­mo tri­mes­tre de 2016, che­gan­do a 13,7% en­tre ja­nei­ro e mar­ço des­te ano.

De acor­do com o IBGE, cer­ca de 600 mil pes­so­as saí­ram do mer­ca­do for­mal em re­la­ção ao úl­ti­mo tri­mes­tre de 2016, que­da de 1,8%.

O mo­vi­men­to é es­pe­ra­do, afir­ma o pes­qui­sa­dor Ot­to­ni. Se­gun­do ele, no iní­cio do ano as em­pre­sas de­mi­tem os tra­ba­lha­do­res tem­po­rá­ri­os con­tra­ta­dos no fim do ano, o que le­va a es­se au­men­to. JO­VENS Os jo­vens são a fai­xa com mais di­fi­cul­da­de pa­ra en­con­trar uma co­lo­ca­ção. Qua­se me­ta­de da fai­xa en­tre 14 e 17 anos de ida­de es­tá de­sem­pre­ga­da, um sal­to de qua­se cin­co por­cen­tu­ais após dois tri­mes­tres de es­ta­bi­li­da­de.

Tam­bém hou­ve al­ta en­tre aque­les com 18 a 24 anos: qua­se 30% pro­cu­ram uma va­ga de tra­ba­lho no pri­mei­ro tri­mes­tre, após es­ta­bi­li­da­de no fi­nal do ano pas­sa­do.

Por ser me­nos ex­pe­ri­en­te, es­se gru­po cos­tu­ma ser o mais afe­ta­do por re­ces­sões. A di­fi­cul­da­de de en­trar no mer­ca­do de tra­ba­lho, as­so­ci­a­da a um pro­lon­ga­men­to des­sa si­tu­a­ção, faz com que os jo­vens se­jam os mais afe­ta­dos pe­la cri­se e de­pen­dem de qua­li­fi­ca­ção pa­ra re­ver­ter es­sa si­tu­a­ção, diz Ot­to­ni. SU­BU­TI­LI­ZA­ÇÃO Ou­tra me­di­da do im­pac­to da re­ces­são so­bre o mer­ca­do de tra­ba­lho é a cha­ma­da ta­xa de su­bu­ti­li­za­ção.

O in­di­ca­dor le­va em con­tra o nú­me­ro de de­sem­pre­ga­dos, de pes­so­as que tra­ba­lham me­nos de 40 ho­ras se­ma­nais mas gos­ta­ri­am de tra­ba­lhar mais e de pes­so­as que bus­cam um em­pre­go mas não es­tão dis­po­ní­veis pa­ra tra­ba­lhar ime­di­a­ta­men­te, co­mo mu­lhe­res após o par­to.

Quan­do con­si­de­ra­dos to­dos es­ses ca­sos, o nú­me­ro de pes­so­as em bus­ca de em­pre­go so­be de 14,2 mi­lhões pa­ra 26,5 mi­lhões, o que equi­va­le a uma ta­xa de su­bu­ti­li­za­ção de 24,1% no pri­mei­ro tri­mes­tre des­te ano. Há um ano, es­se nú­me­ro era de 19,3%.

Ape­sar da pi­o­ra, Ot­to­ni afir­ma que o mer­ca­do de tra­ba­lho vi­nha dan­do si­nais de me­lho­ra. Da­dos di­vul­ga­dos pe­lo Mi­nis­té­rio do Tra­ba­lho na ter­ça (16) mos­tra­ram que o mer­ca­do for­mal cri­ou qua­se 60 mil va­gas em abril, me­lhor re­sul­ta­do pa­ra o mês des­de 2014.

A pes­qui­sa tam­bém mos­trou uma re­du­ção do nú­me­ro de de­mis­sões sem jus­ta cau­sa. “O em­pre­ga­dor de­mi­te sem jus­ta cau­sa só se acre­di­tar que os cus­tos da res­ci­são com­pen­sam a eco­no­mia com os sa­lá­ri­os des­se em­pre­ga­do. Mas, se ele acha que po­de pre­ci­sar do fun­ci­o­ná­rio da­li a pou­cos me­ses, ele não de­mi­te”, afir­ma Ot­to­ni.

As de­nún­ci­as de cor­rup­ção en­vol­ven­do o pre­si­den­te Mi­chel Temer, con­tu­do, de­vem re­ver­ter es­se pro­ces­so de me­lho­ra, diz o eco­no­mis­ta.

“Va­mos en­trar em um no­vo pe­río­do de incerteza. Is­so pre­ju­di­ca o mer­ca­do de tra­ba­lho por­que o em­pre­sá­rio não vai que­rer con­tra­tar nem in­ves­tir.”

“não quer al­guém há mui­to tem­po afas­ta­do do mer­ca­do Va­mos en­trar em um no­vo pe­río­do de incerteza. Is­so pre­ju­di­ca o mer­ca­do de tra­ba­lho por­que o em­pre­sá­rio não vai que­rer con­tra­tar nem in­ves­tir

BRU­NO OT­TO­NI

eco­no­mis­ta da FGV

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