Dod­ge e Ja­not têm al­go em co­mum

Folha De S.Paulo - - Poder - ELIO GASPARI

A dou­to­ra Ra­quel Dod­ge foi ao Ja­bu­ru (lo­go lá) às 22h de ter­ça-fei­ra e en­con­trou-se com o pre­si­den­te Mi­chel Te­mer sem que hou­ves­se re­gis­tro na agen­da do an­fi­trião. Até aí, vá lá, mas no dia se­guin­te ela informou à pa­tu­leia que foi a Te­mer pa­ra tra­tar da ce­rimô­nia de sua pos­se, no dia 18.

Se o Bra­sil tem um pre­si­den­te e uma procuradora-ge­ral que pre­ci­sam se en­con­trar pes­so­al­men­te pa­ra tra­tar de um as­sun­to de ta­ma­nha ir­re­le­vân­cia, a si­tu­a­ção es­tá pi­or do que se ima­gi­na. Nou­tra hi­pó­te­se, re­co­nhe­ci­da por as­ses­so­res do pre­si­den­te, os dois tra­ta­ram das ten­sas re­la­ções do Pla­nal­to com a PGR. Nes­se ca­so, a dou­to­ra Dod­ge jul­gou­se no di­rei­to im­pe­ri­al de pro­pa­gar uma ba­na­li­da­de in­ve­ros­sí­mil.

A no­va procuradora-ge­ral co­me­ça seu man­da­to cul­ti­van­do o ví­cio da oni­po­tên­cia. Os po­de­ro­sos dou­to­res, apoi­a­dos por Dod­ge, ten­ta­ram con­se­guir um re­a­jus­te de 16,38%, mas fo­ram re­bar­ba­dos pe­lo Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral. Is­so numa fo­lha de pa­ga­men­tos cheia de pen­du­ri­ca­lhos que ofen­dem a ins­ti­tui­ção.

Ro­dri­go Ja­not as­su­miu a Procuradoria-Ge­ral no dia 17 de se­tem­bro de 2013 e dois di­as de­pois assinou uma portaria es­ten­den­do o au­xí­li­o­mo­ra­dia aos pro­cu­ra­do­res que tra­ba­lha­vam em Brasília.

A re­pór­ter Ana Kru­ger re­ve­lou que o dou­tor ti­nha um apar­ta­men­to de 56 me­tros qua­dra­dos, alu­ga­do ao co­le­ga Blal Dal­loul por R$ 4.000. (Hoje a gam­bi­ar­ra sa­la­ri­al ren­de R$ 4.377 men­sais.) Dal­loul re­que­reu o be­ne­fí­cio e a Viú­va fi­cou com a con­ta. (Ja­not ja­mais re­que­reu o be­ne­fí­cio que as­per­giu.)

O dou­tor não fez na­da de er­ra­do, pois po­de­ria ter alu­ga­do o apar­ta­men­to a um pa­dei­ro. O au­xí­lio-mo­ra­dia dos pro­cu­ra­do­res, de­sem­bar­ga­do­res e juí­zes faz sen­ti­do, qu­an­do o ser­vi­dor tem ca­sa numa ci­da­de e é man­da­do pa­ra ou­tra. Trans­for­ma-se numa tun­ga qu­an­do o pro­cu­ra­dor, juiz ou de­sem­bar­ga­dor tem ca­sa pró­pria na ci­da­de on­de tra­ba­lha e em­bol­sa o au­xí­lio-mo­ra­dia.

Uma reportagem de Fa­bio Brandt mos­trou que, em 2015, a dou­to­ra Ra­quel Dod­ge vi­via numa bo­ni­ta ca­sa em Brasília, com jar­dim mui­to bem cui­da­do, e re­ce­bia o mi­mo. Na ala dos afor­tu­na­dos, es­ta­vam 5 dos 33 mi­nis­tros do Su­pe­ri­or Tri­bu­nal de Jus­ti­ça. Dod­ge e ou­tros três pro­cu­ra­do­res (Jo­sé Flau­bert Ma­cha­do, Ela Wi­ec­ko e De­bo­rah Du­prat) ti­nham pro­pri­e­da­des em bo­as vi­zi­nhan­ças da ca­pi­tal. Vai-se além: al­guns sem-te­to da PGR e da ma­gis­tra­tu­ra têm mais de um imó­vel em Brasília.

To­dos os be­ne­fi­ci­a­dos ar­gu­men­tam que recebem o que a lei lhes con­ce­de e acham que é fal­ta de edu­ca­ção to­car nes­se as­sun­to. PÉ NO FREIO Lu­la fez sa­ber aos mais aguer­ri­dos co­mis­sá­ri­os pe­tis­tas que eles de­vem pi­sar no freio. Epi­só­di­os co­mo o das se­na­do­ras que trans­for­ma­ram a Me­sa Di­re­to­ra da ca­sa em balcão de lan­cho­ne­te ou o sur­to de bo­li­va­ri­a­nis­mo que aco­me­teu um pe­da­ço da in­te­lec­tu­a­li­da­de pe­tis­ta po­dem in­vi­a­bi­li­zar uma can­di­da­tu­ra presidencial em 2018.

Lu­la é qua­se mo­nó­to­no: se o PT per­der a classe mé­dia, o fra­cas­so é cer­to. Um pe­da­ço des­sa classe mé­dia já foi em­bo­ra e tra­ta-se de ir bus­cá-la de vol­ta. Co­mo? Ele ain­da não sa­be di­rei­to. EIKE & CABRAL Se Eike Ba­tis­ta co­la­bo­rar di­rei­to com a Viú­va, en­cren­ca­rá a vi­da de Sérgio Cabral ao con­tar co­mo ob­te­ve a li­cen­ça am­bi­en­tal pa­ra o porto do Açu.

Qu­an­do na­ve­ga­va na pró­pria arrogância, Eike di­zia que em­pres­ta­va seu avião a Cabral e nin­guém ti­nha na­da a ver com is­so. FUN­DO ELEI­TO­RAL Se nin­guém fi­zer na­da, e tu­do in­di­ca que na­da se­rá fei­to, o Con­gres­so apro­va­rá a cri­a­ção de um fun­do de fi­nan­ci­a­men­to pa­ra os can­di­da­tos a car­gos ele­ti­vos em 2018.

Pre­ten­de-se tor­rar al­go co­mo R$ 3,6 bi­lhões fi­nan­ci­an­do candidaturas. Do jei­to que es­tão as coi­sas, ca­da par­ti­do re­ce­be­rá sua co­ta e dis­tri­bui­rá o di­nhei­ro co­mo qui­ser.

É uma re­cei­ta pa­ra o caos. Os can­di­da­tos a deputado de um par­ti­do que não tem no­mes dis­pu­tan­do as elei­ções ma­jo­ri­tá­ri­as de pre­si­den­te, go­ver­na­dor ou se­na­dor po­de­rão bo­tar mais di­nhei­ro nas dis­pu­tas pro­por­ci­o­nais. Pe­lo ab­sur­do, um can­di­da­to a deputado do PP po­de­rá dis­por do do­bro da ver­ba de um ri­val do PMDB.

Um caos ali­men­ta­do com o di­nhei­ro do con­tri­buin­te. Al­go co­mo R$ 17 de ca­da bra­si­lei­ro.

Os dois li­dam da pi­or ma­nei­ra pos­sí­vel com os mi­mos cor­po­ra­ti­vos que lus­tram a vi­da do Mi­nis­té­rio Pú­bli­co

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