For­ne­ce­do­res de pe­ças te­rão mais po­der que mon­ta­do­ras

Tec­no­lo­gi­as re­du­zem va­lor das mar­cas e fa­vo­re­cem fa­bri­can­tes de com­po­nen­tes

Folha De S.Paulo - - Mercado - Li­gue

Com no­vas ten­dên­ci­as, in­ves­ti­do­res apos­tam que a so­ma das pe­ças de um car­ro pas­se a ter va­lor su­pe­ri­or ao todo

Qu­an­do a Ge­ne­ral Mo­tors cin­diu sua ope­ra­ção de au­to­pe­ças, em 1999, a ideia era aban­do­nar um ne­gó­cio ge­né­ri­co e de bai­xa mar­gem de lu­cro e se con­cen­trar na cons­tru­ção e na ven­da de car­ros.

Com o avan­ço dos ser­vi­ços de car­ros on-line e das tec­no­lo­gi­as de smartpho­nes nos car­ros, o ei­xo do po­der na in­dús­tria au­to­mo­bi­lís­ti­ca es­tá vi­ran­do, em de­tri­men­to das mon­ta­do­ras e em fa­vor dos for­ne­ce­do­res de com­po­nen­tes, an­tes des­con­si­de­ra­dos.

Na Ale­ma­nha, as gran­des (Volkswa­gen, Daim­ler e BMW) en­fren­tam acu­sa­ções de con­luio tec­no­ló­gi­co. Nos EUA, a aten­ção da mí­dia ren­deu publicidade grátis ao no­vo car­ro elé­tri­co da Tes­la.

Cres­ce o me­do de que­da nas ven­das de veí­cu­los a com­pra­do­res in­di­vi­du­ais, à me­di­da que apps de ser­vi­ços de car­ros —que em bre­ve te­rão veí­cu­los au­to­gui­a­dos— subs­ti­tu­em a pro­pri­e­da­de de au­to­mó­veis. Os no­vos com­pra­do­res pas­sa­rão a ser fro­tas, que com­pra­rão car­ros em mas­sa e a pre­ços mais bai­xos, pri­van­do as mon­ta­do­ras de seu va­lor de mar­ca.

Por en­quan­to, o ba­lan­ço be­ne­fi­cia as mon­ta­do­ras. Mas os in­ves­ti­do­res con­fi­am mais no fu­tu­ro de for­ne­ce­do­res de com­po­nen­tes co­mo Delphi, Bos­ch, Va­leo e Continental, que ga­nha­ram terreno em ter­mos de tec­no­lo­gia, ele­trô­ni­ca e re­cur­sos de se­gu­ran­ça.

Mi­lha­res de for­ne­ce­do­res vêm há mui­to de­sem­pe­nhan­do pa­péis fun­da­men­tais mas na­da gla­mou­ro­sos na pro­du­ção de veí­cu­los.

Hoje, seus com­po­nen­tes res­pon­dem por mais de 70% do va­lor de um car­ro, an­te 40% a 50% no iní­cio dos anos 1990. Sua par­ti­ci­pa­ção cres­ceu à me­di­da que os car­ros fi­ca­ram mais com­ple­xos tec­no­lo­gi­ca­men­te.

A vi­ra­da em fa­vor dos for­ne­ce­do­res po­de se ace­le­rar à me­di­da que o fa­tor de di­fe­ren­ci­a­ção en­tre car­ros dei­xa de ser o con­jun­to mo­to­pro­pul­sor, que in­clui mo­tor e trans­mis­são, e pas­sa a ser o soft­ware e a ele­trô­ni­ca.

“As me­ga­ten­dên­ci­as —ele­tri­fi­ca­ção, car­ros com­par­ti­lha­dos e car­ros au­to­gui­a­dos— mu­da­rão o mo­de­lo de ne­gó­cio nas mon­ta­do­ras mais do que no se­tor de au­to­pe­ça”, diz Wolf­gang Schä­fer, da for­ne­ce­do­ra Continental.

Há cin­co anos, mon­ta­do­ras e fa­bri­can­tes de pe­ças ti­nham re­la­ções pre­ço/lu­cro se­me­lhan­tes em su­as ações. Mas nes­te ano o in­di­ca­dor caiu pa­ra 7,4 nas mon­ta­do­ras Su­pri­men­to softwa­res/tec­no­lo­gia Ser­vi­ços di­gi­tais Mo­bi­li­da­de com­par­ti­lha­da e su­biu a 13,4 nos gran­des for­ne­ce­do­res de au­to­pe­ças, se­gun­do da­dos da Berns­tein.

Os dois con­jun­tos de em­pre­sas es­tão su­jei­tos aos mes­mos fa­to­res cí­cli­cos, co­mo re­ces­sões ou que­da nas ven­das de car­ros, mas os in­ves­ti­do­res es­tão apos­tan­do que a so­ma das pe­ças de um car­ro te­nha va­lor su­pe­ri­or ao todo. VI­RA­DA A vi­ra­da ain­da não che­gou. As mar­gens das mon­ta­do­ras eu­ro­pei­as são as mais al­tas des­de 1990. Gra­ças ao mer­ca­do chinês, a ven­da de car­ros de­ve su­bir pa­ra 114 mi­lhões em 2024, se­gun­do a con­sul­to­ria AlixPart­ners.

As mon­ta­do­ras pre­ci­sam ace­le­rar seu investimento, e os mo­to­res, trans­mis­sões e sis­te­mas de es­ca­pa­men­to se­rão ca­da vez mais subs­ti­tuí­dos por ba­te­ri­as im­por­ta­das da Ásia, o que re­du­zi­rá as bar­rei­ras aos no­va­tos —co­mo a Tes­la de­mons­trou nos EUA.

Mui­tos for­ne­ce­do­res de au­to­pe­ças não são afe­ta­dos pe­las ten­dên­ci­as. Car­ros, mes­mo que au­to­gui­a­dos ou com­par­ti­lha­dos, con­ti­nu­a­rão a pre­ci­sar de frei­os, por­tas e pneus, e se­mi­con­du­to­res, equi­pa­men­tos ele­trô­ni­cos e sis­te­mas de se­gu­ran­ça.

“Na ca­deia de va­lor, o for­ne­ce­dor de com­po­nen­tes se tor­nou mais im­por­tan­te que nun­ca”, diz Arndt El­linghorst, ana­lis­ta da Ever­co­reISI. PAU­LO MIGLIACCI

Fred Thor­nhill - 30.mar.15/Reu­ters

Li­nha de mon­ta­gem da Hon­da em Al­lis­ton, no Ca­na­dá

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