O mer­ca­do de ca­mi­nhões e a TLP

Folha De S.Paulo - - Mercado - SA­MU­EL PES­SÔA CO­LU­NIS­TAS DA SE­MA­NA se­gun­da: Mar­cia Des­sen; ter­ça: Ben­ja­min Stein­bru­ch; quar­ta: Alexandre Schwartsman; quin­ta: Laura Car­va­lho; sex­ta: Pe­dro Luiz Passos; sá­ba­do: Ro­nal­do Cai­a­do;

HÁ AL­GUNS anos o BNDES em­pres­tou re­cur­sos a ju­ros no­mi­nais in­fe­ri­o­res à in­fla­ção pa­ra que em­pre­sas com­pras­sem ca­mi­nhões.

As con­di­ções mui­to fa­vo­rá­veis ge­ra­ram um enor­me bo­om no se­tor. Mon­ta­do­ras pas­sa­ram a tra­ba­lhar a ple­na ca­pa­ci­da­de: ho­ras ex­tras e tur­nos ex­tras.

O bom de­sem­pe­nho da in­dús­tria in­cen­ti­vou gran­de ele­va­ção do investimento no se­tor. Os lu­cros re­ti­dos, con­sequên­cia das ven­das mui­to fa­vo­rá­veis, e no­vos em­prés­ti­mos do BNDES, no­va­men­te a ju­ros ca­ma­ra­das, fi­nan­ci­a­ram a ex­pan­são da ca­pa­ci­da­de.

Qu­an­do a no­va ca­pa­ci­da­de fi­cou pron­ta, as em­pre­sas trans­por­ta­do­ras já ti­nham re­no­va­do a fro­ta. A de­man­da su­mi­ra. De um pe­río­do de anos ope­ran­do além da ple­na ca­pa­ci­da­de pas­sa­mos pa­ra ex­ces­so de ca­pa­ci­da­de oci­o­sa. So­bra­va ca­mi­nhão e fal­ta­va carga.

O ex­ces­so de ca­mi­nhões ven­di­dos gerou ex­ces­so de ofer­ta de ser­vi­ços de fre­tes, e seu pre­ço caiu. O ca­mi­nho­nei­ro autô­no­mo —aque­le pe­que­no que, com mui­ta di­fi­cul­da­de, ad­qui­riu um ca­mi­nhão— viu seu pa­trimô­nio se des­va­lo­ri­zar e a ren­da cair.

Co­mo acon­te­ce com frequên­cia no Bra­sil, ten­tou-se em­pur­rar o pre­juí­zo pa­ra ou­tros. Nes­se ca­so, aos con­ces­si­o­ná­ri­os de ro­do­vi­as. O Mi­nis­té­rio dos Trans­por­tes re­du­ziu o pe­dá­gio —sob cer­tas cir­cuns­tân­ci­as— pa­go pe­los ca­mi­nho­nei­ros.

Es­sa re­du­ção do pe­dá­gio gerou quebra con­tra­tu­al nas ro­do­vi­as ope­ra­das pe­la ini­ci­a­ti­va privada, e o te­ma foi ju­di­ci­a­li­za­do: as con­ces­si­o­ná­ri­as en­tra­ram com um pe­di­do de re­e­qui­lí­brio econô­mi­co fi­nan­cei­ro do contrato. Bai­ta con­fu­são!

A ori­gem da con­fu­são é a lei­tu­ra dos eco­no­mis­tas he­te­ro­do­xos bra­si­lei­ros de que sub­si­di­ar investimento é sem­pre bom.

Não há mo­ti­vo econô­mi­co pa­ra sub­si­di­ar com­pra de ca­mi­nhões. O mes­mo apli­ca-se à in­dús­tria na­val e ou­tras ati­vi­da­des.

A atu­al crise econô­mi­ca pro­mo­veu a mai­or per­da de PIB per ca­pi­ta de nos­sa his­tó­ria. A fon­te da crise é o es­go­ta­men­to de um lon­go ci­clo de investimento, todo ele nos se­to­res er­ra­dos. O investimento gerou en­di­vi­da­men­to das em­pre­sas e, prin­ci­pal­men­te, do Es­ta­do bra­si­lei­ro. E não gerou ca­pa­ci­da­de pro­du­ti­va. Hou­ve má alo­ca­ção do investimento.

A se­gun­da pi­or crise de nos­sa his­tó­ri­ca, a crise da dí­vi­da ex­ter­na dos anos 1980, tem a mes­ma fon­te: o es­go­ta­men­to de um lon­go ci­clo de investimento in­cen­ti­va­do pe­lo Es­ta­do. De 1981 até 1984, o PIB per ca­pi­ta caiu 9,6%. Ago­ra, de 2014 até 2017, cai­rá pro­va­vel­men­te 9,8%. A es­quer­da en­con­tra a di­rei­ta.

O Con­gres­so Nacional dis­cu­te a MP (me­di­da pro­vi­só­ria) 777, que subs­ti­tui a TJLP (Ta­xa de Ju­ros de Lon­go Pra­zo), for­te­men­te sub­si­di­a­da, pe­la TLP (Ta­xa de Lon­go Pra­zo), pe­la qu­al a ta­xa de re­fe­rên­cia dos em­prés­ti­mos do BNDES pas­sa­rá a ser o ju­ro que o Te­sou­ro Nacional pa­ga nos seus tí­tu­los de cin­co anos.

A MP 777 al­te­ra to­da a go­ver­nan­ça de con­ces­são de sub­sí­dio em em­prés­ti­mos do BNDES. Co­mo a ta­xa de re­fe­rên­cia não se­rá mais sub­si­di­a­da, o BNDES so­men­te con­ce­de­rá sub­sí­dio se o Con­gres­so Nacional as­sim de­ter­mi­nar.

Te­nho cer­te­za de que os po­lí­ti­cos no Con­gres­so Nacional alo­ca­rão o sub­sí­dio mui­to melhor do que os téc­ni­cos de­fen­den­do su­as ide­o­lo­gi­as ca­pen­gas. Vi­mos es­sa in­com­pe­tên­cia no governo Gei­sel, no se­gun­do Lu­la e em Dil­ma 1. Bo­as in­ten­ções e ide­o­lo­gi­as ca­pen­gas têm po­der des­trui­dor. Pro­va­vel­men­te Edu­ar­do Cu­nha não con­se­gue fa­zer pi­or!

O Te­sou­ro fi­nan­cia o que a po­lí­ti­ca de­ter­mi­na. Os téc­ni­cos exe­cu­tam. A TLP devolve à po­lí­ti­ca atri­bui­ção que nun­ca de­ve­ria ter saí­do de­la.

Não há mo­ti­vo econô­mi­co pa­ra sub­si­di­ar com­pra de ca­mi­nhões; bo­as in­ten­ções têm po­der des­trui­dor

SA­MU­EL PES­SÔA,

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