Pe­chin­cha

Folha De S.Paulo - - Esporte - PAU­LO VI­NÍ­CIUS CO­E­LHO

A dis­cus­são de­ve ser mais pro­fun­da. Por que clu­bes do país não têm su­ces­so nos tor­nei­os sul-ame­ri­ca­nos?

A MAI­OR iro­nia da eli­mi­na­ção do Pal­mei­ras con­tra o Bar­ce­lo­na de Gu­aya­quil é o fa­to de a ca­mi­sa ver­de ter es­tam­pa­do o no­me da Cre­fi­sa e, na ama­re­la, o pa­tro­ci­na­dor ser o Ban­co Pi­chin­cha —pe­chin­cha, em por­tu­guês. O Bar­ce­lo­na tem or­ça­men­to de 10 mi­lhões de dó­la­res por ano. No Par­que An­tarc­ti­ca, o de­par­ta­men­to de fu­te­bol gas­ta 56% da re­cei­ta to­tal. Em tor­no de 75 mi­lhões de dó­la­res.

É irô­ni­co o Pi­chin­cha ven­cer a Cre­fi­sa, ain­da que se­ja ra­so o ar­gu­men­to da ver­go­nha por gas­tar mais e ser eli­mi­na­do mais ce­do. Du­ran­te to­da a dé­ca­da pas­sa­da, o Bar­ce­lo­na gas­tou mui­to me­nos do que o Real Ma­drid e ven­ceu bem mais. O Real não era ver­go­nho­so.

A dis­cus­são pre­ci­sa ser mais pro­fun­da. Por que os clu­bes bra­si­lei­ros não têm ti­do su­ces­so nos tor­nei­os sul-ame­ri­ca­nos?

O di­ag­nós­ti­co da fal­ta de ta­len­to apli­ca­do nas cri­ses da seleção caiu por ter­ra des­de a che­ga­da de Ti­te.

Di­zer que o Bra­sil es­tá de cos­tas pa­ra a Amé­ri­ca La­ti­na e não con­tra­ta téc­ni­cos e jo­ga­do­res sul-ame­ri­ca­nos tam­bém já era...

Con­tra­ta-se mui­to e, no má­xi­mo, 30% dos grin­gos dá cer­to.

Res­ta a ques­tão cen­tral. No Bra­sil, mon­tar ti­me é sinô­ni­mo de con­tra­tar. O ver­bo de­ve­ria ser trei­nar.

É uma das ra­zões pa­ra o téc­ni­co da seleção não en­xer­gar mais de três equi­pes jo­gan­do em al­to ní­vel no Bra­si­lei­rão.

Nin­guém en­ten­de por que o Fla­men­go não che­gou ao ní­vel ide­al, mas to­dos co­me­mo­ram a en­tra­da na equi­pe de Éver­ton Ri­bei­ro, Rho­dol­fo e Geu­vâ­nio, du­ran­te a tem­po­ra­da. Com Éver­ton Ri­bei­ro, mu­dou o es­pa­ço pa­ra Di­e­go jo­gar, por exem­plo. Re­quer adap­ta­ção.

Qu­an­do o Co­rinthi­ans ven­ceu o Bo­ta­fo­go-SP, no dia 9 de abril, em meio às críticas ge­rais, vo­cê po­de ter li­do aqui que o ti­me po­de­ria fi­car bem for­te.

A di­fe­ren­ça do Co­rinthi­ans em re­la­ção aos de­mais é o plano de jo­go de­fi­ni­do des­de 2008. Vo­cê di­rá que Adíl­son Ba­tis­ta fra­cas­sou em 2010, que Ti­te foi mal em 2013, vai se lem­brar das pas­sa­gens ruins de Cris­tó­vão Bor­ges e Oswal­do de Oli­vei­ra, no ano pas­sa­do. Lá, tam­bém há vacas ma­gras.

Mas o Co­rinthi­ans tem seu es­ti­lo há no­ve anos.

O con­se­lho de­li­be­ra­ti­vo do Pal­mei­ras ques­ti­o­na Alexandre Mat­tos, uma par­te da tor­ci­da la­men­ta a au­sên­cia de Pau­lo No­bre, du­ran­te o pe­río­do de Edu­ar­do Bap­tis­ta pe­di­a­se o re­tor­no de Cu­ca. Tu­do no Pal­mei­ras ain­da é per­so­na­lis­ta.

Não exis­te aqui­lo que o Santos cha­ma­va de DNA.

No ca­so do Pal­mei­ras, fal­ta jun­tar ao di­nhei­ro da Cre­fi­sa e às con­tra­ta­ções de Alexandre Mat­tos o pro­ces­so pa­ra ter 30% do elen­co vin­do da ba­se, a es­tra­té­gia e o plano de me­tas pa­ra os pró­xi­mos cin­co anos, o te­to de gas­tos pa­ra ca­da tem­po­ra­da, a pro­fis­si­o­na­li­za­ção de to­das as áre­as es­tra­té­gi­cas. Tu­do is­to de uma ma­nei­ra que não se sinta a fal­ta de uma úni­ca pes­soa.

Is­to tu­do fal­ta à mai­or par­te dos ti­mes do Bra­sil. O ca­so pal­mei­ren­se en­tra aqui em es­tu­do por­que en­trou na bi­bli­o­gra­fia dos ti­mes que gas­ta­ram mui­to e não ven­ce­ram na­da. Ca­so da Se­le-Co­rinthi­ans, mon­ta­da em 1985, com Dun­ga, Ca­sa­gran­de e Ser­gi­nho Chu­la­pa, ou do Fla­men­go de 1995, do ata­que Ed­mun­do, Ro­má­rio e Sá­vio.

O Pal­mei­ras saiu das tre­vas pa­ra os tí­tu­los nos úl­ti­mos três anos. Mas fal­ta o sal­to de­fi­ni­ti­vo pa­ra fi­car per­to de to­dos os tí­tu­los sem­pre.

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