O RE­TOR­NO DO REI

O es­pe­ci­al da NBC, os shows no In­ter­na­ti­o­nal e as tur­nês que mar­ca­ram o re­tor­no de Elvis

GRANDES ÍDOLOS DA MÚSICA - Elvis Presley - - EDITORIAL -

Fo­ram sete anos lon­ge dos pal­cos, mas Elvis mos­trou que es­ta­va me­lhor do que nun­ca

Os fil­mes já não fa­zi­am tan­to su­ces­so e Elvis tam­bém não em­pla­ca­va can­ções nas pa­ra­das nor­te-ame­ri­ca­nas. Es­ta­va cla­ro que a car­rei­ra de Presley ne­ces­si­ta­va de um im­pul­so pa­ra que seu no­me vol­tas­se a ocu­par o to­po dos ál­buns mais to­ca­dos. E de­vi­do ao acor­do de seu em­pre­sá­rio Co­lo­nel Tom Par­ker com a NBC, o re­co­me­ço foi pos­sí­vel.

A prin­cí­pio

Elvis ha­via se ca­sa­do com Pris­cil­la no iní­cio de maio de 1967. Cer­ca de um mês após o ma­trimô­nio, des­co­briu que es­ta­va grá­vi­da. Mes­mo as­sim, acom­pa­nha­va di­ver­sas gra­va­ções de Presley em es­tú­dio. O as­tro es­ta­va de­sa­ni­ma­do quan­to a sua car­rei­ra mu­si­cal, pois ha­via anos que não se apre­sen­ta­va pu­bli­ca­men­te. Se­gun­do o que afir­ma Gil­li­an Ga­ar, au­to­ra do li­vro O Re­tor­no do Rei: a Gran­de Vol­ta de Elvis Presley, quan­do Pris­cil­la es­ta­va no sé­ti­mo mês de gra­vi­dez, Presley ame­a­çou se­pa­rar-se de­la. No en­tan­to, nun­ca mais to­cou no as­sun­to após es­se epi­só­dio.

Em pri­mei­ro de fe­ve­rei­ro de 1968, ela deu à luz a Li­sa Ma­rie Presley, a úni­ca fi­lha do as­tro do rock. Ain­da de acor­do com Ga­ar, Elvis te­ria di­to a seu den­tis­ta que a me­ni­na era um mi­la­gre.

Par­ker e NBC

Presley não apa­re­cia na te­le­vi­são des­de 1960, quan­do par­ti­ci­pou do es­pe­ci­al Si­na­tra Ti­mex Show: Wel­co­me Ho­me Elvis, pro­du­zi­do pe­la re­de nor­te-ame­ri­ca­na ABC. As­sim, pen­san­do em pro­mo­ver a car­rei­ra do can­tor e o no­vo fil­me Chan­ge of Ha­bit, Tom Par­ker fir­mou um acor­do com a re­de de te­le­vi­são NBC. Presley te­ria que se apre­sen­tar em um es­pe­ci­al de Na­tal, pri­mei­ra­men­te, co­nhe­ci­do co­mo Elvis.

A pro­du­ção do pro­gra­ma foi anun­ci­a­da em 12 de de­zem­bro de 1968 por Tom Sar­noff, vi­ce-pre­si­den­te da NBC na Costa Oes­te. Es­se se­ria o pri­mei­ro show de Elvis de­pois de mui­to tem­po lon­ge dos pal­cos.

“Bin­de­ris­mo”

Bob Fin­kel, um exe­cu­ti­vo da NBC, pro­cu­ra­va um di­re­tor que pu­des­se tra­ba­lhar no es­pe­ci­al de Elvis. O es­ti­lo re­bel­de do jo­vem Ste­ve Bin­der lhe cha­mou a aten­ção. No en­tan­to, a prin­cí­pio, o pro­du­tor foi re­lu­tan­te pa­ra en­con­trar o can­tor e sua equi­pe. Ape­sar das dis­cor­dân­ci­as, acei­tou co­lo­car a car­rei­ra de Presley de vol­ta aos tri­lhos. E, pa­ra is­so, te­ve que dis­cor­dar de Par­ker al­gu­mas ve­zes.

Elvis’ Co­me­back

A ideia cen­tral era tra­zer o Elvis da dé­ca­da de 1950 de vol­ta. Por is­so, Bin­der apre­sen­tou Elvis ao es­ti­lis­ta Bill Be­lew, res­pon­sá­vel por fa­zer a rou­pa que o as­tro uti­li­za­ria no show. Foi con­fec­ci­o­na­do um tra­je aper­ta­do em cou­ro pre­to, com uma go­la mais bai­xa do que as que Presley cos­tu­ma­va usar. Anos de­pois, a par­cei­ra com Bill mar­ca­ria o es­ti­lo das ves­ti­men­tas do Rei do Rock, prin­ci­pal­men­te, o de­sign dos ma­ca­cões es­ti­lo­sos.

A gra­va­ção do es­pe­ci­al ocor­reu ain­da em ju­nho de 1968, em Bur­bank, na Ca­li­fór­nia. Con­tu­do, o es­pe­ci­al foi ao ar so­men­te na noi­te de três de de­zem­bro, uma ter­ça-fei­ra. Elvis se apre­sen­tou em fren­te a uma pe­que­na pla­teia, mas, com seu jei­to de­si­ni­bi­do, re­lem­bran­do os pri­mei­ros di­as de rock’n’roll. Tal de­sen­vol­tu­ra ren­deu a NBC 42% do to­tal da au­di­ên­cia nor­te-ame­ri­ca­na na­que­la noi­te. Se­gun­do o que Ga­ar es­cre­ve em seu li­vro, o show não re­pre­sen­tou ape­nas um mo­men­to de re­nas­ci­men­to pa­ra Presley, mas tam­bém de re­den­ção.

De vol­ta ao to­po

As con­sequên­ci­as do es­pe­ci­al – que, pos­te­ri­or­men­te, fi­ca­ria co­nhe­ci­do co­mo ‘68 Co­me­back Spe­ci­al – fo­ram as me­lho­res pos­sí­veis. Em ja­nei­ro de 1969, o sin­gle If I Can Dre­am al­can­çou a 12ª po­si­ção nas pa­ra­das nor­te-ame­ri­ca­nas. Es­te ce­ná­rio era bem di­fe­ren­te do que ha­via acon­te­ci­do nos úl­ti­mos anos.

Presley tam­bém es­ta­va en­tu­si­as­ma­do com as ses­sões de gra­va­ção do álbum From Elvis In Memphis, lan­ça­do em ju­nho de 1969. O dis­co reu­nia coun­try e soul em can­ções in­ter­pre­ta­das com “ar de re­a­li­za­ção” e ain­da tra­zia mú­si­cas co­mo a fa­mo­sa In The Ghet­to. A era dos ál­buns de tri­lha so­no­ra dos fil­mes es­tre­la­dos por Elvis es­ta­va che­gan­do ao fim.

Ho­tel In­ter­na­ti­o­nal

Os con­vi­tes pa­ra shows vol­ta­ram a apa­re­cer. Em maio, o re­cém-cons­truí­do In­ter­na­ti­o­nal Ho­tel, em Las Ve­gas nos Es­ta­dos Uni­dos, con­tra­tou 57 shows de Presley du­ran­te qua­tro se­ma­nas. O es­pa­ço, que per­ten­cia ao em­pre­sá­rio Kirk Ker­ko­ri­an, con­ta­va com uma das mai­o­res sa­las de apre­sen­ta­ção da ci­da­de. No pal­co, Presley te­ve a com­pa­nhia do gui­tar­ris­ta Ja­mes Bur­ton e de dois co­rais gos­pel: The Im­pe­ri­als e The Swe­et Ins­pi­ra­ti­ons.

Ker­ko­ri­an dis­po­ni­bi­li­zou seu avião par­ti­cu­lar pa­ra tra­zer jor­na­lis­tas de No­va York à apre­sen­ta­ção de es­treia, em 31 de ju­lho de 1969. Ha­via mais de du­as mil pes­so­as na pla­teia do In­ter­na­ti­o­nal. Elvis foi ova­ci­o­na­do de pé ao en­trar no pal­co e an­tes mes­mo de to­car qual­quer no­ta.

Após o show, Par­ker ne­go­ci­ou um con­tra­to de cin­co anos com o ho­tel. Presley se apre­sen­ta­ria em Las Ve­gas du­ran­te os me­ses de fe­ve­rei­ro e agosto, por um sa­lá­rio anu­al de um mi­lhão de dó­la­res.

No rit­mo das tur­nês

Em novembro de 1969, a úl­ti­ma pe­lí­cu­la mu­si­cal pro­ta­go­ni­za­da por Elvis – Chan­ge of Ha­bit – foi lan­ça­da. No mes­mo mês, seu álbum du­plo From Memphis To Ve­gas/From Ve­gas To Memphis pas­sou a ser co­mer­ci­a­li­za­do. O pri­mei­ro la­do con­ti­nha as gra­va­ções do Ame­ri­can Sound Stu­dio (lo­ca­li­za­do em Memphis, Ten­nes­see), en­quan­to o se­gun­do reu­nia as mú­si­cas apre­sen­ta­das ao vi­vo no In­ter­na­ti­o­nal. Uma das fai­xas pre­sen­tes no álbum era Sus­pi­ci­ous Minds, can­ção que che­gou ao to­po das pa­ra­das nor­te-ame­ri­ca­nas e tor­nou-se uma das mais co­nhe­ci­das na voz de Elvis.

No fi­nal de fe­ve­rei­ro e co­me­ço de mar­ço de 1970, Presley fez seis apre­sen­ta­ções no es­tá­dio Hous­ton As­tro­do­me, no Te­xas. To­dos os shows fo­ram su­ces­so de bi­lhe­te­ria, atrain­do cer­ca de 200 mil pes­so­as aos es­pe­tá­cu­los. A pro­du­ção de seu álbum On Sta­ge tam­bém es­ta­va em fa­se fi­nal e, lo­go, se­ria lan­ça­do. O dis­co tra­zia can­ções co­mo The Won­der of You.

De­pois dos com­pro­mis­sos no In­ter­na­ti­o­nal em se­tem­bro, Elvis e sua ban­da par­ti­ram pa­ra o sul dos Es­ta­dos Uni­dos. Em se­gui­da, fi­ze­ram ou­tros shows na Costa Oes­te do país.

No ca­mi­nho da mú­si­ca

Em 1972, Elvis lan­çou o dis­co gos­pel He Tou­ched Me, que lhe ga­ran­tiu seu se­gun­do prê­mio Grammy. Em ju­lho do mes­mo ano, re­a­li­zou qua­tro shows com in­gres­sos es­go­ta­dos no Ma­di­son Squa­re Gar­den em No­va York. Um dos con­cer­tos do dia 10 foi gra­va­do e trans­for­ma­do no fa­mo­so LP Elvis: As Re­cor­ded at Ma­di­son Squa­re Gar­den, um dos dis­cos mais ven­di­dos do rei do rock.

O di­vór­cio

Em­bo­ra a car­rei­ra de­co­las­se, os pro­ble­mas pes­so­ais de Elvis – prin­ci­pal­men­te o ca­sa­men­to com Pris­cil­la – co­me­ça­vam a per­tur­bar sua men­te. Eles es­ta­vam ca­da vez mais dis­tan­tes e mal fi­ca­vam jun­tos na mes­ma ca­sa.

Em 23 de fe­ve­rei­ro de 1972, ela pe­diu a se­pa­ra­ção do can­tor e con­fes­sou o seu re­la­ci­o­na­men­to ex­tra­con­ju­gal com o ins­tru­tor de ka­ra­tê Mi­ke Sto­ne, apre­sen­ta­do a ela por Elvis. Con­tu­do, o di­vór­cio só foi ob­ti­do em 18 de agosto. Presley tam­bém ha­via traí­do a es­po­sa, no en­tan­to, a se­pa­ra­ção não era es­pe­ra­da, fa­zen­do com que o as­tro não sou­bes­se co­mo li­dar com a si­tu­a­ção.

Olá, Hawaii!

Em 14 de ja­nei­ro de 1973, ocor­reu a trans­mis­são via sa­té­li­te do es­pe­ci­al de te­le­vi­são, Aloha from Hawaii. O show al­can­çou cer­ca de 40 paí­ses e mi­lhões de te­les­pec­ta­do­res. Dois di­as an­tes, os pro­du­to­res ha­vi­am gra­va­do um show re­ser­va pa­ra ir ao ar ca­so hou­ves­se al­gum de­fei­to nos sis­te­mas de trans­mis­são ao vi­vo.

De acor­do com o es­ti­lis­ta Bill Be­lew, a cor bran­ca da rou­pa foi es­co­lhi­da pa­ra dar mais vi­si­bi­li­da­de a Presley no pal­co. Ori­gi­nal­men­te, o can­tor usa­ria uma capa de­co­ra­da com o de­se­nho da águia nor­te-ame­ri­ca­na, es­tre­las e pe­dras pre­ci­o­sas. No en­tan­to, Elvis a achou pe­sa­da de­mais. Em fe­ve­rei­ro, o álbum homô­ni­mo com a gra­va­ção do es­pe­ci­al al­can­çou o to­po da lis­ta da Bill­bo­ard de dis­cos mais es­cu­ta­dos.

Pro­ble­mas mai­o­res

Com o auge, Elvis re­ce­bia ame­a­ças de mor­te cons­tan­tes. Em 1970, che­gou a su­bir ar­ma­do no pal­co du­ran­te um show com re­ceio de que al­gum in­ci­den­te acon­te­ces­se. En­tre­tan­to, a ame­a­ça era fal­sa. Três anos de­pois, du­ran­te um show no­tur­no em fe­ve­rei­ro, qua­tro ho­mens – pos­sí­veis fãs – su­bi­ram ao pal­co e ten­ta­ram “ata­car” Presley. O as­tro se de­fen­deu com um gol­pe de ka­ra­tê, der­ru­ban­do um dos ho­mens, en­quan­to guar­da-cos­tas se li­vra­vam dos ou­tros. Elvis fi­cou ob­ce­ca­do com a ideia de que se tra­ta­vam de ho­mens en­vi­a­dos por Mi­ke Sto­ne (aman­te de sua es­po­sa) pa­ra ma­tá-lo. Vá­ri­os fo­ram os ata­ques de rai­va re­la­ta­dos por quem con­vi­via com o can­tor. Mui­tas ve­zes, nem gran­des do­ses de me­di­ca­ção ad­mi­nis­tra­das por um mé­di­co o acal­ma­vam.

Os com­pri­mi­dos pa­ra dor­mir, por exem­plo, já fa­zi­am par­te do co­ti­di­a­no de Presley há anos. De acor­do com Gil­li­an Ga­ar, o as­tro não se via co­mo um usuá­rio de dro­gas, pois os me­di­ca­men­tos eram pres­cri­tos por mé­di­cos. Na in­dús­tria do en­tre­te­ni­men­to, is­to era bem co­mum pa­ra des­can­sar o su­fi­ci­en­te an­tes de uma ma­nhã de gra­va­ções. Mes­mo as­sim, o uso abu­si­vo trou­xe con­sequên­ci­as de­sas­tro­sas.

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