AP­PE­TI­TE FOR DESTRUCTION

Com um gran­de es­for­ço de di­vul­ga­ção re­a­li­za­do aos pou­cos e ven­cen­do gra­du­al­men­te a bar­rei­ra de acei­ta­ção da agres­si­vi­da­de do Guns, Ap­pe­ti­te com­ple­ta seus trinta anos co­mo um dos mai­o­res dis­cos de to­dos os tem­pos

GRANDES ÍDOLOS DA MÚSICA - Guns N' Roses - - ÍNDICE - TEX­TO Ra­fa­el Gui­ma­rães/Co­la­bo­ra­dor DE­SIGN Jo­se­ma­ra Nas­ci­men­to

O pri­mei­ro ál­bum: ar­re­ben­tan­do a por­ta de en­tra­da

Ap­pe­ti­te for Destruction foi um ál­bum mar­ca­do por con­tro­vér­si­as, pro­ble­mas e con­fli­tos, des­de sua gra­va­ção até atin­gir o su­ces­so ab­so­lu­to. Os pró­pri­os mem­bros da ban­da já de­cla­ra­ram al­gu­mas ve­zes a sur­pre­sa com o fa­to de te­rem con­se­gui­do ter­mi­nar o dis­co. Ape­sar do ca­mi­nho complexo e dos per­cal­ços, o ál­bum tor­nou­se o mais bem su­ce­di­do dis­co de es­treia de um gru­po mu­si­cal nos Es­ta­dos Uni­dos.

Gra­va­ção

Após as­si­nar com a Gef­fen Re­cords, o Guns N’ Ro­ses pas­sou al­gu­mas se­ma­nas en­sai­an­do pa­ra as gra­va­ções. Por fim, en­tra­ram em es­tú­dio em ja­nei­ro de 1987, es­co­lhen­do Mi­ke Clink co­mo seu pro­du­tor.

Clink era um no­va­to, que ha­via até en­tão fei­to car­rei­ra co­mo en­ge­nhei­ro de som. Ele acom­pa­nha­ria a ban­da por di­ver­sos anos, tor­nan­do-se res­pon­sá­vel pe­la pro­du­ção de to­dos os ál­buns até o “The Spaghet­ti In­ci­dent?”.

A es­co­lha de Clink foi que a ban­da gra­vas­se no es­tú­dio Rum­bo Re­cor­ders, de pro­pri­e­da­de de Daryl Dra­gon, co­nhe­ci­do co­mo Cap­tain pe­lo seu tra­ba­lho mu­si­cal na du­pla Cap­tain & Ten­nil­le, on­de fa­zia mú­si­cas Pop.

O gru­po gas­tou du­as se­ma­nas pa­ra gra­var al­gu­mas pas­sa­gens bá­si­cas. Slash se tor­nou um pro­ble­ma pa­ra o pro­du­tor du­ran­te es­sa fa­se, tan­to pe­lo con­su­mo de dro­gas e ál­co­ol quan­to pe­la di­fi­cul­da­de de en­con­trar uma gui­tar­ra que o agra­das­se pa­ra as gra­va­ções. Por fim, eles se de­ci­di­ram por uma Gib­son Les Paul co­nec­ta­da a um am­pli­fi­ca­dor

Marshall. Axl tam­bém fez os co­le­gas de ban­da per­de­rem a pa­ci­ên­cia com o per­fec­ci­o­nis­mo, já que fez ques­tão de gra­var uma li­nha por vez em ca­da mú­si­ca.

Lan­ça­men­to

Co­nhe­ci­da por ser uma ban­da mui­to agres­si­va em pal­co, o Guns es­co­lheu co­mo ar­te de ca­pa uma ima­gem de um robô pres­tes a ser pu­ni­do de­pois de es­tu­prar uma mu­lher. A ima­gem fez com que di­ver­sas lo­jas se re­cu­sas­sem a co­lo­car os dis­cos na pra­te­lei­ra.

En­tão, Gef­fen tro­cou a ar­te pe­la fa­mo­sa cruz com as ca­vei­ras dos mem­bros da ban­da. Ela ha­via si­do ori­gi­nal­men­te fei­ta por Billy White Jr. pa­ra uma ta­tu­a­gem.

Ao re­dor do mun­do, em to­das as mí­di­as que pos­suíam dois la­dos, co­mo dis­cos de vi­nil e fi­tas cas­se­tes, não hou­ve a no­me­a­ção tra­di­ci­o­nal de A e B, e sim de G e R.

O la­do G, de guns (ar­mas), tem seis mú­si­cas que li­dam com dro­gas, as di­fi­cul­da­des da vi­da e a vi­o­lên­cia. En­quan­to is­so, o R, de ro­ses (ro­sas), é pon­tu­an­do com seis sequên­ci­as que tra­tam de amor, se­xo e re­la­ci­o­na­men­tos.

O ál­bum foi lan­ça­do em 29 de agos­to de 1987, ape­nas na 182ª po­si­ção das pa­ra­das de su­ces­so. So­men­te um ano de­pois do tra­ba­lho de di­vul­ga­ção re­a­li­za­do pe­la ban­da, com tur­nê e par­ti­ci­pa­ções em pro­gra­mas de rá­dio, Ap­pe­ti­te che­ga­ria ao to­po.

En­tre 6 e 12 de agos­to de 1988, o dis­co pas­sou boa par­te co­mo mais ven­di­do, per­den­do o pos­to no fi­nal da se­ma­na se­guin­te pa­ra Hys­te­ria, do Def Lep­pard. Os dois ál­buns tro­ca­ram no­va­men­te de po­si­ção em 24 de se­tem­bro da­que­le ano, quan­do Ap­pe­ti­te to­mou o pos­to de nú­me­ro 1, on­de per­ma­ne­ce­ria até 14 de ou­tu­bro.

Um gran­de exem­plo do su­ces­so do dis­co es­tá na for­ma co­mo se man­te­ve en­tre os mais ven­di­dos, ain­da que ra­ra­men­te atin­gin­do o to­po. Di­ver­sos ál­buns fo­ram mais ven­di­dos em se­ma­nas es­pe­cí­fi­cas sem con­se­guir re­pe­tir as mar­cas de ven­da do ál­bum completo. Ap­pe­ti­te, even­tu­al­men­te, con­se­gui­ria mais uma vez ser nú­me­ro 1 na se­ma­na de 5 a 11 de fe­ve­rei­ro de 1989.

Tour

A tur­nê de di­vul­ga­ção do ál­bum co­me­çou ofi­ci­al­men­te em Lon­dres, In­gla­ter­ra, com a ban­da to­can­do em três shows no Mar­quee Club em ju­nho de 1987. Após gra­var um pe­da­ço do que se­ria o cli­pe de Wel­co­me to the Jun­gle, Axl e com­pa­nhia ain­da fi­ze­ram dois shows em Los An­ge­les no co­me­ço de agos­to.

A ban­da en­tão pas­sou me­ta­de do mês e se­tem­bro in­tei­ro abrin­do pa­ra a ban­da The Cult, fa­mo­sa na épo­ca pe­lo som pós-punk. Nes­se mo­men­to da tur­nê, Guns N’ Ro­ses to­cou no Ca­na­dá e na re­gião dos Gran­des La­gos, se­guin­do pa­ra o no­ro­es­te dos Es­ta­dos Uni­dos e, fi­nal­men­te, Ca­li­fór­nia, Ari­zo­na e Te­xas.

Nos úl­ti­mos dois di­as de se­tem­bro e co­me­ço de ou­tu­bro, o gru­po co­me­çou a se­gun­da par­te da tur­nê, na Eu­ro­pa, ago­ra co­mo atra­ção prin­ci­pal. A ban­da Fas­ter Pus­sy­cat abria pa­ra o Guns. Os shows fo­ram fei­tos na Ale­ma­nha e In­gla­ter­ra, com uma úni­ca apre­sen­ta­ção acon­te­cen­do em Ams­ter­dã, Ho­lan­da.

De vol­ta aos Es­ta­dos Uni­dos, ga­nha­ram

a opor­tu­ni­da­de de ten­tar ala­van­car as ven­das do dis­co, fa­zen­do uma sé­rie de shows nos es­ta­dos de No­va Iorque, Mary­land e Pen­sil­vâ­nia, to­dos no nor­des­te do país. Es­sa re­gião é co­nhe­ci­da por con­cen­trar di­ver­sas ci­da­des mui­to po­pu­lo­sas, co­mo a Ci­da­de de No­va York, Bos­ton, Fi­la­dél­fia e Washing­ton.

Após um pe­río­do de res­pi­ro, a ban­da mais uma vez apre­sen­tou-se em um gran­de ato, co­mo for­ma de ten­tar as­so­ci­ar o no­me do Guns a uma ban­da já co­nhe­ci­da e ala­van­car as ven­das do ál­bum. O gru­po es­co­lhi­do foi o Mö­tley Crüe, que ape­sar de ter uma ori­gem ca­li­for­ni­a­na co­mo a do Guns ti­nha um gran­de gru­po de fãs no sul dos Es­ta­dos Uni­dos.

O gru­po de Slash abriu os espetáculos pa­ra o Mö­tley Crüe nos es­ta­dos de Ala­ba­ma, Ge­or­gia, Mis­sis­sip­pi, Loui­si­a­na, Ten­nes­see, Ca­ro­li­na do Nor­te, en­tre ou­tros. Ape­sar de não ter se da­do mui­to bem com os mem­bros da ou­tra ban­da, o Guns fez bom pro­vei­to da épo­ca e con­se­guiu su­bir nas pa­ra­das.

Pe­lo su­ces­so da ten­ta­ti­va, o es­tú­dio Gef­fen de­ci­diu que o Guns se­gui­ria abrin­do pa­ra atos mais fa­mo­sos, sen­do que o pró­xi­mo es­co­lhi­do se­ria Ali­ce Co­o­per, do qual os mem­bros da ban­da eram fãs. O pe­río­do de shows no Te­xas e na Ca­li­fór­nia foi cha­ma­do por Adler de me­lhor épo­ca de sua vi­da.

Em se­gui­da, a ban­da se­guiu pa­ra uma sequên­cia de shows co­mo prin­ci­pal no­me, co­me­çan­do pe­la Ca­li­fór­nia. Após um show em fe­ve­rei­ro de 1988 em Pho­e­nix, Ari­zo­na, en­tre­tan­to, di­ver­sas apre­sen­ta­ções fo­ram can­ce­la­das de­vi­do ao can­sa­ço dos mem­bros.

Eles vol­ta­ram à ati­va em 31 de mar­ço no The La­te Show, um pro­gra­ma de en­tre­vis­tas da re­de de te­le­vi­são e rá­dio NBC. A par­tir daí, a ban­da pas­sou a to­car em es­tá­di­os e au­di­tó­ri­os mai­o­res do que os clu­bes on­de se apre­sen­ta­va an­tes. Even­tu­al­men­te, o es­tú­dio os se­le­ci­o­nou pa­ra abrir pa­ra a tur­nê ame­ri­ca­na do Iron Mai­den, co­me­çan­do pe­lo Ca­na­dá em maio.

Mais uma vez, o com­por­ta­men­to dos mem­bros do Guns ge­rou ini­mi­za­de com a ban­da pa­ra qual es­ta­vam abrin­do. Após di- ver­sos con­fli­tos com os in­te­gran­tes do Iron e pro­ble­mas na voz de Axl, a ban­da ga­nhou o mês de ju­nho de 1988 de fol­ga.

Eles vol­ta­ram em ju­lho e agos­to de 1988 co­mo show de aber­tu­ra da tur­nê do Ae­ros­mith nos Es­ta­dos Uni­dos. En­tre­tan­to, foi nes­sa épo­ca que a ban­da fi­nal­men­te al­can­çou o to­po das pa­ra­das ame­ri­ca­nas, com mui­tas pes­so­as in­do aos shows ape­nas pa­ra ve­rem o Guns.

Com o fim da tur­nê acom­pa­nhan­do a tru­pe de Ste­ve Ty­ler, que ao con­trá­rio dos gru­pos an­te­ri­o­res se deu mui­to bem com os mem­bros do Guns, o gru­po foi uma das prin­ci­pais atra­ções do fes­ti­val Mons­ters of Rock, na In­gla­ter­ra. Na oca­sião, o pú­bli­co es­ta­va mui­to agi­ta­do e aca­bou es­ma­gan­do du­as pes­so­as da au­di­ên­cia con­tra o pal­co, o que re­sul­tou em mor­te. Ape­sar de a mí­dia ter cul­pa­do a ban­da, Axl e os de­mais mem­bros ten­ta­ram evi­tar o pro­ble­ma e pe­di­ram di­ver­sas ve­zes que to­dos se acal­mas­sem.

Por fim, o gru­po en­cer­rou os shows da tur­nê na Amé­ri­ca com apre­sen­ta­ções em gran­des es­tá­di­os nos Es­ta­dos Uni­dos, se­gui­dos de uma sé­rie de shows no Ja­pão e na Oce­a­nia em de­zem­bro de 1988.

As mú­si­cas

A pri­mei­ra fai­xa do ál­bum (e da ban­da) a es­tou­rar foi Wel­co­me to the Jun­gle. A mú­si­ca é uma ode à ci­da­de, fa­lan­do de situações que Axl en­con­trou ao vi­si­tar um ami­go em Se­at­tle e ins­pi­ra­da su­pos­ta­men­te nu­ma fra­se de um men­di­go que es­pan­tou Ro­se e seu ami­go na oca­sião gri­tan­do que “eles es­ta­vam na sel­va”.

Wel­co­me abre o dis­co e é tam­bém a ba­se do pri­mei­ro vi­de­o­cli­pe do gru­po. A gra­va­do­ra Gef­fen Re­cords te­ve pro­ble­mas em con­ven­cer a MTV a pas­sar o ví­deo, pois a re­de de te­le­vi­são acre­di­ta­va que ela pro­mo­via a vi­o­lên­cia e o uso de dro­gas. Da­vid Gef­fen en­tão fez um acor­do com a emis­so­ra pa­ra que trans­mi­tis­se a mú­si­ca ape­nas uma vez, na ma­dru­ga­da de do­min­go.

Após a exi­bi­ção do vi­de­o­cli­pe, en­tre­tan­to, a MTV co­me­çou a re­ce­ber mi­lha­res de pe­di­dos do pú­bli­co pa­ra que o pas­sas­se mais uma vez.

A se­gun­da mú­si­ca do ál­bum, It’s So Easy, foi na ver­da­de o pri­mei­ro sin­gle do Guns, di­vul­ga­do em 15 de ju­nho de 1987, an­tes do ál­bum. A fai­xa é uma com­po­si­ção do bai­xis­ta Duff McKa­gan so­bre o va­zio da vi­da. Um cli­pe che­gou a ser fei­to, an­tes mes­mo de Wel­co­me to the Jun­gle, mas nun­ca foi lan­ça­do na MTV.

O sin­gle se­guin­te, Swe­et Child O’ Mi­ne, é a úni­ca mú­si­ca da ban­da a al­can­çar o to­po das pa­ra­das ame­ri­ca­nas. A fai­xa co­me­çou co­mo um exer­cí­cio de aque­ci­men­to de Slash e, even­tu­al­men­te, foi trans­for­ma­da em um gran­de su­ces­so pe­lo gru­po. Axl es­cre­veu a le­tra, ins­pi­ra­do em sua namorada.

O pró­xi­mo gran­de hit é Paradise City, uma mú­si­ca que fa­la dos pra­ze­res da vi­da. O ál­bum con­ta­va ain­da com gran­des mú­si­cas da lis­ta da ban­da, co­mo Mr. Browns­to­ne, so­bre a he­roí­na, e Nigh­train, so­bre alcoolismo.

30 anos de su­ces­so

Em 2017, o Ap­pe­ti­te for Destruction com­ple­tou três dé­ca­das de seu lan­ça­men­to. O ál­bum já re­ce­beu 18 dis­cos de pla­ti­na nos Es­ta­dos Uni­dos por ter ul­tra­pas­sa­do mais de 18 mi­lhões de ven­das. Em 2013, se­gun­do uma es­ti­ma­ti­va da re­vis­ta New Yor­ker, o dis­co já ti­nha ul­tra­pas­sa­do as 30 mi­lhões de có­pi­as ven­di­das mun­di­al­men­te.

Além do cla­ro su­ces­so co­mer­ci­al, Ap­pe­ti­te é reconhecido pe­la crí­ti­ca. O dis­co foi es­co­lhi­do pe­la re­vis­ta Rol­ling Sto­ne pa­ra seu ran­king de 100 Mai­o­res Dis­cos de To­dos os Tem­pos, em 2012, fi­can­do com a 62ª po­si­ção. A re­vis­ta Gui­tar World co­lo­cou o ál­bum em se­gun­do lu­gar en­tre os Mai­o­res Ál­buns pa­ra Gui­tar­ris­tas.

A edi­to­ra Uni­ver­se Pu­blishing in­cluiu o dis­co em seu li­vro 1001 Dis­cos pa­ra Ou­vir An­tes de Mor­rer, pu­bli­ca­do em 2005. No li­vro, é ci­ta­da a im­por­tân­cia do ál­bum pa­ra a for­ma co­mo o rock se­ria pro­du­zi­do e pa­ra o com­por­ta­men­to dos rocks­tars nos anos se­guin­tes.

A ca­pa ori­gi­nal do ál­bum, ba­ni­da das lo­jas por seu te­or vi­o­len­to

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