O EN­CAN­TO DAS GE­LEI­RAS

Uma vi­a­gem pe­las ge­lei­ras mi­le­na­res do ou­tro la­do do Chi­le

Metro Brazil (ABC) - - Front Page - LUIZ RIVOIRO

Bal­ma­ce­da, Coihai­que, Cha­ca­bu­co, Ai­sén, Cer­ro Cas­til­lo, Río Tran­qui­lo. No­mes pou­co co­nhe­ci­dos de ci­da­des e pe­que­nos por­tos que se es­ten­dem ao lon­go da car­re­te­ra Aus­tral chi­le­na. Ao la­do de ri­os si­nu­o­sos, por en­tre mon­ta­nhas ne­va­das e in­ter­mi­ná­veis pas­tos de ove­lha, a es­tra­da cor­ta um ce­ná­rio ain­da pou­co ex­plo­ra­do pe­los bra­si­lei­ros. No nor­te da Pa­tagô­nia, é a na­tu­re­za que di­ta o rit­mo. As dis­tân­ci­as não são me­di­das em quilô­me­tros, mas em ho­ras de vi­a­gem. Ca­be ao vi­si­tan­te de­sa­ce­le­rar e en­trar no cli­ma.

E são mui­tas as op­ções, com pas­sei­os com du­ra­ção de pou­cas ho­ras ou até um dia in­tei­ro. En­tre elas, es­tá a vi­si­ta ao Par­que Na­ci­o­nal La­gu­na San Ra­fa­el, com seu im­pres­si­o­nan­te pa­re­dão de ge­lo com mais de 20 mil anos de ida­de e al­tu­ra equi­va­len­te a um edi­fí­cio de 30 an­da­res.

O ro­tei­ro até es­sa ver­da­dei­ra mu­ra­lha co­me­ça em Pu­er­to Cha­ca­bu­co. Da­li, zar­pa o ca­ta­ma­rã Chai­tén, com ca­pa­ci­da­de pa­ra 100 pes­so­as. São cin­co ho­ras em na­ve­ga­ção tran­qui­la por um fi­or­de. So­bra tem­po pa­ra o al­mo­ço, um jo­gui­nho de cartas, um bate-papo fu­ra­do, uma so­ne­ca ou, me­lhor, a sim­ples ob­ser­va­ção do ce­ná­rio a par­tir do con­vés.

O aces­so à La­gu­na se dá por um ca­nal es­trei­to e, lo­go à es­quer­da, sur­ge imponente o gla­ci­al. Blo­cos de ge­lo e ice­bergs flu­tu­am ao la­do do Chai­tén. Aos pou­cos, gru­pos de até oi­to pes­so­as em­bar­cam nos bo­tes de bor­ra­cha mo­vi­dos a mo­tor de po­pa, os zo­di­acs. Es­te é pon­to al­to da vi­a­gem. Em mi­nu­tos, os ve­lo­zes bar­qui­nhos zar­pam ru­mo ao mu­ro azu­la­do.

O es­tron­do das gi­gan­tes­cas co­lu­nas de ge­lo se par­tin­do e cain­do so­bre a água as­sus­tam, ba­lan­çam os zo­di­acs, mas tor­nam a apro­xi­ma­ção ain­da mais emo­ci­o­nan­te. Os de­dos qua­se con­ge­la­das pe­lo ven­to não im­pe­dem a sa­rai­va­da de fo­tos, ví­de­os e, cla­ro, sel­fi­es e mais sel­fi­es.

A no­ta tris­te fi­ca por con­ta das mui­tas mar­cas cra­va­das nos pa­re­dões de pe­dra de am­bos os la­dos da ge­lei­ra, inequí­vo­cos si­nais do bru­tal re­cuo do gla­ci­al pro­vo­ca­do pe­lo aque­ci­men­to glo­bal. Uma re­tra­ção cons­tan­te e em al­ta ve­lo­ci­da­de que po­de ser no­ta­da de um ano pa­ra ou­tro.

Ao fi­nal do pas­seio de bo­te, no­va­men­te em­bar­ca­dos e se­cos no ca­ta­ma­rã, os vi­si­tan­tes ce­le­bram a ex­pe­ri­ên­cia. É tem­po de es­quen­tar o cor­po e aque­cer a al­ma com uma do­se de uís­que es­co­cês 12 anos com uma pe­dra de ge­lo mi­le­nar, dan­çar, can­tar e brin­car com uma fe­li­ci­da­de ge­nuí­na. Le­gi­ti­ma­men­te pa­tagô­ni­ca.

LUIZ RIVOIRO/METRO

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