O im­pé­rio da lei não faz mi­nha cren­ça. Sou con­tra pri­sões. A não ser nos cri­mes con­tra a vi­da.

Novo Jornal - - Primeira Página - Ce­na Ur­ba­na [ Vi­cen­te Se­re­jo ]

“Is­to aqui não vai dar em lu­gar ne­nhum.” Ge­rald Thomas, so­bre o Bra­sil

Não gos­to de cha­vões, Se­nhor Re­da­tor. Po­de ser que aqui al­guns fu­jam, mor­dam e san­grem a car­ne do tex­to, por mais que ten­te evi­tá-los. Os juí­zos fe­cha­dos apri­si­o­nam as idéi­as e re­ti­ram do exer­cí­cio de pen­sá-las a tin­ta vi­va das cir­cuns­tân­ci­as. Daí des­con­fi­ar des­se em­ble­ma que é tí­pi­co do le­ga­lis­mo, que é a le­ga­li­da­de en­lou­que­ci­da, quan­do dou de ca­ra com cer­to uso de uma ex­pres­são tão no­bre ao ju­ri­diquês, cor­ren­te e re­cor­ren­te, se ge­ne­ra­li­za e a tu­do jus­ti­fi­ca com o tal im­pé­rio da lei.

Co­me­ça que im­pé­rio não é um mo­de­lo re­pu­bli­ca­no. Ao con­trá­rio. É um sím­bo­lo avas­sa­la­dor do po­der ver­ti­cal, con­cen­tra­do nu­ma só pes­soa ou, tan­to pi­or, na fa­mí­lia im­pe­ri­al, co­mo se exis­tis­se na so­ci­e­da­de mo­der­na al­gum po­der in­to­cá­vel. De­pois, é ne­gar às idéi­as, mes­mo es­cri­tas, a ri­que­za das in­ter­pre­ta­ções. Co­mo se as pa­la­vras não fos­sem po­lis­sê­mi­cas, se cin­gis­sem a um úni­co sen­ti­do e não abri­gas­sem mais de uma lei­tu­ra, sub­train­do-se as cir­cuns­tân­ci­as que ge­ram su­as ri­cas va­ri­a­ções.

A idéia de po­der sem­pre foi al­go mui­to for­te no ima­gi­ná­rio co­le­ti­vo. O pró­prio sa­ber po­pu­lar tra­tou de sa­cra­li­zá-la. Tal­vez o exem­plo mais elo­quen­te es­te­ja no ve­lho­bro­car­do‘Tris­te do po­der que não po­de.’ É al­go tão for­te que Pla­tão tra­tou de di­vi­di-lo em três, mo­de­lo de­pois de­sen­vol­vi­do por Mon­tes­qui­eu, e cui­dou de lo­go ad­ver­tir que o po­der ema­na do po­vo, pe­lo po­vo e pa­ra o po­vo, a sal­va­guar­da con­tra o po­der ab­so­lu­to que, sen­do ab­so­lu­to - diz a tra­di­ção - cor­rom­pe ab­so­lu­ta­men­te.

O que é o im­pé­rio da lei co­mo con­cei­to fe­cha­do se tan­tas ve­zes a lei nas­ce de tra­mas lon­ge dos olhos da so­ci­e­da­de, co­mo pro­du­to de acor­dos, ne­gó­ci­os en­vol­ven­do emen­das apre­sen­ta­das nos ple­ná­ri­os, com­pra de me­di­das pro­vi­só­ri­as e que tais? Co­mo im­pé­rio da lei, se uns es­tão presos pe­los mes­mos cri­mes que ou­tros es­tão li­vres? Co­mo jul­gar com ba­se nu­ma de­la­ção se a pró­pria de­la­ção é pro­du­to de uma tro­ca qua­se sem­pre de­se­ja­da pe­los cúm­pli­ces da­qui­lo que eles de­nun­ci­am em juí­zo?

Foi-se o tem­po, Se­nhor Re­da­tor, do di­rei­to con­su­e­tu­di­ná­rio. Dos cos­tu­mes e das tra­di­ções, quan­do os cos­tu­mes eram sau­dá­veis e as tra­di­ções um bem de to­dos. O im­pé­rio da lei não faz mi­nha cren­ça. Mais: sou con­tra pri­sões. A não ser nos cri­mes con­tra a vi­da, nos ca­sos de psi­co­pa­tas que ame­a­cem a paz in­di­vi­du­al ou so­ci­al. Es­sa ba­na­li­za­ção do ‘pren­da-se’ de qual­quer jei­to não se jus­ti­fi­ca. Nem co­mo for­ma de coi­bir o mal - as pri­sões abri­gam os co­man­dos do cri­me or­ga­ni­za­do.

Na re­pú­bli­ca, é da tes­si­tu­ra da sua pró­pria na­tu­re­za, o im­pé­rio há de ser do bom sen­so co­mo de­ve ser a in­ten­ção do tex­to cons­ti­tu­ci­o­nal. Sem ca­suís­mos, sem pri­vi­lé­gi­os e sem cor­po­ra­ti­vis­mos nas­ci­dos de clas­ses ou cas­tas, ma­ni­pu­lan­do van­ta­gens. A não ser que a al­gum in­gê­nuo, to­ca­do pe­la in­cú­ria ou a má fé, ocor­ra acre­di­tar que no im­pé­rio da lei o po­der ema­na do po­vo e em seu no­me é exer­ci­do. Nos­sas gra­ves de­si­gual­da­des so­ci­ais, por si só, de­nun­ci­am a far­sa e re­ve­lam os far­san­tes.

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