De­va­gar, qua­se

Pú­bli­co pu­xa o freio e co­lo­ca em xe­que o po­de­ro­so mer­ca­do de shows; can­ce­la­men­tos de apre­sen­ta­ções e re­du­ção nos pre­ços tor­na­ram-se co­muns

O Diario do Norte do Parana - - O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ - Jo­ta­bê Me­dei­ros

Can­ce­la­men­to do show da can­to­ra Fi­o­na Ap­ple. Can­ce­la­men­to do set de will.i.am na aber­tu­ra de Ma­don­na. Can­ce­la­men­to do show do Su­bli­me with Ro­me. Can­ce­la­men­to do con­cer­to do Cold­play, três di­as após o anún­cio da tur­nê. Lady Ga­ga ven­den­do ape­nas me­ta­de dos in­gres­sos dis­po­ní­veis pa­ra seus shows no Bra­sil. E, mais re­cen­te­men­te, um ba­que no or­gu­lho da Rai­nha do Pop: Ma­don­na de­sem­bar­cou nes­ta sex­ta-fei­ra no Bra­sil pa­ra a 77ª apre­sen­ta­ção da MDNA Tour fa­zen­do uma in­só­li­ta pro­mo­ção de en­tra­das - o pre­ço do in­gres­so pa­ra seu show caiu pe­la me­ta­de. Em sua úl­ti­ma vi­si­ta, hou­ve fi­las ho­mé­ri­cas e os in­gres­sos ti­nham se es­go­ta­do em 24 ho­ras.

A bru­xa an­da sol­ta no rei­no do show biz. Após anos de eu­fo­ria no se­tor - e do es­ta­be­le­ci­men­to de três gi­gan­tes da área no Bra­sil, a T4F, a Geo Even­tos e a XYZ Li­ve -, o mer­ca­do vê um re­cuo nas pre­ten­sões de ex­pan­são. Fes­ti­vais que che­ga­ram a reu­nir 179 mil pes­so­as, co­mo o SWU, su­mi­ram da gra­de de pro­gra­ma­ção do ano (à re­por­ta­gem, os or­ga­ni­za­do­res ga­ran­ti­ram es­sa se­ma­na que de­ve vol­tar). Ob­ser­va­do­res já an­te­ve­em uma crise na área.

O pri­mei­ro gran­de show do ano, o de Bob Dy­lan, em abril, já de­mons­tra­va que ha­ve­ria si­nais de fa­di­ga na re­la­ção fã-ído­lo. No Rio de Ja­nei­ro, a ca­sa de es­pe­tá­cu­los Ci­ti­bank Hall, que abri­gou o show do cantor, ven­dia in­gres­sos a até R$ 900. Re­sul­ta­do: o lo­cal es­ta­va so­men­te com dois ter­ços de sua ca­pa­ci­da­de ocu­pa­dos (o in­gres­so mais ba­ra­to es­ta­va a R$ 500).

No dia 9 de no­vem­bro, no Rio de Ja­nei­ro, Lady Ga­ga de­mons­trou não ser to­tal­men­te ali­e­na­da à si­tu­a­ção do show biz. “Eu sei o quan­to são ca­ros os in­gres­sos do meu show. Eu agra­de­ço aos que vi­e­ram, gas­ta­ram seu di­nhei­ro e pa­ga­ram es­se pre­ço”, afir­mou a can­to­ra, du­ran­te sua apre­sen­ta­ção no Par­que dos Atle­tas. O show re­ce­beu cer­ca de 40 mil pes­so­as (ini­ci­al­men­te, a em­pre­sa pro­mo­to­ra es­pe­ra­va 90 mil), pú­bli­co que só foi pos­sí­vel após uma pro­mo­ção re­lâm­pa­go que da­va di­rei­to a com­prar um in­gres­so e le­var ou­tro de pre­sen­te.

Foi na Amé­ri­ca do Nor­te que se fi­ze­ram sen­tir os pri­mei­ros sin­to­mas de que al­go vai mal no rei­no do show biz. Em ju­lho, o ba­lan­ço do pri­mei­ro se­mes­tre de shows nos Es­ta­dos Uni­dos e Ca- na­dá, di­vul­ga­do em ju­lho pe­la pu­bli­ca­ção Polls­tar, li­ga­va o si­nal de aler­ta. Ali, ape­sar de se de­tec­tar que ha­via um cres­ci­men­to do fa­tu­ra­men­to nos shows (de 1,2% so­bre o mes­mo pe­río­do do ano an­te­ri­or), o Polls­tar de­tec­ta­ra ter ha­vi­do tam­bém que­da de 9,4% no pre­ço mé­dio do in­gres­so (o mais bai­xo des­de 2007).

Ou se­ja: as em­pre­sas nor­te­a­me­ri­ca­nas de shows já ti­nham ca­li­bra­do seus pre­ços e au­men­ta­do o nú­me­ro de ci­da­des em que seus ar­tis­tas fa­ri­am shows. “A in­dús­tria apa­ren­ta ter fei­to al­guns ajus­tes bem-su­ce­di­dos, e que me­lhor re­fle­tem as re­a­li­da­des econô­mi­cas atu­ais”, ana­li­sou Gary Bon­gi­o­van­ni, edi­tor­che­fe do si­te Polls­tar. “Co­lo­can­do de for­ma sim­ples, os pre­ços dos in­gres­sos bai­xa­ram e o ta­ma­nho das tur­nês au­men­ta­ram. Pa­ra man­ter os ga­nhos, mui­tos ar­tis­tas es­tão fa­zen­do mais shows. O Top 100 das tur­nês na Amé­ri­ca do Nor­te mos­tra um to­tal com­bi­na­do de 2.822 ci­da­des, o que re­pre­sen­ta 17,4% aci­ma do nú­me­ro de 2011; fo­ram in­cluí­das 420 no­vas ci­da­des”.

O mer­ca­do na­ci­o­nal pre­ci­sa achar sua pró­pria fór­mu­la de so­bre­vi­vên­cia se qui­ser con­ti­nu­ar cres­cen­do - e fa­zen­do a Amé­ri­ca La­ti­na cres­cer. O Bra­sil é res­pon­sá­vel por 76% do mer­ca­do de shows in­ter­na­ci­o­nais, an­te 16% da Ar­gen­ti­na e 8% do Chi­le. Pa­ra a mai­or em­pre­sa do ra­mo, a T4F, o ano de 2011 foi de re­cor­des: re­a­li­zou 396 apre­sen­ta­ções de mú­si­ca ao vi­vo, com mais de 2 mi­lhões de in­gres­sos ven­di­dos (um cres­ci­men­to de 14% so­bre as 348 apre­sen­ta­ções e 1,8 mi­lhão de in­gres­sos de 2010). Os nú­me­ros de 2012 não es­tão fe­cha­dos, mas não de­vem re­pe­tir o êxi­to.

A em­pre­sa XYZ Li­ve re­a­li­zou no mês pas­sa­do o show do Kiss com pú­bli­co ra­zoá­vel (mas não com o Anhem­bi lotado). O Kiss, há pou­co tem­po, co­lo­cou 40 mil no mes­mo lo­cal, e ago­ra só reu­niu 25 mil pes­so­as. Mas a em­pre­sa es­tá lon­ge de se res­sen­tir de crise: fez uma tur­nê bem-su­ce­di­da de J-Lo (e ou­tra cen­te­na de es­pe­tá­cu­los) es­te ano e já pos­sui mais de 100 fun­ci­o­ná­ri­os e 2 mil co­la­bo­ra­do­res.

O pa­no­ra­ma de in­fla­ção nos pre­ços de in­gres­sos já ti­nha si­do apon­ta­do em re­por­ta­gem do jor­nal O Es­ta­do de S. Pau­lo em 2008, sob o tí­tu­lo “Chu­va de Ci­frões”. Le­van­ta­men­to fei­to pe­la re­por­ta­gem, com­pa­ran­do pre­ços de 1998 e 2008, mos­tra­va que os pre­ços dos in­gres­sos pa­ra shows in­ter­na­ci­o­nais de rock e pop no Bra­sil ti­nham ex­plo­di­do nos úl­ti­mos 10 anos, che­gan­do a ter, em mé­dia, um va­lor qua­tro ve­zes su­pe­ri­or ao que era pra­ti­ca­do em 1998.

O ce­ná­rio que ha­via (e que se con­so­li­dou em qua­tro anos), era o se­guin­te: a si­tu­a­ção fa­li­men­tar da in­dús­tria fo­no­grá­fi­ca ge­rou uma ne­ces­si­da­de de di­ver­si­fi­ca­ção no mun­do da mú­si­ca; em­pre­sá­ri­os mi­gra­ram pa­ra o entretenimento ao vi­vo, que se cons­ti­tuiu num no­vo mer­ca­do; as an­ti­gas gra­va­do­ras pas­sa­ram a usar re­cur­sos ma­ci­ços pa­ra pro­mo­ver tur­nês; e o show pas­sou a ser a prin­ci­pal fon­te de ren­da pa­ra o ar­tis­ta, que não ven­de mais dis­cos (ar­tis­tas de mai­or fa­ma, co­mo Lady Ga­ga e Katy Per­ry, tam­bém em­pres­tam o no­me pa­ra li­nhas de per­fu­me e mo­da).

O ce­ná­rio é de avil­ta­men­to. Shows no Mo­rum­bi, por exem­plo, são pal­co de abu­so de pre­ços de es­ta­ci­o­na­men­tos, tá­xis, ali­men­ta­ção, se­gu­ran­ça.

O fã aca­ba de­sa­ni­man­do.

Divulgação

Ma­don­na, que faz shows no Mo­rum­bi ter­ça e qu­ar­ta: in­só­li­ta pro­mo­ção fez pre­ços caí­rem pe­la me­ta­de

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