Foi-se o po­e­ta do con­cre­to

O Diario do Norte do Parana - - ZOOM - Agên­cia Es­ta­do e Folhapress

re­da­cao@odi­a­rio.com Os­car Ni­e­meyer, 104, morreu na qu­ar­ta-fei­ra, às 21h55, no Rio de Ja­nei­ro.

Ar­qui­te­to de um “jo­go ines­pe­ra­do de re­tas e cur­vas”, co­mo ele mes­mo se de­fi­nia, e “cri­a­dor de Brasília”, co­mo fi­cou co­nhe­ci­do, não re­sis­tiu à ter­cei­ra in­ter­na­ção no ano. A cau­sa da mor­te foi in­fec­ção res­pi­ra­tó­ria. Ele es­ta­va no Hos­pi­tal Sa­ma­ri­ta­no des­de 2 de no­vem­bro.

Em maio, quan­do en­fren­tou 16 di­as de in­ter­na­ção por con­ta de de­si­dra­ta­ção e de uma pneu­mo­nia, di­vi­diu o hos­pi­tal com a úni­ca fi­lha, a tam­bém ar­qui­te­ta e ga­le­ris­ta An­na Maria Ni­e­meyer, 82, que morreu em ju­nho, com en­fi­se­ma pul­mo­nar.

A mor­te da fi­lha o aba­teu. A in­ter­na­ção acon­te­ceu um dia depois de um lei­lão em que foi ven­di­da par­te das obras de An­na.

Vi­da

Nas­ci­do no Rio em 15 de de­zem­bro de 1907, Os­car Ri­bei­ro de Al­mei­da de Ni­e­meyer So­a­res tra­ba­lhou na ti­po­gra­fia do pai e for­mou-se em ar­qui­te­tu­ra em 1934, pe­la Es­co­la Na­ci­o­nal de Be­las Ar­tes. Co­me­çou co­mo es­ta­giá­rio no es­cri­tó­rio de Lú­cio Cos­ta e Car­los Leão.

Ca­sou-se com An­ni­ta Bal­do quan­do ti­nha 21 anos e fi­cou viú­vo em 2004. Uniu-se à se­cre­tá­ria Ve­ra Lú­cia Ca­brei­ra 2 anos mais tar­de. Dei­xa cin­co ne­tos, 13 bis­ne­tos e qua­tro tri­ne­tos.

Ateu con­vic­to, en­ca­ra­va a mor­te com na­tu­ra­li­da­de: “Sem­pre vi o hu­ma­no frá­gil e des­pro­te­gi­do no ca­mi­nho ine­vi­tá­vel pa­ra a mor­te...”

O pri­mei­ro pro­je­to in­di­vi­du­al foi o edi­fí­cio Obra do Ber­ço, no Rio, em 1937, no qual já mos­trou ca­rac­te­rís­ti­cas que mar­ca­ri­am seus tra­ba­lhos, co­mo plan­tas e fa­cha­das li­vres, in­fluên­ci­as da ar­qui­te­tu­ra mo­der­na e do fran­cês Le Cor­bu­si­er. Em 1939, pro­je­tou o Pa­vi­lhão Bra­si­lei­ro na Fei­ra Mun­di­al de No­va York, ao la­do de Lú­cio Cos­ta. Em 1946, foi um dos con­vi­da­dos a cons­truir a se­de da Or­ga­ni­za­ção das Na­ções Uni­das (ONU).

A obra-pri­ma foi o pla­no pi­lo­to de Brasília, inau­gu­ra­da em 1960 pe­lo en­tão pre­si­den­te Jus­ce­li­no Ku­bits­chek. Tra­ba­lhan­do com Lú­cio Cos­ta, pro­je­tou os edi­fí­ci­os do Pa­lá­cio da Al­vo­ra­da, re­si­dên­cia ofi­ci­al da Pre­si­dên­cia da República, Con­gres­so Na­ci­o­nal, Ca­te­dral e Es­pla­na­da dos Mi­nis­té­ri­os, que de­ram fa­ma in­ter­na­ci­o­nal à ci­da­de.

Co­nhe­ci­do pe­la de­fe­sa da cau­sa co­mu­nis­ta, foi per­se­gui­do du­ran­te a di­ta­du­ra mi­li­tar e de­ci­diu se exi­lar em Pa­ris. Foi ami­go pes­so­al de Luís Car­los Pres­tes e do lí­der cu­ba­no Fi­del Castro. Na ca­pi­tal fran­ce­sa, abriu um es­cri­tó­rio e fez pro­je­tos no país, na Ar­gé­lia e em Por­tu­gal. De vol­ta ao Bra­sil, nos anos 80, pro­je­tou no Rio o sam­bó­dro­mo e par­ti­ci­pou de pro­je­tos edu­ca­ci­o­nais e cul­tu­rais de Darcy Ri­bei­ro. Em 1996, inau­gu­rou o Mu­seu de Ar­te Con­tem­po­râ­nea de Ni­te­rói, e, em 2002, o Mu­seu Os­car Ni­e­meyer, em Cu­ri­ti­ba, co­nhe­ci­do co­mo o Mu­seu do Olho.

Ao lon­go da vi­da, as­si­nou cer­ca de 500 obras nas prin­ci­pais ci­da­des bra­si­lei­ras e em paí­ses co­mo Lí­ba­no, Ale­ma­nha, In­gla­ter­ra, Es­pa­nha, Is­ra­el e Itá­lia. Re­ce­beu di­ver­sos prê­mi­os, en­tre eles o Prê­mio Pritz­ker de Ar­qui­te­tu­ra, Prê­mio Unesco, na ca­te­go­ria Cul­tu­ra, Royal Gold Me­dal do Royal Ins­ti­tu­te of Bri­tish Architects, Prê­mio Leão de Ou­ro da Bi­e­nal de Ve­ne­za e Me­da­lha de Ou­ro da Aca­de­mia de Ar­qui­te­tu­ra de Pa­ris.

Ni­e­meyer foi ve­la­do on­tem no Pa­lá­cio do Pla­nal­to. Ho­je o cor­po vol­ta ao Rio, on­de fi­ca por al­gu­mas ho­ras no Pa­lá­cio da Ci­da­de. O en­ter­ro se­rá à tar­de, no Ce­mi­té­rio São João Ba­tis­ta.

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