RO­DRI­GO PAR­RA

Pra­zer, meu no­me é Co­rinthi­ans

O Diario do Norte do Parana - - ESPORTES -

Te­nho ami­gos que tor­cem pros mais di­ver­sos ti­mes. Te­nho ami­gos são-pau­li­nos, pal­mei­ren­ses, san­tis­tas, fla­men­guis­tas, vas­caí­nos e gre­mis­tas. São to­dos tor­ce­do­res de gran­des clu­bes. To­dos têm su­as his­tó­ri­as (os ami­gos e os clu­bes) ven­ce­do­ras. E há en­tre to­dos eles uma coin­ci­dên­cia: um gran­de no­me acom­pa­nhan­do as gran­des con­quis­tas. Os são-pau­li­nos, além de jo­ga­do­res co­mo Raí e Ro­gé­rio Ce­ni, têm tam­bém o Te­lê San­ta­na co­mo ído­los. Os pal­mei­ren­ses con­tam com o ilus­tre Ade­mir da Guia. Os san­tis­tas, bom, es­ses são im­ba­tí­veis: Pe­lé, Ro­bi­nho e, ago­ra, Ney­mar. No Fla­men­go, o Ga­li­nho de Quin­ti­no, Zi­co, é um semideus. Os vas­caí­nos en­chem a bo­ca pa­ra fa­lar de Ro­ber­to Di­na­mi­te e Ro­má­rio. Os su­lis­tas lem­bram o 7 de Renato Gaú­cho. To­dos, ao seu tem­po e épo­ca, fi­ze­ram his­tó­ria. E es­sas his­tó­ri­as es­tão li­ga­das às con­quis­tas. Mas sou de ou­tra es­pé­cie. Não per­ten­ço à ca­te­go­ria dos que têm ído­los. Per­ten­ço à es­pé­cie

iden­ti­fi­ca­da pe­la for­ma úni­ca de tor­cer, de vi­brar, de fa­lar, de se ves­tir e, prin­ci­pal­men­te, de se lo­co­mo­ver. Sou da es­pé­cie co­nhe­ci­da pe­la ca­pa­ci­da­de de mo­bi­li­za­ção, de emo­ção. Sou da es­pé­cie que não vi­ve de tí­tu­los, em­bo­ra os ache sa­bo­ro­sos. Sou da es­pé­cie que in­va­de ci­da­des, es­ta­dos e paí­ses. Sou Co­rinthi­ans, e sou mais eu. Pe­ço des­cul­pas aos ami­gos de ou­tras agre­mi­a­ções, mas não tem com­pa­ra­ção. Sei que vo­cês vão di­zer que so­mos me­ga­lo­ma­nía­cos, tudo bem, a his­tó­ria es­tá aí pra di­zer o con­trá­rio. E é uma his­tó­ria anô­ni­ma. Não, eu não que­ro apa­gar as de­fe­sas de Cás­sio, a se­gu­ran­ça de Chi­cão e Pau­lo André, a pro­te­ção de Ralf, a cadência de Da­ni­lo, a oni­pre­sen­ça de Jorge Hen­ri­que, a in­te­li­gên­cia de Pau­li­nho e a es­to­ca­da de Guer­rei­ro. Sou de es­pé­cie úni­ca. So­mos Co­rinthi­ans, te­mos um ti­me, não tor­ce­mos pa­ra o ti­me, nos mis­tu­ra­mos a ele, so­mos o 12º jo­ga­dor e, mes­mo sem jo­gar, es­cre­ve­mos a his­tó­ria. Foi as­sim em 1976, na pri­mei­ra in­va­são, com 70 mil lou­cos no Ma­ra­ca­nã. Que ti­me era aque­le do Flu­mi­nen­se. Mas era só um ti­me. O Co­rinthi­ans não, em­pur­ra­do por sua es­pé­cie, ele rom­pe as bar­rei­ras do acei­tá­vel, do plau­sí­vel, pra sem­pre es­cre­ver no cam­po do ab­sur­do. Em 2000 fo­ram 25 mil. O ti­me era bom. Mas, sem a nos­sa for­ça, erá só um bom ti­me. Fo­ram os nos­sos gri­tos que fi­ze­ram fu­gir a bo­la de Ed­mun­do. E ago­ra, en­tão? O que di­zer de Yo­koha­ma, no Ja­pão? Não fos­se pe­los lou­cos, se­ría­mos ape­nas um ti­me a ser ba­ti­do. E ti­me o Xéus­si tem, mas só ti­me é pou­co. Po­si­ção por po­si­ção, eles qua­se ga­nham em to­das. Mas a mís­ti­ca da ca­mi­sa pe­sa em de­ci­sões e, nes­sas ho­ras, fa­ze­mos a di­fe­ren­ça. Aqui e em qual­quer lu­gar. Que o di­gam os ja­po­ne­ses e in­gle­ses. Con­tra o Al Ahly, cer­ca de 20 mil. Con­tra o Xéus­si, mais 30 mil. A ima­gem da pon­te de aces­so ao es­tá­dio, das ar­qui­ban­ca­das, não dei­xa dú­vi­das. Aqui é Co­rinthi­ans, mes­mo que es­se aqui es­te­ja a 18 mil quilô­me­tros da ter­ra que­ri­da, do aben­ço­a­do Bom Re­ti­ro, on­de, em 1910, nu­ma pa­da­ria, à luz de um lam­pião, um cer­to Miguel Ba­ta­glia deu iní­cio a uma pai­xão sem pre­ce­den­tes na his­tó­ria. Iro­nia do des­ti­no, de Ba­ta­glia a Guer­rei­ro, mui­tas lu­tas fo­ram tra­va­das, já saí­mos cam­ba­le­an­do, atin­gi­dos, ma­chu­ca­dos, per­de­mos, mas nun­ca nos sen­ti­mos der­ro­ta­dos. Apren­de­mos so­fren­do que ser co­rinthi­a­no é mui­to mais que tor­cer pra um ti­me de fu­te­bol. Ho­je, bra­ços aber­tos em co­mu­nhão. A na­ção es­pe­ra os mi­lha­res de sa­mu­rais que fi­ze­ram o tsu­na­mi al­vi­ne­gro. Os he­rois que mos­tra­ram ao mun­do o que é Ser Co­rinthi­ans. Os ja­po­ne­ses da se­cu­ra e dos há­bi­tos rí­gi­dos se en­can­ta­ram com o ban­do de lou­cos. Abri­ram ex­ce­ções pra que o man­tra ‘Vai, Cu­rín­tia’ cor­tas­se o frio e es­quen­tas­se tím­pa­nos sen­sí­veis. A mar­cha rui­do­sa e pa­cí­fi­ca en­tra pa­ra a his­tó­ria. Ti­mes são mon­ta­dos e des­mon­ta­dos a ca­da tem­po­ra­da. Tí­tu­los são per­di­dos e con­quis­ta­dos to­dos os anos. Cra­ques sur­gem vez ou ou­tra. Jo­ga­do­res ha­bi­li­do­sos sem­pre vão bro­tar dos rin­cões de ter­ra das que­bra­das mun­do afo­ra. Ti­mes vão ser cri­a­dos, ou­tros vão su­mir. O fu­te­bol vai ter al­tos e bai­xos, vai dar tris­te­zas e ale­gri­as. Mas es­se 16 de de­zem­bro de 2012 en­tra pra his­tó­ria co­mo úni­co. O dia em que o sol nas­ceu pre­to pro Mon­ti Fu­ji fi­car al­vi­ne­gro. Sa­ra­vá, São Jorge, Sa­ra­vá.

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