Fa­mí­lia fez his­tó­ria no nor­te

O Diario do Norte do Parana - - AGRONEGÓCIO -

Os mu­ni­cí­pi­os do nor­te e no­ro­es­te do Pa­ra­ná têm o ca­fé co­mo a ba­se de sua his­tó­ria. Em Pri­mei­ro de Maio, que fi­ca às mar­gens do Rio Pa­ra­na­pa­ne­ma, no nor­te do Es­ta­do, a fa­mí­lia Agos­ti­ne­te foi uma das mui­tas que cons­truí­ram su­as vi­das a par­tir do plan­tio de ca­fé - cul­tu­ra que, por ou­tro la­do, impôs so­fri­men­to a mui­tas de­las. Do­na Maria, 77 anos, ain­da vi­ve em Bar­ra Bo­ni­ta, uma gle­ba que, du­ran­te dé­ca­das, foi im­por­tan­te po­lo pro­du­tor e tam­bém uma das re­giões mais po­pu­lo­sas do mu­ni­cí­pio. Mas os ca­fe­zais per­de­ram lu­gar pa­ra as cul­tu­ras me­ca­ni­za­das e o po­vo foi em­bo­ra pa­ra as ci­da­des. Só os Agos­ti­ne­te con­ti­nu­am ali, fiéis à tra­di­ção.

Ca­sa­da em 1955, do­na Maria le­vou um gran­de ba­que em 1968, ao la­do de seus seis fi­lhos pe­que­nos. Por uma des­sas sur­pre­sas do des­ti­no, o co­ra­ção de Flo­rin­do, seu ma­ri­do, pa­rou de ba­ter após um dia nor­mal na la­vou­ra. Em vez de en­tre­gar os pon­tos, a mu­lher mos­trou a fi­bra de tra­ba­lha­do­ra e tam­bém o va­lor de mãe, lem­bran­do que o sí­tio de ape­nas 1,5 al­quei­re de ca­fé - on­de ha­bi­ta­vam um pe- que­no ran­cho - era li­mi­ta­do de­mais pa­ra o sus­ten­to da fa­mí­lia.

“Com 9 anos eu já era o ho­mem da ca­sa”, con­ta o fi­lho Luiz, que em com­pa­nhia da mãe e dos irmãos, tra­ba­lha­va na pró­pria ter­ra e ia com­ple­men­tar a ren­da fa­zen­do diá­ri­as em pro­pri­e­da­des vi­zi­nhas. “Qu­em não aguen­ta­va o pe­so da en­xa­da pe­lo me­nos fi­ca­va por per­to, aju­dan­do on­de podia”, diz, lem­bran­do que um dos irmãos, qua­se um re­cém­nas­ci­do, era man­ti­do de­bai­xo de um ca­fe­ei­ro em uma ces­ta de bam­bu. Es­sa era a gen­te do ca­fé.

Em 1975, quan­do con­se­gui­ram com­prar mais ter­ras e am­pli­ar as la­vou­ras, veio a ge­a­da ne­gra. O úni­co jei­to foi par­tir pa­ra ou­tros negócios, sob pe­na de per­de­rem tudo.

Os me­ni­nos cres­ce­ram e se tor­na­ram pro­du­to­res bem-su­ce­di­dos. Ho­je li­dam com so­ja, mi­lho e pe­cuá­ria. Na­da de ca­fé. Luiz lem­bra que a mãe foi sem­pre bem dis­pos­ta e lu­tou mui­to na ca­fei­cul­tu­ra, mas a vi­da só me­lho­rou mes­mo quan­do pas­sa­ram a li­dar com al­go­dão, la­vou­ra que to­mou o lu­gar dos ca­fe­zais quei­ma­dos pe­lo frio. Mar­ca re­gis­tra­da do Bra­sil, o ca­fé é um dos pro­du­tos que, his­to­ri­ca­men­te, têm se des­ta­ca­do na ba­lan­ça co­mer­ci­al. Só es­te fa­to é su­fi­ci­en­te pa­ra jus­ti­fi­car, se­gun­do es­pe­ci­a­lis­tas, a im­por­tân­cia de um es­for­ço con­ju­ga­do da pes­qui­sa agrí­co­la, ca­deia pro­du­ti­va e se­tor ex­por­ta­dor pa­ra que o país não ape­nas pre­ser­ve sua par­ti­ci­pa­ção, mas a tor­ne ain­da mai­or no mer­ca­do mun­di­al.

Em 2012, a pro­du­ção glo­bal, se­gun­do a Or­ga­ni­za­ção In­ter­na­ci­o­nal do Ca­fé (OIC), foi de cer­ca de 144,5 mi­lhões de sa­cas de 60 kg. Des­se to­tal, o Bra­sil pro­du­ziu mais de 50,8 mi­lhões, se­gui­do pe­lo Vi­et­nã (22 mi­lhões), In­do­né­sia (10,9 mi­lhões), Colôm­bia (8 mi­lhões) e ain­da pe­que­nas quan­ti­da­des de Etiópia, Hon­du­ras, Ín­dia, Mé­xi­co e ou­tros paí­ses. Pa­ra es­te ano, a pre­vi­são bra­si­lei­ra é che­gar a 57 mi­lhões de sa­cas, das quais qua­se 20 mi­lhões des­ti­na­das ao mer­ca­do in­ter­no.

De ca­da três xí­ca­ras de ca­fé con­su­mi­das no mun­do, uma é de ori­gem bra­si­lei­ra. A pro­du­ção de ca­fé no Bra­sil res­pon­de por cer­ca de um ter­ço da mun­di­al, o que faz do país o mai­or pro­du­tor e ex­por­ta­dor, sen­do tam­bém o se­gun­do mai­or con­su­mi­dor, depois dos EUA.

Gran­de par­te des­se de­sem­pe­nho pro­du­ti­vo po­de ser atri­buí­do ao tra­ba­lho ini­ci­a­do há qua­se du­as dé­ca­das por de­ze­nas de ins­ti­tui­ções de pes­qui­sa, en­si­no e ex­ten­são, co­or­de­na­das pe­la Em­bra­pa Ca­fé. Des­de en­tão, a ini­ci­a­ti­va vem mu­dan­do po­si­ti­va­men­te o ce­ná­rio da ca­fei­cul­tu­ra na­ci­o­nal. No fi­nal dos anos 90, o Bra­sil pos­suía 2,3 mi­lhões de hec­ta­res de área cul­ti­va­da, com uma pro­du­ti­vi­da­de de 12 sa­cas por hec­ta­re e pro­du- ção de 27, 5 mi­lhões de sa­cas. Em 2012, com pra­ti­ca­men­te a mes­ma área, o país sal­tou pa­ra 24 sa­cas/ha e uma pro­du­ção de 50,8 mi­lhões de sa­cas, se­gun­do da­dos ofi­ci­ais da Com­pa­nhia Na­ci­o­nal de Abas­te­ci­men­to (Co­nab).

As ex­por­ta­ções bra­si­lei­ras de ca­fé em 2012, de acor­do com o Con­se­lho dos Ex­por­ta­do­res de Ca­fé do Bra­sil - Ceca­fé, ge­ra­ram re­cei­ta de US$ 6,4 bi­lhões, me­nor que a do ano an­te­ri­or, que re­gis­trou re­cor­de de US$ 8,7 bi­lhões. O país é o cam­peão mun­di­al de ex­por­ta­ção do pro­du­to.

Com­pe­ti­ti­vi­da­de

Na opi­nião do di­re­tor-ge­ral do Ceca­fé, Gui­lher­me Bra­ga, o se­tor per­deu com­pe­ti­ti­vi­da­de em 2012 em ra­zão da for­te bai­xa das co­ta­ções no mer­ca­do in­ter­na­ci­o­nal. Nem mes­mo a re­du­ção de 3,7 mi­lhões de sa­cas da ofer­ta bra­si­lei­ra se re­fle­tiu em al­ta dos pre­ços, se­gun­do ele, ape­sar dos bai­xos es­to­ques. Bra­ga es­ti­ma que, es­te ano, os vo­lu­mes de ex­por­ta­ção de­vem se re­cu­pe­rar, com au­men­tos já no pri­mei­ro se­mes­tre, e che­gar a mon­tan­tes pró­xi­mos de 32 mi­lhões de sa­cas.

O di­re­tor-ge­ral lem­bra que dos gran­des con­su­mi­do­res mun­di­ais de ca­fé - União Eu­ro­péia, Es­ta­dos Uni­dos e Ja­pão - fo­ram jus­ta­men­te os paí­ses mais atin­gi­dos pe­la crise econô­mi­ca de 2008 e anos se­guin­tes. A di­fi­cul­da­de fi­nan­cei­ra le­vou à subs­ti­tui­ção do con­su­mo de rua, mais ca­ro, pe­lo dos do­mi­cí­li­os. Is­so afe­tou o vo­lu­me glo­bal dos ca­fés es­pe­ci­ais, que re­cu­ou nos úl­ti­mos anos.

Ro­gé­rio Rec­co

Prá­ti­cas mo­der­nas ga­ran­tem mais pro­du­ti­vi­da­de às la­vou­ras; ex­pec­ta­ti­va do se­tor é re­to­mar ex­por­ta­ção e che­gar a 32 mi­lhões de sa­cas es­te ano

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil

© PressReader. All rights reserved.