Adeus a uma

Jor­na­lis­ta Tel­mo Mar­ti­no, que bri­lhou nos anos 70 e 80 na im­pren­sa cul­tu­ral pau­lis­ta­na por seu es­ti­lo bem-hu­mo­ra­do, mor­re aos 82 anos no Rio

O Diario do Norte do Parana - - O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ - Folhapress

re­da­cao@odi­a­rio.com O jor­na­lis­ta Tel­mo Mar­ti­no mor­reu na ma­dru­ga­da de on­tem, aos 82 anos, no Hos­pi­tal Sa­moc, no cen­tro do Rio, de com­pli­ca­ções de­cor­ren­tes de uma pneu­mo­nia. Mar­ti­no es­ta­va in­ter­na­do no hos­pi­tal des­de o dia 22 de agos­to. O jor­na­lis­ta nas­ceu no Rio, no bair­ro de Bo­ta­fo­go, no dia 10 de ja­nei­ro de 1931. Es­tu­dou no Co­lé­gio San­to Iná­cio, on­de foi co­le­ga de Pau­lo Fran­cis, três me­ses mais ve­lho. For­mou-se em Di­rei­to, mas nun­ca exer­ceu.

Em 1953, jun­tou-se co­mo ator a um grupo ama­dor de te­a­tro, o Stu­dio 53, de Car­los Al­ber­to (ir­mão de Ro­sa­ma­ria) Mur­ti­nho, que, du­ran­te uma tem­po­ra­da, apre­sen­tou três pe­ças de um ato, sem­pre às se­gun­das-fei­ras, no Te­a­tro de Bol­so de Sil­vei­ra Sam­paio, na pra­ça Ge­ne­ral Osó­rio, em Ipa­ne­ma. Ali re­en­con­trou Pau­lo Fran­cis, que cui­da­va da bi­lhe­te­ria, e co­nhe­ceu Ivan Lessa. Os três se tor­na­ram gran­des ami­gos. No fu­tu­ro, se­ri­am sem­pre ci­ta­dos jun­tos co­mo mo­de­los de um jor­na­lis­mo crí­ti­co, cul­to e so­fis­ti­ca­do.

De 1955 a 1967, Tel­mo tra­ba­lhou co­mo re­da­tor nos ser­vi­ços de trans­mis­são ra­di­ofô­ni­ca para o Bra­sil da BBC, em Lon­dres; de­pois, da Voz da Amé­ri­ca, em Washing­ton; e, de no­vo, da BBC. Em 1958, quan­do foi lan­ça­da a re­vis­ta “Se­nhor”, di­ri­gi­da por Fran­cis e a con­vi­te des­te, co­la­bo­rou es­po­ra­di­ca­men­te com uma “Car­ta de Lon­dres”, em que re­se­nha­va o mo­vi­men­to cul­tu­ral bri­tâ­ni­co. Em 1967, de vol­ta ao Rio, foi cha­ma­do por Fran­cis a in­te­grar a equi­pe da no­va re­vis­ta “Di­ners”, de que fa­zi­am par­te jo­vens co­mo Ruy Cas­tro, Al­fre­do Gri­e­co e Fla- vio Ma­ce­do Soares.

Com o fim da “Di­ners”, em 1969, Tel­mo foi para a “Ul­ti­ma Ho­ra” e, de­pois, para o “Cor­reio da Ma­nhã”, on­de es­cre­via uma pá­gi­na de no­tas cáus­ti­cas e hi­la­ri­an­tes, as­si­na­da por Daniel Más. Por cau­sa des­sas no­tas, que sa­cu­di­am a ci­da­de, foi convidado em 1971 por Mu­ri­lo Felisberto a trans­fe­rir­se para o “Jor­nal da Tar­de”, em São Pau­lo, e es­cre­ver uma co­lu­na com seu­pró­pri­o­no­me.

Ce­le­bri­da­de pau­lis­ta­na

Pe­los 15 anos se­guin­tes (com um bre­ve in­ter­va­lo no tam­bém bre­ve “Jor­nal da Re­pú­bli­ca”), Tel­mo foi uma mar­ca do “Jor­nal da Tar­de”. Tor­nou-se uma ce­le­bri­da­de pau­lis­ta­na, prin­ci­pal­men­te na área dos Jar­dins - e sua pa­la­vra de apro­va­ção (ou não) pas­sou a ser in­dis­pen­sá­vel para a mai­o­ria dos ato­res, can­to­res, es­cri­to­res e ar­tis­tas plás­ti­cos de São Pau­lo. Con­tra ou a fa­vor,era­pre­ci­so­ser­ci­ta­do­po­re­le.

Washing­ton Oli­vet­to, Faus­to Sil­va, Rita Lee, Glo­ri­nha Ka­lil, Cos­tan­za Pas­co­lat­to, Be­a­triz Se­gall e Os­mar Santos eram dos poucos que ele elo­gi­a­va cons­tan­te­men­te.

Mui­tos re­ce­bi­am ape­li­dos e de­fi­ni­ções que eram re­pe­ti­dos nos res­tau­ran­tes e sa­raus. El­ba Ra­ma­lho era a Gra­lha do Agres­te, Te­tê Es­pín­do­la era a Si­re­ne do Apo­ca­lip­se. Os ar­tis­tas, grã­fi­nos ou ape­nas ri­cos o dis­pu­ta­vam para fes­tas e reu­niões, mas Tel­mo foi tam­bém fi­si­ca­men­te agre­di­do por pes­so­as que se jul­ga­vam ri­di­cu­la­ri­za­das por ele no jor­nal.

Em fins dos anos 80, so­freu um AVC (aci­den­te vas­cu­lar-ce­re­bral), que o aba­teu por al­gum tem­po. Por coin­ci­dên­cia ou não - os tem­pos e a im­pren­sa eram ou­tros -, sua co­lu­na dei­xou de pro­du­zir o in­te­res­se que a tor­na­ra de lei­tu­ra in­dis­pen­sá­vel. Tel­mo al­ter­nou tem­po­ra­das em São Pau­lo com vol­tas ao Rio e tra­ba­lhou em di­ver­sos veí­cu­los nas du­as ci­da­des. Man­te­ve uma co­lu­na se­ma­nal de te­le­vi­são na Fo­lha en­tre 1998 e 2000.

Seu úl­ti­mo em­pre­go foi no si­te “Babado” do por­tal Ig, on­de es­cre­veu uma co­lu­na que não pri­mou pe­la re­gu­la­ri­da­de.

De­pres­são

Fi­xan­do-se de vez no Rio a par­tir de 2000, Tel­mo afas­tou-se dos ami­gos, re­fu­gi­ou-se nos vá­ri­os apar­ta­men­tos em que mo­rou (sem­pre de alu­guel e no bair­ro do Fla­men­go) e dei­xou que a de­pres­são se ins­ta­las­se.

Po­dia pas­sar me­ses sem sair de ca­sa, dor­min­do de dia e ven­do TV de ma­dru­ga­da. Nos úl­ti­mos tem­pos, ti­nha di­fi­cul­da­de de lo­co­mo­ção.

Os poucos que ain­da o pro­cu­ra­vam no­ta­ram que sua me­mó­ria já não era a mes­ma. A saú­de de­cli­nou ain­da mais e Tel­mo mor­reu na ma­dru­ga­da des­ta ter­ça-fei­ra. Nun­ca se ca­sou e não te­ve fi­lhos.

Ro­sa­ne Ma­ri­nho/folhapress

Tel­mo Mar­ti­no (1931-2013): re­fe­rên­cia no mun­do ar­tís­ti­co pau­lis­ta­no nos anos 70 até me­a­dos dos 80, aca­bou solitário e de­pri­mi­do, no Rio

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