Ban­co de Os­sos ti­nha cli­en­tes em seis Es­ta­dos

Den­tis­tas do Pa­ra­ná, San­ta Ca­ta­ri­na, Pa­rá, Mi­nas Ge­rais, Goiás e Ma­to Gros­so com­pra­vam pro­du­tos da es­tru­tu­ra clan­des­ti­na, que a Po­lí­cia fe­chou em Lon­dri­na

O Diario do Norte do Parana - - REGIÃO - Pau­li­ne Al­mei­da

odi­a­rio.com/Lon­dri­na O ban­co clan­des­ti­no de os­sos fe­cha­do na zo­na sul de Lon­dri­na (a 104 quilô­me­tros de Ma­rin­gá), nes­sa ter­ça-fei­ra, pe­lo Nú­cleo de Re­pres­são aos Cri­mes con­tra a Saú­de (Nu­cri­sa), ti­nha co­mo cli­en­tes den­tis­tas do Pa­ra­ná e dos Es­ta­dos de San­ta Ca­ta­ri­na, Pa­rá, Mi­nas Ge­rais, Goiás e Ma­to Gros­so. Os ir­mãos, Klé­ber e Car­lo Keith Bar­ro­so Ca­val­ca, es­tão pre­sos na 10ª Sub­di­vi­são Po­li­ci­al.

On­tem pe­la ma­nhã, a de­le­ga­da do Nu­cri­sa, Sa­mia Co­ser, apre­sen­tou os ba­lan­ço da ope­ra­ção de­sen­ca­de­a­da em Lon­dri­na. Fo­ram apre­en­di­dos em uma ca­sa do Jar­dim Cláu­dia, on­de fun­ci­o­na­va o ban­co, e em um apar­ta­men­to da Gle­ba Pa­lha­no, ca­sa de Klé­ber, 16 ca­be­ças de fê­mur in na­tu­ra, 89 fras­cos com pe­da­ços de os­sos em blo­co, 46 fras­cos com os­so moí­do mis­tu­ra­do com so­ro fi­si­o­ló­gi­co, se­te em­ba­la­gens com par­tí­cu­las de os­sos e uma com frag­men­tos de os­sos do qua­dril.

A Agên­cia Na­ci­o­nal de Vi­gi­lân­cia Sa­ni­tá­ria (An­vi­sa) e a Vi­gi­lân­cia Es­ta­du­al pro­cu­ra­ram a Po­lí­cia Ci­vil en­tre os me­ses de abril e maio de 2013, após re­ce­be­rem de­nún­ci­as de que um ban­co clan­des­ti­no fun­ci­o­na­va em Lon­dri­na. A acu­sa­ção che­gou por meio de mé­di­cos que ha­vi­am par­ti­ci­pa­do de um con­gres­so de Or­to­pe­dia, em São Pau­lo, no iní­cio do ano, on­de os ir­mãos mon­ta­ram um es­tan­de para fa­zer pro­pa­gan­da do ne­gó­cio.

Os pro­fis­si­o­nais fo­ram pro­cu­rar mais in­for­ma­ções so­bre o ban­co e des­co­bri­ram que ele não era ca­das­tra­do jun­to aos re­gu­la­do­res da do­a­ção de ór­gãos e te­ci­dos. Além dos ir­mãos, um ter­cei­ro mo­ra­dor de Lon­dri­na está en­vol­vi­do no es­que­ma. Ele com­pra­va o ma­te­ri­al dos de­ti­dos por um pre­ço mais ba­ra­to e re­ven­dia a den­tis­tas, po­rém, não foi pre­so, pois re­sol­veu co­la­bo­rar com as in­ves­ti­ga­ções.

Ex­pe­ri­ên­cia

Em 2004, os ir­mãos ha­vi­am pe­di­do au­to­ri­za­ção do Mu­ni­cí­pio de Lon­dri­na para abrir um ban­co de os­sos na San­ta Ca­sa, mas re­ce­be­ram uma ne­ga­ti­va. Klé­ber cur­sou até o se­gun­do ano de Biomedicina e já tra­ba­lhou em um ban­co re­gu­lar em Marília, no in­te­ri­or pau­lis­ta. Além dis­so, o pai dos de­ti­dos é or­to­pe­dis­ta e já foi só­cio de um es­ta­be­le­ci­men­to do gê­ne­ro.

A de­le­ga­da Sa­mia Co­ser afir­mou não ser pos­sí­vel con­fir­mar se o pai está en­vol­vi­do no cri­me, po­rém acre­di­ta que ou­tros pro­fis­si­o­nais de Saú­de te­nham si­do co­ni­ven­tes. “Com cer­te­za, há o en­vol­vi­men­to, por­que eles não te­ri­am co­mo co­le­tar os os­sos sem a par­ti­ci­pa­ção de mais pes­so­as. Ago­ra, a po­lí­cia vai con­ti­nu­ar a in­ves­ti­gar para des­co­brir quem são”, des­ta­cou.

A den­tis­ta da Se­cre­ta­ria de Es­ta­do da Saú­de, Ana Ca­ro­li­na Gon­çal­ves Pin­to, in­for­mou que as ca­be­ças de fê­mur en­con­tra­das, ge­ral­men­te, são re­ti­ra­das de pes­so­as vi­vas. Po­rém, a for­ma co­mo era fei­ta a co­le­ta do ma­te­ri­al ain­da não foi apu­ra­da.

Ma­ca­bro

O ge­ren­te da Vi­gi­lân­cia Sa­ni­tá­ria da Pre­fei­tu­ra de Lon­dri­na, Ro­gé­rio Lam­pe, de­cla­rou que a ce­na en­con­tra­da no Jar­dim Cláu­dia era ma­ca­bra. So­ro fi­si­o­ló­gi­co e li­qui­di­fi­ca­do­res, usa­dos para o pro­ces­sa­men­to dos os­sos, es­ta­vam ao la­do de um va­so sa­ni­tá­rio e pa­pel hi­gi­ê­ni­co usa­do. Qu­a­tro ca­be­ças de fê­mur fo­ram en­con­tra­das no fre­e­zer do apar­ta­men­to de Klé­ber, ao la­do de ali­men­tos.

As con­di­ções pre­cá­ri­as de hi­gi­e­ne le­van­tam o al­to de ris­co de con­ta­mi­na­ção das pes­so­as que re­ce­be­ram os en­xer­tos odon­to­ló­gi­cos, prin­ci­pal des­ti­na­ção dos te­ci­dos. Elas po­dem con­trair do­en­ças co­mo AIDS, sí­fi­lis e he­pa­ti­te. Os ma­te­ri­ais se­rão en­ca­mi­nha­dos ao La­bo­ra­tó­rio Cen­tral do Es­ta­do do Pa­ra­ná (La­cen) para aná­li­se.

A Lei de Trans­plan­te, de 1997, ve­da a prá­ti­ca de co­mer­ci­a­li­za­ção de ór­gãos e te­ci­dos no Bra- sil. Por isso, os ir­mãos res­pon­de­rão pe­lo ar­ti­go 15 e po­dem ser con­de­na­dos a até oi­to anos de re­clu­são. Ago­ra, a Vi­gi­lân­cia Sa­ni­tá­ria e a Po­lí­cia Ci­vil ini­ci­am uma no­va fa­se da in­ves­ti­ga­ção para des­co­brir quem são os den­tis­tas que uti­li­za­vam os os­sos ven­di­dos pe­los pre­sos e co­mo era fei­ta a co­le­ta dos ma­te­ri­ais.

As no­tas fis­cais en­con­tra­das no ban­co de os­sos, de com­pras de ma­te­ri­al para ma­ni­pu­la­ção dos te­ci­dos, in­di­cam que a co­mer­ci­a­li­za­ção ile­gal co­me­çou em 2004.

Di­vul­ga­ção / Po­lí­cia Ci­vil do Pa­ra­ná

Par­te dos pro­du­tos em­ba­la­dos apre­en­di­dos du­ran­te a ope­ra­ção

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