Pi­ca­dei­ro

Negrão Sor­ri­so faz apre­sen­ta­ção, nes­te fim de se­ma­na, em cir­co que le­va seu no­me; per­for­man­ce na ci­da­de é a re­a­li­za­ção de um so­nho

O Diario do Norte do Parana - - O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ - Ana Lui­za Ver­zo­la

ana­ver­zo­la@odi­a­rio.com Tar­de de sex­ta-fei­ra nas ime­di­a­ções do Con­jun­to Bor­ga Ga­to, em Ma­rin­gá. O sol al­to, a tem­pe­ra­tu­ra a 32°C e a mon­ta­gem das ins­ta­la­ções do cir­co pros­se­guia de­bai­xo da ten­da ama­re­la e ver­me­lha. O por­tão da bi­lhe­te­ria, em um tom de azul com a tin­ta já des­cas­ca­da, abre ca­mi­nho pa­ra to­do um ce­ná­rio em cons­tru­ção: em meio aos trai­lers, um vi­ra­la­ta acom­pa­nha­va de per­to to­da a mo­vi­men­ta­ção, e en­tre a fa­mí­lia e fun­ci­o­ná­ri­os reu­ni­dos nas ati­vi­da­des de es­tru­tu­ra­ção, o ter­cei­ro ve­re­a­dor mais vo­ta­do de Ma­rin­gá, Jo­nes Dark de Je­sus (PP), 38, tam­bém con­tri­buía: jo­ga­va cor­da pa­ra cá, car­re­ga­va cai­xas pa­ra lá. Apre­sen­tar-se em um pi­ca­dei­ro na ci­da­de que o aco­lhe des­de 1990 é uma re­a­li­za­ção pes­so­al, que se con­cre­ti­za nes­te fim de se­ma­na: o Cir­co Má­gi­co do Negrão Sor­ri­so te­rá ses­sões ho­je e ama­nhã às 17h30 e 20h30. Os in­gres­sos cus­tam R$ 10 pa­ra adul­tos e R$ 5 pa­ra cri­an­ças.

O cir­co, que em Ma­rin­gá e re­gi­ção le­va o no­me do Negrão, na ver­da­de se cha­ma Ju­ba­ni. “O do­no é ar­gen­ti­no, a mu­lher e os fi­lhos são bra­si­lei­ros”, in­for­ma o ar­tis­ta e po­lí­ti­co. A fa­mí­lia es­ta­va se apre­sen­tan­do no Rio Gran­de do Sul, pas­sa­ram por apre­sen­ta­ções em San­ta Ca­ta­ri­na até che­ga­rem ao Pa­ra­ná – on­de Jo­nes Dark já se apre­sen­tou inú­me­ras ve­zes em ci­da­des da re­gião com su­as per­for­man­ces da TV. São qua­tro per­so­na­gens: o Sel­va­gem, o Cai­pi­ra, o Fa­xi­nei­ro e o pró­prio Negrão Sor­ri­so. “Já tra­ba­lho com es­se cir­co há 10 anos, ele vi­a­ja o Bra­sil in­tei­ro mas quan­do pas­sa na re­gião eu me apre­sen­to. Par­ti­ci­po tam­bém de ou­tros cir­cos, mas meu so­nho era par­ti­ci­par de um cir­co em Ma­rin­gá”, con­ta.

É nes­se am­bi­en­te que o lo­cu­tor de ro­deio, ra­di­a­lis­ta, apre­sen­ta­dor de TV e ve­re­a­dor re­ce­be a re­por­ta­gem. Ves­ti­do com uma ca­mi­sa po­lo pre­ta, cal­ça je­ans, cha­pe­lão, anéis de pra­ta, ele vai além de me­ter o pé na la­ta e ba­lan­çar o li­mo­ei­ro: com- par­ti­lha um pou­co da sua his­tó­ria, lem­bran­ças da in­fân­cia e a in­ten­ção de se lan­çar can­di­da­to a de­pu­ta­do. O ob­je­ti­vo aqui é res­ga­tar um pou­co do hu­mor que o cir­co an­ti­ga­men­te ti­nha? Cir­co é cul­tu­ra. Es­sa cul­tu­ra es­tá mor­ren­do, tem pou­cos cir­cos ho­je e nos­so cir­co aqui não tem bes­tei­ra. É só coi­sa sa­dia, edu­ca­ti­va. Não tem bes­tei­ra, não tem ges­tos de bes­tei­ra. Até por­que eu sou uma pes­soa que nun­ca fu­mei, nun­ca be­bi, não gos­to des­sas coi­sas. Sou ca­tó­li­co, gra­ças a Deus. Re­cor­da a pri­mei­ra vez que vo­cê foi a um cir­co? Lem­bro, lem­bro sim. Foi lá na mi­nha re­gião [em Goi­o­e­rê]. Que­ria ir no cir­co mas eu era de uma fa­mí­lia mui­to po­bre. Aí eu fa­lei pa­ra o do­no que que­ria en­trar, e ele fa­lou que en­trar de gra­ça eu não ia en­trar, mas que se eu qui­ses­se eu po­dia ven­der pi­po­ca e al­go­dão do­ce e as­sis­tir ao es­pe­tá­cu­lo. En­tão eu fa­zia is­so em to­do cir­co que ia lá. Des­de es­sa épo­ca vo­cê te­ve von­ta­de de tra­ba­lhar na área ar­tís­ti­ca? Sem­pre ti­ve es­sa von­ta­de. As­sim, foi a pri­mei­ra opor­tu­ni­da­de por­que eu mo­ra­va na ro­ça, que­ria ven­cer na vi­da pa­ra po­der aju­dar mi­nha fa­mí­lia. Che­go aqui em Ma­rin­gá, as cri­an­ças se iden­ti­fi­cam co­mi­go e o cir­co tem tu­do a ver com cri­an­ça e Negrão Sor­ri­so. Ho­je vo­cê con­se­gue cum­prir es­se so­nho de aju­dar a fa­mí­lia? Gra­ças a Deus! Meus fi­lhos não pas­sam o que pas­sei. Fui cri­a­do sem pai, pas­sei di­fi­cul­da­des, fo­me. Re­pe­ti três anos se­gui­dos na pri­mei­ra sé­rie por­que eu ia es­tu­dar com fo­me. Ia só pa­ra co­mer, e lá ti­nha pou­ca co­mi­da. Eu ia com o pé­zão no chão por­que mi­nha mãe não ti­nha di­nhei­ro pa­ra com­prar cal­ça­do. Foi uma vi­da mui­to so­fri­da que ti­ve. Vo­cê veio pa­ra Ma­rin­gá em 1990. Tra­ba­lhou do quê quan­do che­gou? Já tra­ba­lhei no jor­nal O Diá­rio. Eu ia en­tre­gar jor­nal de bi­ci­cle­ta e fi­ca­va rin­do à noi­te, dan­do ri­sa­da al­to. Não po­dia ver na­da que eu da­va ri­sa­da. Era mui­to es­can­da­lo­sa a ri­sa­da. Já tra­ba­lhei de vi­dra­cei­ro, bor­ra­chei­ro, se­gu­ran­ça, ser­ven­te de pe­drei­ro. To­do ser­vi­ço bra­çal eu fiz, só nun­ca ma­tei, nun­ca rou­bei e nun­ca to­mei be­bi­da al­coó­li­ca, nun­ca bo­tei ci­gar­ro na bo­ca. Eu ti­nha tu­do pa­ra ir pa­ra o ou­tro la­do, mas vai da ca­be­ça de ca­da pes­soa. De­pois de pas­sar por vá­ri­as pro­fis­sões, quan­do foi que sur­giu o per­so­na­gem “Negrão Sor­ri­so”? Sur­giu quan­do eu ti­nha 25 anos de ida­de, de 2001 pa­ra 2002. Eu nun­ca fiz cur­so de lo­cu­tor, nun­ca fiz cur­so de te­a­tro, é um dom que Deus me deu de­pois de ve­lho. Por­que 25 anos já é ve­lho de­mais pa­ra co­me­çar nis­so. O que vo­cê pre­ten­de fa­zer en­quan­to ve­re­a­dor pa­ra au­xi­li­ar a área de cul­tu­ra de Ma­rin­gá? Ó, eu já fiz um pro­je­to pa­ra ter nas es­co­las a Se­ma­na do Cir­co. Vai ter vá­ri­as atra­ções nas es­co­las, e ali a in­ten­ção é des­co­brir ta­len­tos, por­que do cir­co sai can­tor, sai ator, tu­do tem co­mo ba­se o cir­co, que é um te­a­tro. Foi o co­me­ço de tu­do. Os can­to­res fa­mo­sos, To­ni­co e Ti­no­co, Zi­co e Ze­ca, iam em cir­co. Não ti­nha par­que de ex­po­si­ções, es­sas coi­sas. A mi­nha fa­mí­lia não é cir­cen­se nem na­da, mas eu gos­to des­sa cul­tu­ra. O que vo­cê acha do atu­al ce­ná­rio cul­tu­ral de Ma­rin­gá? Tá um pou­co me­lhor, mas tem mui­to a me­lho­rar. Tem que va­lo­ri­zar as pes­so­as de raí­zes e a gen­te vê que a mai­o­ria das pes­so­as da cul­tu­ra in­cen­ti­va o pes­so­al bem de vi­da. Tem que in­cen­ti­var o po­vão! Tem que in­cen­ti­var aque­le ator, aque­la pes­soa que faz par­te da cul­tu­ra e é po­bre, tem que in­cen­ti­var eles tam­bém. Não clas­si­fi­car as pes­so­as pe­lo que ela tem, mas pe­lo que ela faz. Na ver­da­de, a cul­tu­ra do po­vão em si é mais sim­ples, mais ser­ta­ne­ja, hu­mil­de, cai­pi­ra. Ago­ra, a na­ta quer aqui­lo que vem pa­ra cá com aque­les ato­res fa­mo­sos, pes­so­al que dá pa­les­tra. In­gres­so ho­je é mais de R$ 30 e um pai de fa­mí­lia não tem co­mo pa­gar is­so. Se pa­ga, fi­ca o mês in­tei­ro sem co­mer. Tal­vez eu es­ten­da o Cir­co do Negrão Sor­ri­so aos bair­ros de Ma­rin­gá pa­ra o po­vão acom­pa­nhar. É um pre­ço po­pu­lar, cin­co, dez re­ais. Hou­ve uma po­lê­mi­ca por­que vo­cê pen­sou em pe­dir afas­ta­men­to da Câ­ma­ra de Ve­re­a­do­res pa­ra se de­di­car ao cir­co... Ve­ja bem, ve­ja bem: co­mo fa­ço ro­deio, tem to­do fi­nal de se­ma­na, nar­rei o ro­deio de Bar­re­tos, que é o me­lhor ro­deio do mun­do, te­nho pro­gra­ma de rá­dio to­dos os di­as, te­nho o pro­gra­ma de te­le­vi­são e sou ve­re­a­dor. São mui­tas fun­ções. Eu nun­ca fal­tei a uma ses­são. Con­ver­sei pa­ra ver se ti­nha a pos­si­bi­li­da­de de me afas­tar uns di­as pa­ra me de­di­car ao cir­co, mas con­ver­san­do com o po­vão, o cir­co é sá­ba­do e do­min­go, fi­nal de se­ma­na, e a ses­são [da Câ­ma­ra] é ter­ça e quin­ta, en­tão não atra­pa­lha em na­da. Dá pa­ra fa­zer to­das as fun­ções que eu fa­ço tran­qui­lo e cal­mo. Mas pri­mei­ro con­ver­sei com o po­vo, pe­di uma opi­nião pro po­vo pa­ra ver o que o po­vo fa­la­va. E o po­vo fa­lou: “Não, ne­gão, nós não que­re­mos que vo­cê saia, vo­cê tem que ser ve­re­a­dor e tem que ser nos­so de­pu­ta­do!”. O po­vo quer o Negrão Sor­ri­so de­pu­ta­do tam­bém. En­tão po­de­mos es­pe­rar uma can­di­da­tu­ra pa­ra de­pu­ta­do? Se o meu par­ti­do, que é o par­ti­do do Ri­car­do Barros, achar que é bão (si­co) eu sair de­pu­ta­do, es­tou à dis­po­si­ção do par­ti­do. E qual foi a re­cep­ti­vi­da­de des­se mes­mo pú­bli­co quan­do as pes­so­as sou­be­ram do cir­co? Ado­ra­ram. Só não que­rem que eu lar­gue de ser ve­re­a­dor, por­que afi­nal de con­tas fo­ram 3.958 vo­tos. Fui o ter­cei­ro ve­re­a­dor mais vo­ta­do de Ma­rin­gá. Não que­rem que eu pa­re de ser ve­re­a­dor pa­ra me de­di­car a ou­tros tra­ba­lhos. Eles que­rem que eu se­ja ve­re­a­dor e fa­ça tra­ba­lho no cir­co, ro­deio, fa­ça tu­do. É is­so que eu gos­to, que eu qu­e­ro. Não vou dar a va­ga pa­ra nin­guém, vou con­ti­nu­ar sen­do ve­re­a­dor e fa­zen­do o tra­ba­lho que eu fa­ço. O ve­re­a­dor mais po­pu­lar de Ma­rin­gá é o Negrão Sor­ri­so! Na rua, to­do mun­do me co­nhe­ce, brin­cam co­mi­go, dão si­nal, ti­ram fo­to­gra­fia co­mi­go. Pes­so­al vai no meu ga­bi­ne­te pa­ra dar um abra­ço, ti­rar fo­to e gra­ças a Deus é des­se jei­to.

Rafael Sil­va

Ter­cei­ro ve­re­a­dor mais vo­ta­do da ci­da­de, Negrão Sor­ri­so apre­sen­ta qua­tro per­so­na­gens no cir­co

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