Gushi

O Diario do Norte do Parana - - O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ -

nas­ci­do PT. Sem es­se em­pur­ra­em­pur­ra o par­ti­do ja­mais te­ria cres­ci­do tan­to. Gushi­ken foi mi­li­tan­te e di­ri­gen­te sin­di­cal, de­pu­ta­do fe­de­ral, pre­si­den­te de par­ti­do, co­or­de­na­dor de cam­pa­nha presidencial e mi­nis­tro da Re­pú­bli­ca. Nun­ca per­deu a co­ra­gem, a sim­pli­ci­da­de e a elegância. Quan­do a es­quer­da ves­tia pon­cho e con­ga, e cur­sa­va PUC e USP, ele fa­zia FGV usan­do sa­pa­tos de pe­li­ca e ter­nos de gri­fe. Nun­ca o vi de­fen­der bu­ro­cra­ti­ca­men­te po­si­ções par­ti­dá­ri­as. Seus ar­gu­men­tos eram sem­pre po­lí­ti­cos, de uma ló­gi­ca des­con­cer­tan­te. Eu era de um pe­que­no grupo in­de­pen­den­te, que to­das as cor­ren­tes po­lí­ti­cas co­bi­ça­vam. Gushi nun­ca ten­tou nos co­op­tar. Con­ver­sa­va de igual para igual. Res­pei­ta­va-nos co­mo se fôs­se­mos um par­ti­do de fa­to. A ex­ten­são da sua li­de­ran­ça se re­fle­tia no público do ve­ló­rio. Ali es­ta­vam to­das as alas do PT, além de anar­quis­tas, in­de­pen­den­tes, par­ti­dos de cen­tro-es­quer­da, ca­tó­li­cos, bu­dis­tas e evan­gé­li­cos. Um pas­tor fez a ora­ção fú­ne­bre. Gushi não se en­vol­veu no men­sa­lão, em­bo­ra fos­se o ti­tu­lar da Se­cre­ta­ria de Co­mu­ni­ca­ção, pas­ta sem­pre vul­ne­rá­vel a ma­ra­cu­tai­as. Es­se de­ta­lhe mos­tra o quan­to ele era ra­di­cal em seus prin­cí­pi­os. Ima­gi­no as pres­sões que so­freu para ade­rir à “re­al­po­li­tik” bra­si­lei­ra. Os as­sé­di­os. As ten­ta­ções. Mas ele re­sis­tiu. Ile­so, po­rém ma­go­a­do, saiu da vi­da pú­bli­ca e re­co­lheu­se à vi­da no In­te­ri­or. Su­til­men­te. Sem es­tre­lis­mos, sem ati­rar em nin­guém, sem le­van­tar um grão de po­ei­ra. Es­sa dis­cri­ção não foi qu­e­bra­da nem quan­do – cer­ca­do por po­lí­ti­cos, sin­di­ca­lis­tas e mi­li­tan­tes – seu cai­xão bai­xou à se­pul­tu­ra. Dois jo­vens abri­ram si­len­ci­o­sos uma tí­mi­da ban­dei­ra ver­me­lha. Na­ri­zes fun­ga­ram. Um sa­biá pi­ou, um joão-de-bar­ro res­pon­deu. Um ôni­bus ron­cou na su­bi­da. O res­to era si­lên­cio. Gushi di­zia que três coi­sas le­vam um ho­mem ao fra­cas­so: po­der, di­nhei­ro e mu­lhe­res. Na­da te­nho con­tra di­nhei­ro e mu­lhe­res, mas li em al­gum lu­gar que o po­der não cor­rom­pe: re­ve­la. Luiz Gushi­ken che­gou ao po­der e ali re­ve­lou a for­ça de su­as con­vic­ções e a fir­me­za do seu ca­rá­ter. Não se dei­xou se­du­zir, nem des­lum­brar, nem cor­rom­per. Mos­trou que sim, é pos­sí­vel não apo­dre­cer no po­der. Sim, nós po­de­mos ter po­lí­ti­cos ín­te­gros e fiéis a ide­ais. Ele não foi per­fei­to. Não foi san­to, nem he­rói. Foi ape­nas o Gushi da Li­be­lu. E foi mui­to.

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