Da bar­be­a­ria, Gaudêncio viu a Vi­la Ope­rá­ria cres­cer

O Diario do Norte do Parana - - MARINGÁ - Luiz de Car­va­lho car­va­lho@odi­a­rio.com

Há50a­nos,uma­fa­ta­li­da­de le­vouGau­dên­ci­oUeha­ra­pa­ra as­te­sou­ras,na­va­lha­se­pen­tes. Ho­je,or­gu­lha-se­da­pro­fis­são que­pos­si­bi­li­tou­os­três­fi­lhos se­for­ma­rem­nau­ni­ver­si­da­de.

Aos 68 anos, Gaudêncio Ueha­ra já tem meio sé­cu­lo de tra­ba­lho co­mo bar­bei­ro, o que o faz um dos mais an­ti­gos pro­fis­si­o­nais do ra­mo em Ma­rin­gá. O que ele tem cer­te­za é que, en­tre os pou­cos mais de mil sa­lões e bar­be­a­ri­as da ci­da­de, a de­le, na Ave­ni­da Ri­a­chu­e­lo, é a mais an­ti­ga. Foi fun­da­da pe­lo pai em 1953, épo­ca em que a Vi­la Ope­rá­ria ain­da es­ta­va em for­ma­ção e a ci­da­de se re­su­mia a uma fai­xa desde o Ma­rin­gá Ve­lho à Vi­la Ope­rá­ria, ten­do a Ave­ni­da Bra­sil co­mo es­pi­nha dor­sal.

Ho­je, Gaudêncio se or­gu­lha em ter vis­to a vi­la cres­cer ao re­dor da bar­be­a­ria, na es­qui­na da Ri­a­chu­e­lo com Rua Bar­ro­so, a me­nos de 100 me­tros de dis­tân­cia do cen­tro es­por­ti­vo da Ope­rá­ria. Ou­tro or­gu­lho é man­ter na bar­be­a­ria a ca­dei­ra que foi com­pra­da pe­lo pai, o pi­o­nei­ro Mário Ueha­ra, o Mário Ja­po­nês, quan­do cri­ou a bar­be­a­ria, em 1953. “Com es­ta ca­dei­ra meu ve­lho man­te­ve a fa­mí­lia por mui­tos anos de­pois que dei­xou as la­vou­ras de ca­fé que mo­vi­men­ta­ram a eco­no­mia da épo­ca”, con­ta o bar­bei­ro.

Se­gun­do ele, na épo­ca a ci­da­de vi­via um al­vo­ro­ço, com gen­te che­gan­do do Bra­sil in­tei­ro pa­ra tra­ba­lhar nas fa­zen­das de ca­fé, em­pre­sas nas­ci­am pa­ra to­do la­do e a ci­da­de cres­cia em um rit­mo alu­ci­nan­te. “Eu era pe­que­no, mas lem­bro que a ca­da ho­ra en­tra­va um fre­guês que aca­ba de che­gar à ci­da­de”. Tam­bém se lem­bra de ca­sas e mais ca­sas sen­do cons­truí­das na Vi­la Ope­rá­ria e no­vos es­ta­be­le­ci­men­tos co­mer­ci­ais nas­cen­do ao lon­go daRi­a­chu­e­lo.

Foi a mor­te do pai que co­lo- cou Gaudêncio na mes­ma pro­fis­são. “Eu era um me­ni­no, que vi­via jo­gan­do bo­la nos cam­pos de ter­ra ba­ti­da da­qui da vi­la, quan­do mi­nha mãe me in­ti­mou, di­zen­do que eu ti­nha que as­su­mir a bar­be­a­ria, por­que a fa­mí­lia pre­ci­sa so­bre­vi­ver”, re­cor­da.

O no­vo bar­bei­ro não ti­nha a me­nor ideia de co­mo em­pu­nhar uma na­va­lha, não co­nhe­cia cor­te de ca­be­lo de al­gum e nem ti­nha as­sun­to pa­ra os fre­gue­ses. Mas, os ami­gos do ve­lho Mário Ja­po­nês en­ten­de­ram a ne­ces­si­da­de da fa­mí­lia e se man­ti­ve­ram fre­gue­ses. “Eu jo­ga­va no time do Ope­rá­rio e meus ami­gos ser­vi­ram de co­baia. Mes­mo ci­en­tes de que eu não ti­nha do­mí­nio da pro­fis­são, eles vi­nham cor­tar o ca­be­lo aqui e as­sim fui apren­den­do, ga­nhan­do al­gum di­nhei­ro e cri­an­do gos­to pe­la pro­fis­são”, des­ta­ca.

Com 50 anos de tra­ba­lho, Ueha­ra con­ser­va fre­gue­ses an­ti­gos. Al­guns, há mais de 40 anos. Ou­tros com me­nos tem­po, co­mo o cha­pei­ro João Cor­reia do Nas­ci­men­to, que mo­ra há 25 anos na Ope­rá­ria.

O bar­bei­ro diz que a pro­fis­são pra­ti­ca­men­te não se al­te­rou nas úl­ti­mas dé­ca­das. “Uma das pou­cas no­vi­da­des é que tro­ca­mos as an­ti­gas na­va­lhas pe­sa­das por bar­be­a­do­res com lâ­mi­nas des­car­tá­veis e, ho­je, to­das as má­qui­nas de cor­tar ca­be­lo são elé­tri­cas. O res­to con­ti­nua do mes­mo jei­to”, res­sal­ta.

Ele diz não se ar­re­pen­der de pas­sar tan­tos anos em uma pro­fis­são que não es­co­lheu, pois, cor­tan­do ca­be­lo e bar­ba con­se­guiu man­ter os ir­mãos até que se tor­nas­sem in­de­pen­den­tes e, de­pois, os três fi­lhos, to­dos com cur­so su­pe­ri­or. Mas, sen­te que bar­be­a­ria não é mais o ra­mo van­ta­jo­so de an­ti­ga­men­te. An­tes, da­va pa­ra ga­nhar de 10 a 12 sa­lá­ri­os mí­ni­mos, por mês, ho­je, com tan­ta con­cor­rên­cia - nos se­te quar­tei­rões da Ri­a­chu­e­lo há 16 sa­lões e bar­be­a­ri­as - bar­bei­ro tem que co­me­mo­rar quan­do ga­nha o equi­va­len­te a cin­co mí­ni­mos.

—FO­TO: DOU­GLAS MAR­ÇAL

DES­TI­NO. O bar­bei­ro in­gres­sou na pro­fis­são com a mor­te do pai, o Mário Ja­po­nês, que cri­ou a bar­be­a­ria em 1953.

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