Pro­me­teu

O Diario do Norte do Parana - - CULTURA -

Sin­to gri­lhões en­la­ça­rem os meus bra­ços e uma voz eco­ar. – Aper­te mais, en­tre­la­ce-o, cra­ve as cor­ren­tes na ro­cha. Ba­ta mais! Aper­te! Ou­ço o som con­tí­nuo do mar­te­lo a fin­car, nes­te mal­di­to ro­che­do, as pon­tas de um me­tal in­des­tru­tí­vel. A for­ça da cor­ren­te aper­ta-me o pei­to, su­fo­can­do-me os pul­mões. E a voz per­fu­ra-me. – Pas­se as cor­ren­tes pe­los qua­dris. Ja­mais se es­que­ce­rá do pre­ço da ar­ro­gân­cia, mi­se­rá­vel. Apri­si­o­ne as per­nas. Es­cu­to as cor­ren­tes si­bi­la­rem quais ví­bo­ras. O que fiz pa­ra me­re­cer ta­ma­nho cas­ti­go, a não ser des­per­tar a cons­ci­ên­cia no bar­ro? Que é pre­ci­so não se con­for­mar com a for­ma, po­rém trans­for­mar a ma­té­ria bru­ta ao que se tem em men­te. Que é pre­ci­so olhar à vol­ta e rom­per li­mi­tes. Que é pre­ci­so não de­se­jar a mor­te e acre­di­tar ce­ga­men­te no fu­tu­ro, ain­da que a car­ne apo­dre­ça e re­vi­go­re-se so­bre pe­dras. O que eram os se­res hu­ma­nos? Som­bras de ani­mais que se ar­ras­ta­vam du­ran­te o dia, es­con­di­am-se en­tre as ár­vo­res, te­mi­am a es­cu­ri­dão e apa­vo­ra­vam-se di­an­te da be­le­za do raio e da po­tên­cia do tro­vão. Fiz des­ce­rem das ár­vo­res e po­rem-se em pé. Na­da os im­pe­di­rá de ca­mi­nhar. En­si­nei es­con­ju­ros, po­ções de fei­ti­ço e o do­mí­nio das er­vas. Es­for­cei-me pa­ra que apren­des­sem, com a con­for­ma­ção das nu­vens, o mo­men­to da chu­va e a ho­ra da co­lhei­ta. Re­ve­lei os si­nais do Sol, as fa­ses da Lua, as­sim co­mo o va­lor do su­or ao ras­gar a ari­dez do so­lo pa­ra ne­le plan­tar a se­men­te de uma no­va vi­da. Apon­tei o fir­ma­men­to e mos­trei o se­gre­do das cons­te­la­ções pa­ra gui­a­rem-se, se­ja an­de­jar so­bre a Ter­ra se­ja na­ve­gar o Mar. Dei a me­mó­ria, a ma­gia dos nú­me­ros, a pla­ní­cie das tin­tas, as on­das da mú­si­ca e o rei­no das pa­la­vras a par­tir dos quais tu­do é pos­sí­vel. Ar­te e co­nhe­ci­men­to ad­vêm de mim, en­quan­to os re­lâm­pa­gos pre­nun­ci­am ape­nas a chu­va, ig­no­ran­do os re­fle­xos do olhar de al­gum deus rai­vo­so. En­car­ce­ra­do, re­ce­bi uma ove­lha in­sa­na que me ba­liu ter so­nha­do que se­ria pos­suí­da pe­lo no­vo se­nhor do Céu. Sim, re­for­cei, de fa­to acon­te­ce­ria co­mo acon­te­ceu e con­fi­den­ci­ei que de­la nas­ce­ria o cor­dei­ro a des­tro­nar o no­vo se­nhor do Céu que, ira­do, por eu não ter a Ele re­ve­la­do quem se­ria es­te a de­sa­fiáLo, lan­çou-me a es­te cal­vá­rio, co­mo eu a sín­te­se dos pe­ca­dos. Se­nhor do fo­go e de­ten­tor da luz da ci­ên­cia, fui iden­ti­fi­ca­do ao demô­nio ex­pul­so do Céu por tê-Lo de­sa­fi­a­do, bem co­mo ti­ve o cor­po re­fei­to, de no­vo re­nas­ci­do e acor­ren­ta­do nes­te ro­che­do no qual sou vi­si­ta­do por uma águia que me destroça o fí­ga­do, au- men­tan­do o fel em mi­nha bo­ca, a lá­gri­ma na mi­nha fa­ce e a fú­ria em meus olhos ao des­co­brir que a ra­pi­na res­pon­de por João. Ago­ra en­ten­do que a pro­fe­cia es­tá por ser con­cre­ti­za­da e te­rei a mi­nha pe­na des­fei­ta. Se­rei per­do­a­do por al­guém que, nes­te ins­tan­te, es­tá sen­do pre­ga­do em uma cruz. Do al­to des­ta mon­ta­nha, pron­ta a des­per­tar-se em vul­cão e aos pou­cos co­ber­ta por cin­zas e por meu san­gue ti­tâ­ni­co, iden­ti­fi­co He­fes­to, trans­ver­ti­do de sol­da­do ro­ma­no, uti­li­zan­do os cra­vos que me acor­ren­tam pa­ra cru­ci­fi­cá-lo. Sin­to He­fes­to co­a­gi­do por ter de cum­prir, eter­na­men­te, as or­dens do se­nhor do Céu. He­fes­to, no­va­men­te, mur­mu­ra que os pre­gos que o per­fu­ram são pa­ra lem­brá-lo do pre­ço pa­go por tra­zer sal­va­ção à hu­ma­ni­da­de. A mes­ma sal­va­ção que me le­vou ser aqui apri­si­o­na­do. Ve­jo o cru­ci­fi­ca­do vi­si­ta­do por sua mãe, aque­la que um dia me veio sob a pe­le de ove­lha. Ve­jo tan­tos blas­fe­ma­rem, cha­man­do-o lou­co var­ri­do. Cor­dei­ro Pro­me­ti­do! Gri­ta de­ses­pe­ra­do ao Céu co­mo um dia bra­dei. E ago­ra olha pa­ra a so­li­dão da ro­cha e me vê. Cha­ma-me por di­ver­sos no­mes, as­sim co­mo, ao as­cen­der, li­ber­ta-me fi­nal­men­te das cor­ren­tes e mos­tra que so­mos um só, por­que os deu­ses pas­sam e o ho­mem con­ti­nua, ele­gen­do-se deus de si mes­mo.

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